Em Santo Amaro, uma corrente de solidariedade tem mobilizado moradores, amigos e até pessoas de outros estados e países em torno de um único objetivo: devolver dignidade, autonomia e esperança ao adolescente Jefferson Marques dos Santos, de 14 anos, aluno do Colégio Militar Tiradentes.
Há nove meses, a rotina do adolescente mudou drasticamente. Durante um mergulho no rio Alegre, ele sofreu um grave acidente que resultou em uma lesão séria na coluna. Desde então, ficou paraplégico. O menino que antes corria atrás da bola, ajudava a mãe e o padrasto na venda de peixes na feira e sonhava em ser jogador de futebol na Europa, hoje passa os dias deitado em uma cama, em um quarto pequeno e sem ventilação adequada. O maior desejo dele é simples e ao mesmo tempo gigante: voltar para a escola.
Sem uma cadeira de rodas apropriada, Jefferson não consegue se locomover. Além disso, enfrenta dificuldades para comparecer às consultas médicas em São Luís, já tendo perdido atendimentos por falta de transporte adequado. Ele também precisa de acompanhamento constante com fisioterapeuta e psicólogo, algo que, até o momento, não acontece como deveria.
Uma inquietação que virou campanha
Ao visitar o aluno e perceber a situação delicada da família, o professor Marco Aurélio Costa Ribeiro, 52 anos, formado em Geografia, Artes e Teologia, se inquietou com aquela situação e decidiu agir.
“A ideia da campanha surgiu quando vi o estado em que o Jefferson se encontrava, já há nove meses em cima de uma cama, praticamente sem assistência do poder público, e também pela aflição da mãe dele, já bastante desgastada emocional e fisicamente, mas resiliente, cuidando dele praticamente sozinha”, relata o professor.
A mobilização começou com a arrecadação para a compra de uma cadeira de rodas reclinável, com apoio retrátil para as pernas, acolchoada e com rodas resistentes, necessária para enfrentar as ruas de bloquetes da cidade. Mas o objetivo foi além: adaptar a casa, especialmente o quarto, o banheiro e a calçada, para garantir mobilidade e qualidade de vida ao estudante.

A escola se mobilizou desde os primeiros dias após o acidente, com doações de alimentos, fraldas geriátricas e ajuda financeira. Professores organizaram campanhas para arrecadar mantimentos e montar cestas básicas. E a resposta veio.
“Houve contribuições de pessoas daqui, de outros estados e até de fora do Brasil. Pessoas que conheci durante a alta temporada do turismo em Santo Amaro também ajudaram. No meio desse processo, encontramos histórias semelhantes de superação, e isso nos motiva”, conta Marco.
Mobilização que também busca alternativas
Marco Aurélio afirma que está preparando um ofício para o Governador do Maranhão e para a Secretaria de Saúde pedindo que coloque o Jefferson na fila para o experimento da Polilaminina.
“Ele é apenas uma criança ainda, e tem uma vida inteira pela frente intensamente. Acredito que, assim como todas as outras pessoas no mundo, ele tem direito de uma segunda chance de viver alegremente a aproveitar a vida dele de forma plena. Acho que isso que é o sentido da vida. E dá sentido na vida”.
Muita emoção e empatia
Jefferson é descrito por todos como um menino bom, querido e companheiro. Seus colegas estudam juntos desde o Ensino Fundamental I. Muitos estavam com ele no dia do acidente.
A reação da turma foi de choro e tristeza. A ausência do amigo na sala de aula pesa. E para o próprio Jefferson, o impacto emocional tem sido profundo.
“Ele praticamente não sorri mais. Tem um semblante triste. São nove meses deitado, sem movimentação dos membros inferiores. Para um adolescente super ativo, é forte demais”, desabafa o professor.
A campanha, segundo ele, não é apenas para arrecadar dinheiro. É também para mostrar ao jovem que ele não está sozinho.
“A solidariedade pode transformar a vida dele de várias formas. Mostrar que tem muita gente torcendo por ele ajuda também na parte emocional.”
Histórias cruzadas
A mobilização ganhou ainda mais força com o apoio do cabo Márcio Carvalho, que também atua no colégio e já teve uma história de solidariedade amplamente compartilhada no ano passado.
“Eu sou o cabo Márcio. Trabalho aqui no Colégio Militar. Quando aconteceu esse fato com o Jefferson, o professor Marco iniciou a campanha. Na segunda-feira de Carnaval, eu estava de serviço e vi o professor fantasiado, segurando um banner no meio do bloco, na praça. Resolvi tirar uma foto com ele e ajudar divulgando”, contou.

Márcio aproveitou contatos que fez após a repercussão de sua própria história e compartilhou a campanha.
“Graças a Deus, de terça-feira para cá, algumas pessoas ajudaram e estamos quase completando o valor da cadeira. Outras também decidiram contribuir. O que for arrecadado além da cadeira vai servir para fazer adaptações na casa do Jefferson”, destacou.
A fantasia citada por ele — de Homem de Ferro — chamou atenção nas redes sociais. O professor ficou por quatro horas em pé durante o Carnaval, divulgando a campanha. A atitude sensibilizou inclusive uma turista de São Paulo, que garantiu a doação da cadeira. Caso a doação se concretize, os valores arrecadados serão revertidos integralmente para as adaptações na residência e para auxiliar a mãe do adolescente.
Como ajudar
A campanha segue aberta até que a cadeira seja adquirida ou oficialmente doada. Além das contribuições financeiras, também são aceitas doações de:
Fraldas geriátricas
Óleos para massagem
Cama e colchão adequados
Materiais para reforma do quarto e banheiro
Cestas básicas
Chave PIX: 724.038.703-82 (Banco do Brasil – Marco Aurélio Costa Ribeiro)
Mais do que qualquer valor, a família pede empatia e compartilhamento. Divulgar a história é uma forma concreta de ajudar.
“A mensagem que deixo é que o que é simples na terra é grande no céu. Em tempos de tanta busca por likes, olhar para o lado e estender a mão para quem realmente precisa é a melhor curtida”, finaliza o professor.
Para Jefferson, cada compartilhamento pode representar um passo a mais rumo à escola e à reconstrução de um sonho que, embora transformado, ainda insiste em existir.