Saúde · temporada junina

Saúde do brincante: o preparo físico por trás da maratona do São João 

Entre meses de ensaios e rotina de apresentações que avançam pela madrugada, brincantes enfrentam desgaste físico, privação de sono e risco de lesões para manter o ritmo dos arraiais.

Léo Fabiano, brincante do Boi da Floresta e da Companhia Estrela Junina. (Foto: caruafotografia)
Léo Fabiano, brincante do Boi da Floresta e da Companhia Estrela Junina. (Foto: caruafotografia)

A temporada junina está a todo vapor em São Luís. Entre ensaios e sequências de apresentações que avançam madrugada adentro, o São João do Maranhão cobra um preço do corpo de quem vive a festa por dentro. Nos bastidores da brincadeira, os participantes enfrentam cansaço acumulado, poucas horas de descanso, dores musculares e até desidratação durante a temporada. 

Compressas de gelo após as apresentações, mudanças na alimentação e tentativas de recuperar o sono entre um compromisso e outro fazem parte da rotina de Léo Fabiano durante o São João. Integrante do Boi da Floresta de Mestre Apolônio e da Companhia Estrela Junina, ele resume bem o desgaste físico vivido pelos brincantes. Há quatro anos participando ativamente do período junino, Fabiano conta que o preparo exige planejamento e resistência. “Uma coisa puxa outra, mesmo fazendo atividades físicas, as dores sempre aparecem devido à agenda extensa de apresentações”, afirma. “O peso das indumentárias, o calor, dançar por horas, privação de sono e desidratação” estão entre os fatores que mais pesam no corpo, destaca o brincante. 

Larissa Sampaio também sente, na prática, o impacto da rotina junina. Integrante da Companhia Barrica, ela participa das manifestações desde a infância e começou como dançarina em 2018. Sua rotina se divide entre trabalho, família, estudo e os compromissos com o grupo, que ocupam praticamente todo o período noturno durante a temporada. No corpo, os efeitos do esforço físico frequente aparecem com facilidade. “As pernas, os pés e a região lombar costumam ser as mais doloridas, principalmente por conta das horas dançando, ficar em pé e da mistura de ritmos que dançamos”, explica. 

Larissa Sampaio, integrante da Companhia Barrica. (Foto: Ivan do Pix)

Já Talyene Cruz Melônio, que, além de coreógrafa e dançarina há 35 anos, atua na coordenação geral do Boi da Floresta, reforça que o desgaste começa muito antes, ainda na preparação. “Antes de apresentar, o grupo já está cansado da rotina de ensaios; a apresentação é a comemoração do trabalho feito”, resume. A coreógrafa destaca a importância do acolhimento e da preocupação da organização com a saúde dos brincantes. Quando alguém dá sinais de exaustão ou lesão, a atividade é suspensa imediatamente. A própria estrutura do calendário tenta evitar excessos: em regra, não são marcadas mais de quatro apresentações por noite, com intervalos entre os compromissos. Ainda assim, ela reconhece que muitos brincantes participam de mais de um grupo, o que potencializa a sobrecarga. 

Sinais de alerta e cuidados durante a temporada 

O que você consegue fazer no ensaio é o que você vai conseguir fazer na apresentação”, observa o médico Robert Pardo Guibert, especialista em Saúde da Família e Comunidade e vice-diretor da Companhia Estrela Junina. 

Robert Pardo Guibert, especialista em Saúde da Família e Comunidade e vice-diretor da Companhia Estrela Junina. (divulgação)

De acordo com o médico, que há 5 anos também é brincante da companhia, o desgaste vai muito além das dores musculares e exige preparação semelhante à de atividades físicas de alta intensidade, com um grande risco de lesões. As mais frequentes atingem principalmente os membros inferiores, como joelhos, tornozelos, pés e pernas, devido ao tempo prolongado de dança e ao esforço repetitivo. Ele também alerta para problemas como fadiga, falta de ar, taquicardia, hipoglicemia e desidratação. 

“Muitos brincantes deixam de se alimentar adequadamente para manter o figurino ajustado ao corpo. Isso pode provocar queda de glicose, tontura e até desmaios”, explica. 

Os sinais de alerta incluem boca seca, tontura, suor excessivo, náuseas, fraqueza e sensação de desorientação. Em casos mais graves, o organismo pode responder com síncope, caracterizada pela perda temporária da consciência. 

Cuidados para enfrentar a maratona junina 

Segundo o especialista, algumas medidas simples ajudam a reduzir os riscos à saúde durante a temporada: 

▪ Manter a hidratação antes, durante e após as apresentações; 

▪ Não pular refeições, especialmente o café da manhã; 

▪ Priorizar alimentos leves e bem conservados; 

▪ Realizar alongamentos antes dos ensaios e apresentações; 

▪ Utilizar calçados fechados e confortáveis para a atividade; 

▪ Respeitar os períodos de descanso e recuperação; 

▪ Aplicar gelo em casos de pequenas torções ou lesões; 

▪ Procurar atendimento médico diante de tonturas, desmaios ou dores persistentes; 

▪ Evitar participar de apresentações quando não estiver bem física ou emocionalmente. 

Enquanto o público acompanha o brilho das indumentárias, a energia das coreografias e a emoção dos arraiais, os brincantes enfrentam uma rotina de preparação que exige atenção constante à saúde. O cuidado com o corpo se torna tão importante quanto o talento na arena para garantir que a festa siga até o último dia da temporada.