ENTREVISTA

Os eleitores de Bolsonaro que votam em um governador comunista

Entrevista exclusiva com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que há anos vem estudando a ascensão da direita conservadora no Brasil.

No Maranhão, o primeiro estado governado por um político do Partido Comunista do Brasil na história do país e tido como reduto lulista, a força de Jair Bolsonaro começa a despontar, inclusive com candidatos que durante a campanha fizeram questão de aparecer ao lado de sua imagem. Entre os eleitores, aqueles que votam no governador comunista e no capitão do exército não são poucos. Mas a aparente incoerência ideológica esconde outras questões e não se restringe ao povo maranhense. É o que diz em entrevista exclusiva ao jornal O Imparcial a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), membro da Academia Britânica de Ensino Superior e professora visitante da Universidade de Harvard, onde realizou pesquisa de pós-doutorado.

Há anos estudando a ascensão da direita conservadora no país, ela começou sua pesquisa na periferia de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, no auge de uma política social do governo Lula. Mas o momento de euforia daquela época foi substituído pela descrença política, e no berço da esquerda ela viu surgir um movimento que está levando o eleitor do “lulismo ao bolsonarismo”.

A pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado faz uma análise do movimento que levou o eleitor do “lulismo ao bolsonarismo”.  (Foto: Joana Gutterres Berwanger)

Você pode explicar para o leitor maranhense um pouco da sua pesquisa?

Minha pesquisa tem mais de 9 anos, com minha colega Lúcia Scalco nós começamos estudando a política e a inclusão pelo consumo com os jovens da maior periferia de Porto Alegre no auge do lulismo, numa periferia onde foi o berço do “Orçamento Participativo” no Brasil, ou seja, uma cidade símbolo do petismo e da esquerda, onde nasce os experimentos da democracia radical. Depois, com o lulismo, começa essa fragmentação do modo de fazer política mais democrática, e passa a ter então esse momento desdemocratização e inclusão via consumo individual, pela inclusão financeira. O modelo mais neoliberal de inclusão via inclusão financeira.

É um momento de muita euforia desses jovens e dessas famílias pobres, mas é também um momento de despolitização, porque essas esferas comunitárias começam a ser fragmentadas. Nós estudamos esses jovens e o auge disso era os “rolezinhos”. Depois disso, depois das ocupações secundaristas de 2016, nós voltamos para o trabalho de campo acreditando que haveria uma virada à esquerda desses movimentos, que eram muito ambíguos, mas quando chegamos lá descobrimos que houve uma virada super à direita dos meninos, todos bolsonaristas. Já faz dois anos que nós estamos fazendo pesquisa com os jovens e com suas famílias sobre eleitores de Bolsonaro, já fizemos 37 grupos focais, é uma pesquisa longa, para fazer um livro, grande fôlego. E eu, como intelectual púbica e observadora do cenário, acabo fazendo pesquisa por conta própria também, entro nos grupos de whatsapp, por exemplo, estou sempre antenada e observando o que está acontecendo. Então, minha pesquisa é uma análise do movimento que levou o eleitor do “lulismo ao bolsonarismo”. 

E que significa o termo “bolsonarismo”, que você aplica para além da figura do candidato?

O bolsonarismo é um termo que eu tenho definido como “um movimento de ascensão da direita no Brasil”, de um país que sempre foi conservador. Eu tenho muita cautela em dizer que é o fascismo. Por quê? O Brasil sempre foi um país extremamente conservador. Então é uma ascensão, uma autorização que essa sanha conservadora saia pra fora. É um momento onde as pessoas são autorizadas a dizer o que antes não eram, porque enxergam na figura do Bolsonaro uma pessoa que legitima esse discurso de todas essas tensões e conflitos da sociedade brasileira. Bolsonarismo, principalmente, é um movimento de extrema-direita, de reorganização da direita politicamente, é um fenômeno de reorganização do campo da direita. Desde o momento em que houve o impeachment da Dilma, e o Aécio Neves é denunciado pela JBS, a partir dali há uma sensação popular… porque é dali que começa o crescimento de Bolsonaro, daquela época do impeachment. Com o “caso JBS” ele começa a crescer de forma extraordinária. Portanto, ali, nós vemos que o campo da direita se organiza, e o bolsonarimo é essa reorganização em torno de uma figura extrema, conservadora, que mantém um discurso sim que tende a ter fascista. E só não digo que é fascista porque o Brasil sempre matou a população LGBT e a população indígena. Mas é, de alguma maneira, um movimento um tanto quanto novo, no sentido de reorganizar um país que sempre foi violento, em torno da figura de um sujeito. E também, todo o campo antipetista, toda a sanha antipetista, se organiza em torno desse sujeito extremo, porque as pessoas preferem que tenha esse sujeito extremo, muitas delas, do que a volta do PT.

Por outro lado nós vemos nas camadas populares certo desespero, que eu tenho chamado de “um grito de socorro”, como disse recentemente em uma entrevista ao jornal espanhol El País, porque é uma população que, principalmente após a crise econômica, percebe os políticos, como dizem, como “tudo farinha do mesmo saco”. Uma crise que apertou, a vida que foi deteriorada, e em meio a crise que é onde surge os regimes totalitários, em meio a essa sensação de desgoverno, que é como um entrevistado na minha pesquisa descreveu o Brasil, “um carrinho sem freio descendo ladeira abaixo”.A sensação de parte do povo, que percebe que o Brasil está num caos, e na verdade nós estamos em um caos, estamos num limpo desde junho de 2013, com o sistema político-econômico destruído, e isso faz com que as pessoas sintam uma necessidade e reestruturação da ordem de novo. O bolsonarismo é esse momento de saída do PSDB e da Dilma de cena, e a sensação de que o país está à deriva, concentrando o antipetismo na extrema-direita. Então, nesse contexto de descrença política, numa crise sem precedentes, num país que sempre foi conservador, surge uma figura que autoriza que as pessoas coloquem para fora tudo aquilo que elas reprimiam, que é o ódio ao outro, o ódio ao diferente, o ódio que sempre existiu na sociedade brasileira, que antes tinha um certo pudor em dizer, uma certa vergonha, mas ele autoriza que isso venha para fora e ele legitima isso.

Então existe um padrão nos eleitores de Bolsonaro?

Não existe um padrão geral, mas eu vou tentar falar alguma coisa sobre isso: eu tenho definido que existem dois tipos. Um é o eleitor fã, que é apaixonado e segue o Bolsonaro faz dois anos, acredita em tudo que ele fala, diz que tudo contra ele é fakenews. Que se ele pede desculpa, acredita e acha ele maravilhoso. Que lota aeroporto, tira foto, desmaia… Aliás, nos temos uma entrevistada na pesquisa que sempre que vê ele pessoalmente desmaia, tipo aquelas fãs de Roberto Carlos, sabe!? Esse é um perfil muito grande do eleitorado dele, mas esses são seguidores dele faz dois anos já. E tem aquele perfil antipetista, de direita, que votaria no PSDB, mas com esse desastre que vem sendo o PSDB, acaba votando nele.

De modo geral, os dados nos mostram que os votos dele é um voto do sudeste e do sul, isso estatisticamente, em termos de perfil, um voto mais masculino, e de homens mais velhos. Então, quanto mais ao norte, mais jovem, e mais feminino, maior a rejeição de Bolsonaro. Logo, é uma concentração do poder patriarcal e rico do Brasil. De alguma maneira é o medo de tudo que representa esse novo Brasil pós-2013, que vem o feminismo com muita força, somado ao ódio antipetista. Então, nós vemos muito claramente que é um voto de preconceito. Mas, também, nós vimos no campo grande parte do eleitorado que vai votar por desespero, que é pobre sim, que é mulher, e que vota em Bolsonaro.

Aqui, eu quis dizer três coisas. A primeira é que existe esse eleitor fã em todas as classes sociais, que é, eu diria, um terço do eleitorado dele, que se põe como um porta voz, que acredita nele por amor. A segunda coisa é a questão estatística, do perfil do voto de um homens, mais do sudeste, com poder aquisitivo e mais velho.

Esse é um padrão, mas nesse momento quase todo mundo é eleitor do Bolsonaro, porque talvez 50% ou mais dos votos válidos sejam dele. Então tem muita mulher, muita gente pobre que vota, porque ele é um fenômeno eleitoral e consegue pegar a sociedade de diferentes razões, porque ele se coloca como o novo, como uma salvação, como o que pode mudar o país, e como antipetismo.

O Maranhão é um dos estados mais pobres do país, e Bolsonaro tem considerável intenção de voto não só no estado, mas em todo Nordeste. E isso vai de encontrão ao perfil traçado pela senhora. O que podemos pensar sobre?

No Sul, por exemplo, o Bolsonaro é maioria, mas não nas periferias, é muito pouco. Ou melhor, tem muito na periferia, mas ele tem grande maioria de votos nas classes média e alta. Agora, no Nordeste, é claro que existem eleitores identificados com Bolsonaro, ainda mais que Haddad não consegue colar sua imagem à de Lula, porque o Nordeste é um campo lulista muito forte, mas muito vinculado à figura de Lula. Então, Bolsonaro pode crescer no Nordeste muito mais, esse é meu palpite, porque o nome dele passa a ser associado “a opção salvadora”, e na reta final ele deve crescer muito mais até mesmo nas cidades do Nordeste onde ele não tem palanque, porque existe a chance dele ganhar no primeiro turno e para que isso ocorra pode acontecer um “sistema de contágio”, de virar o voto na última hora, que seria um voto do Lula, mas vai para o Bolsonaro. E agora, que as igrejas evangélicas fecharam apoio nele, pode ser que seu apoio nas cidades do nordeste aumente.

No Maranhão encontramos muitos eleitores que votam em figuras completamente antagônicas, como Flávio Dino e Jair Bolsonaro. Como explicar esse fenômeno?

É claro que é possível votar no Bolsonaro e em um governador comunista. O Brasil ainda vive muito uma sensação de “um voto na pessoa”. No nosso campo de trabalho é muito comum que as pessoas votem no Lula, e ter como segunda opção o Bolsonaro. Eu falo de Lula, mas você pode trocar pela figura do governador Flávio Dino. O princípio é esse, um princípio vinculado a uma vida melhor, a um nome que tem uma forte memória popular, e não é um apoio ao partido, e sim a pessoa, ao candidato, e a ciência política nos mostra isso. Então, faz muito sentido essa aparente incoerência, tanto que nós escutávamos no último trabalho de campo eleitores que falavam assim, “Eu voto no Bolsonaro, mas se o Lula concorrer meu voto é dele”. Isso é muito comum. Existe um dado bem importante, o antipetismo não existe como ódio de classe nas camadas médias, então é bem possível que tenha esse voto em um candidato comunista, porque o eleitor se projeta na pessoa, não no PCdoB. Se projeta na pessoa com quem se identifica e que enxerga um salvador, o cara que faz. Por um lado é a segurança, por outro a novidade que vem por aí. Então, de novo, é a questão personalista da política brasileira, paternalista, não apegada com uma cultura partidária, mas apegada a indivíduos. E isso nas classes populares, onde o antipetismo não é tão forte. Então, é perfeitamente possível que esses votos sejam divididos entre candidatos ideologicamente antagônicos.

Nessas eleições Flávio Dino encabeça uma coligação de 16 partidos, e sua forma de governar se assemelha muito ao modo como Lula governou o Brasil no começo dos anos 2000. O presidencialismo de coalizão é positivo, negativo, ou esse é o processo natural de evolução da democracia brasileira?

O que você me descreve é exatamente o que eu imagino que acontece no Maranhão. Para um político do PCdoB chegar no governo ele precisa ter maior tempo eleitoral, apoio na assembleia, etc. Se eu acho isso bom para a democracia? Eu acho péssimo. É um desastre para a democracia, porque não conseguimos desenvolver um plano de nação, quando você atua pela coalisão, principalmente por tempo de TV, sede interesses de todos os lados, para as piores bancadas, para os piores grupos políticos, para conseguir governar. Não existe um projeto de nação, existem concessões que se dão aos pobres, e eu não vou dizer assistencialista porque não são, mas políticas pequenas que conseguem dar distribuição de renda, de melhorias sociais, mas tendo que negociar com todas as bancadas das grandes oligarquias brasileiras. Então, não tem como desenvolver nenhum projeto alternativo que não seja o grande projeto das elites do Brasil, porque tem que governar com todos esses setores, e o que você consegue para o povo são pequenas concessões, mas governando dentro de um grande neoliberalismo oligárquico brasileiro, se é que podemos descrever assim.

Em entrevistas recentes a senhora declarou que “reivindicações de intervenção militar” são um pedido de socorro de parte da população. Pode explicar um pouco mais essa declaração?

Eu tenho pensado no conceito de “um pedido de socorro” dentro do conceito antropológico de liminaridade, que significa um período de transição. O Brasil vive um período de transição desde junho de 2013, quando o sistema político começou a ficar instável abriu uma janela de oportunidades para a direita se organizar e tirar a Dilma do poder. Por outro lado, começou uma crise sem precedentes na história. Então, nós temos uma dupla crise, política e econômica, e a combinação disso é fatal, mas os analistas não conseguem ver isso porque são pessoas desconectadas da realidade. Mas, quem conhece periferia sabe que as pessoas estão desesperadas. A violência urbana aumentou muito, as pessoas não conseguem viver com seu salário, não tem acesso ao lazer, não tem segurança para ira para o trabalho, as pessoas não têm trabalho! Quer dizer, é uma população que se enxerga em uma crise profunda do dia a dia, um cotidiano péssimo, e sem nenhuma perspectiva de que as coisas possam melhorar. Quando elas olham para a TV, enxergam ‘roubalheira, roubalheira, roubalheira’. Aí tiraram “a mulher” da presidência, e entra um cara que é simplesmente o pior governo da história do Brasil, com a pior rejeição da história dos governos eleitos, eleito não, não no caso dele, mas enfim, é um presidente insignificante, e as pessoas têm a sensação de que estão em uma vida, em um cotidiano extremamente deteriorado, “não existe um sistema apolítico”, e aí vem aquelas imagens da JBS, com o Aécio Neves, com o MDB, com todo mundo no mesmo saco. A sensação é essa, “nós tiramos o corrupto do poder, mas o corrupto é todo mundo, e o sistema apolítico não funciona, e alguma coisa tem que acontecer porque não dá mais”. Essa é a sensação, de crise econômica, vida deteriorada, e olhando pra cima e vendo que todo mundo é corrupto, todo mundo é farinha do mesmo saco. Então, a sensação desse período de transição e confusão é que a sociedade “está frouxa”. Eu escutei muito nos meus trabalhos de campo na periferia as pessoas dizendo que o Brasil precisa de ordem de novo, e é uma frase que eu concordo, não no sentido de ordem militar, mas no sentido antropológico de que precisamos voltar para uma normalidade, para o jogo das regras de novo, porque o Brasil está completamente à deriva, e as instituições não funcionam, absolutamente nada funciona. As pessoas estão vendo que o país está desgovernado.

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