A incorporação da agenda climática ao planejamento de longo prazo nos estados brasileiros é apontada como essencial para reduzir desigualdades, enfrentar eventos extremos e orientar investimentos públicos. Essa é uma das principais conclusões da 2ª edição do Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, elaborado pelo Centro Brasil no Clima (CBC) e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio do Instituto Itaúsa.
O levantamento ressalta que as 27 unidades federativas têm papel decisivo na implementação de metas nacionais e compromissos internacionais relacionados ao clima. É no nível estadual que se concretizam ações como transição energética, combate ao desmatamento, recuperação de áreas degradadas e aprimoramento de políticas de prevenção a desastres.
Segundo os organizadores, o anuário busca fortalecer a coordenação entre União, estados e municípios, a partir da sistematização de dados e da ampliação da transparência. A publicação também consolida informações que antes estavam dispersas, contribuindo para decisões públicas mais qualificadas.
O estudo aponta avanços na governança climática, mas de forma desigual entre os estados. Enquanto algumas unidades já contam com planejamento estruturado, inventários de emissões atualizados e instrumentos de monitoramento, outras ainda enfrentam limitações institucionais, fiscais e de gestão. Essa heterogeneidade é considerada um dos principais entraves para a efetividade da política ambiental no país.
Ao reunir indicadores sobre emissões, orçamento, adaptação e riscos climáticos, o anuário oferece um panorama comparável da resposta dos estados à crise climática. O documento também reforça que eventos extremos — como enchentes, secas e ondas de calor — têm se tornado mais frequentes e intensos, impactando economias e populações em todo o território nacional.
A publicação amplia ainda o debate ao integrar temas como uso da terra, agropecuária, energia, transporte, indústria, resíduos e saneamento, destacando que a agenda climática ultrapassa o campo ambiental e envolve dimensões econômicas e sociais. O texto ressalta que os custos da inação já superam os investimentos necessários em prevenção, pressionando orçamentos públicos e ampliando desigualdades.
Eventos extremos reforçam urgência
A importância do anuário ganha ainda mais relevância diante de desastres recentes no país. Entre os casos citados estão as chuvas intensas na Zona da Mata de Minas Gerais, que resultaram em dezenas de mortes, além das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que afetaram a maior parte dos municípios do estado e deixaram um elevado número de vítimas.
O levantamento também aponta que 2024 foi marcado por eventos climáticos severos, como secas históricas, incêndios florestais e ondas de calor. Já 2025 registrou avanços institucionais, impulsionados pela mobilização em torno da COP30 e pela criação de novos instrumentos de planejamento climático.
Principais destaques
Entre os pontos centrais da publicação, está a lacuna na adaptação climática, ainda marcada por ações reativas em vez de planejamento preventivo. Apesar disso, estados vêm avançando na criação de planos de contingência e adesão a programas federais voltados à adaptação.
Na área de governança, o anuário identifica maior integração da pauta climática ao planejamento orçamentário, com a adoção do chamado orçamento climático em alguns estados. No entanto, ainda há escassez de metas mensuráveis nos instrumentos de gestão pública.
O estudo também aponta fragilidades na implementação de políticas ambientais, como falhas na análise de cadastros rurais em diversos estados, o que compromete a efetividade de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Por outro lado, a publicação destaca iniciativas inovadoras, como leis voltadas à justiça climática e apoio a populações vulneráveis, além de avanços em práticas agropecuárias mais sustentáveis e no potencial de recuperação de pastagens.
No campo das emissões, o relatório evidencia diferenças regionais significativas, com destaque para o papel da preservação florestal na captura de carbono e para os impactos do uso da terra e da agropecuária nos índices estaduais.
De forma geral, o anuário reforça que o fortalecimento da política climática no Brasil depende da articulação entre os diferentes níveis de governo e da capacidade dos estados de implementar estratégias eficazes diante dos desafios impostos pela crise do clima.