CIÊNCIA E SAÚDE

Desmistificando a hipnoterapia

Conversamos com um hipnoterapeuta para entender como funciona a prática da hipnose no tratamento de problemas emocionais

Tire da cabeça tudo o que você já viu sobre hipnose em filmes e na televisão. Hipnoterapia é um tratamento complementar, incluído no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2018, que busca reeducar a mente para que as pessoas foquem em coisas boas no lugar de ruins e em soluções ao invés de problemas.

O tratamento usa técnicas de relaxamento e meditação guiada para mapear experiências passadas do paciente que influenciam sua vida atual. Traumas como abusos sexuais e desencorajamento na infância podem refletir em depressão, síndrome do pânico, insônia, ansiedade e diversos outros fatores.

“Não é dominação mental. É um trabalho de entender as emoções, as memórias do indivíduo e como essas vivências podem estar se refletindo na vida presente”, explica o hipnoterapeuta Tiago Quevedo, de 35 anos.

Para praticar a profissão, é preciso ter uma formação superior e ser membro de uma sociedade de hipnose. Especialista em ansiedade e depressão, Quevedo conversou com O Imparcial sobre sua história, os mitos da prática de hipnose, como funciona o tratamento, explicou o que é o estado de transe e a inclusão da prática no SUS.

Confira a entrevista:

Como você escolheu essa profissão?

Há dez anos eu passei a sofrer de uma ansiedade muito severa. Eu tentei vários tipos de tratamento e todo esse processo de busca por autoconhecimento, de me entender e entender minhas emoções, culminou com a hipnoterapia. Eu fui a São Paulo fazer a melhor formação que existe no mundo em hipnoterapia, a Omni Hypnosis. Me apaixonei, comecei a trabalhar na área e hoje vivo isso e vivo disso, virou minha profissão.

Por que a hipnoterapia?

Foi um tratamento que me trouxe muitos benefício. Não faria em outras pessoas se não tivesse feito bem para mim. A hipnoterapia existe há bastante tempo. Mas aqui no Maranhão ela é muito recente. Não tem nada de religião e nem de místico. Ela é reconhecida como prática pela Medicina, Ortodontia, Fisioterapia e pelo mundo acadêmico. Mas tudo que é novo demanda um trabalho pedagógico. Estamos nesse movimento de desmistificar a hipnoterapia. Muitas vezes a primeira sessão é para isso, tiras os medos e mitos das pessoas antes de hipnotizar.

O que é a hipnoterapia?

Não é dominação mental. Não tenho o poder de fazer ninguém pensar o que eu quero. Hipnoterapia se trata de ressignificação e reeducação do subconsciente. Existem vertentes diferentes, como em qualquer ciência, mas basicamente a hipnoterapia é um tratamento complementar que se utiliza da hipnose como seu principal elemento. É um trabalho de entender as emoções, as memórias do indivíduo e como essas vivências podem estar se refletindo na vida presente.

O hipnoterapeuta Tiago Quevedo recebeu O Imparcial (Alan Azevedo / O Imparcial)

É um exercício de autoconhecimento?

A partir do momento que a pessoa se entende, consegue olhar dentro de si, ela consegue fazer a ressignificação de suas vivências. É uma viagem para dentro de si mesmo. Alguns especialistas chamam de meditação guiada. É uma reeducação para a mente focar na solução e em coisas positivas. A hipnoterapia faz o paciente entender por que só vê problemas e coisas negativas, e a própria pessoa em tratamento passa a pensar diferente.

O que é o estado de transe?

O transe é muito mistificado pela televisão. O transe nada mais é do que uma alteração da percepção ou da consciência do indivíduo. Se estou com os óculos no rosto e mesmo assim estou procurando os óculos, isso é um transe porque era para eu ter as percepções de sentir a armação no rosto e de que estou olhando através de uma lente. Mas estou tão focado, agitado, nervoso, com pressa, o que quer que seja, que ali há uma transe leve, há a alteração da percepção. Existem transes leves, profundas e ainda mais profundas. Transe é uma área que está sendo muito estudada. Cada indivíduo tem sua experiência, é bem relativo.

O vício, por exemplo, é uma transe. Muitas vezes existe um subconsciente emocional que está descontado algo naquele vício. Conscientemente, o indivíduo sabe que fumar três maços de cigarro por dia faz mal. Mas o subconsciente está descontando ali uma ansiedade, depressão, trauma, tristeza ou angústia. Vício em redes sociais também conta. A mente humana quer permanecer na inércia.

Como você induz o paciente ao estado de transe?

Começa com um relaxamento do indivíduo. Uso basicamente a minha voz. A pessoa fica acordada e consciente. Sabe aquele momento em que você ainda não adormeceu, mas se permite pensar de maneira consciente? Não existe uma força superior te impedindo de abrir os olhos. Conforme a pessoa vai imaginando o que eu vou falando, eu monitoro a fisiologia do transe, estimulo mais ou menos e às vezes o paciente se emociona.

Dependendo da sessão, não há necessidade de puxar emoções tão fortes. Mas em alguns casos, como de abuso, temos que chegar nesse problema. Para construir, às vezes precisamos destruir o que tem no lugar. Mas não se trata necessariamente de memórias reprimidas. Os pacientes apenas veem suas memórias de maneira mais intensa e vívida. Não é um trabalho de fazer a pessoas esquecer o que lembra ou lembrar o que esqueceu, isso é coisa de filme.

Como funciona a auto-hipnose?

A auto-hipnose é uma espécie de meditação. Nas minhas sessões eu ensino auto-hipnose. Mas o indivíduo tem que ter a noção de não criar muita expectativa nas primeiras vezes. É preciso treino. Para quem quer fazer, sugiro três passos: procure relaxar, traga memórias e sentimos bons e tente fazer uma projeção para o futuro. Por exemplo se eu vou dar uma palestra, eu já imagino que fiz a palestra, que deu tudo certo e as pessoas estão me elogiando. Eu crio essa realidade na minha mente. A mente humana tem dificuldade de discernir o que é realidade e o que não é. Então se seu penso em alguém me xingando, meu corpo responde, fica agitado, nervoso. Se eu penso em coisa boa, ele responde também, como se fosse real.

Quem procura o tratamento?

A hipnoterapia é usada por qualquer pessoa que tem um problema emocional. Por exemplo, você não é um grande líder porque é tímido. A hipnoterapia vai te ajudar, assim como vai ajudar quem tem medo de avião, quem tem compulsão alimentar ou insônia.

O que você acha da hipnoterapia integrar o SUS?

Acho muito interessante. Toda terapia que busque essa proposta de autoconhecimento é válida. Cada dia que passa a hipnoterapia tem um embasamento maior e o SUS não liberou à tôa, tem toda uma equipe que aprovou seu uso. É muito válido, vai ajudar a desmistificar.

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