Marcado por riquezas culturais e históricas, o Maranhão enfrenta o desafio estrutural de superar desigualdades socioeconômicas crônicas. No centro desse mecanismo, emerge um fator fundamental: a juventude. Se por um lado há o desgaste com práticas tradicionais, por outro, cresce a consciência de que a transformação social e econômica do território passa por diversas dinâmicas.
Para compreender como essa engrenagem funciona na prática, ouvimos duas lideranças que vivenciam a política maranhense sob diferentes perspectivas: Gleide Daniela de Jesus Costa, de 32 anos — assistente social, servidora pública, primeira suplente de vereadora em Alcântara e atual Secretária de Política de Promoção da Igualdade Racial —, e Allan Pereira, de 20 anos — Agente Territorial do Plano Juventude Negra Viva, Consultor da ONU e Conselheiro Estadual de Juventude do Maranhão, cria do Quilombo Liberdade, em São Luís.
O despertar da consciência
Para ambos os entrevistados, o ingresso na política não nasceu de uma ambição pessoal ou de um planejamento de carreira, mas sim do eco das dores de suas realidades. Gleide Daniela relata que seu despertar ocorreu por meio de sua atuação profissional.
“Ser política não foi um projeto pessoal inicial, foi um chamado construído a partir da minha atuação. Quando você trabalha diretamente com a população, escuta dores reais, constrói soluções e viabiliza direitos, começa a perceber que também precisa estar onde as decisões são tomadas”, explica Gleide.
Essa percepção de que a vivência comunitária precisa de eco nos espaços de decisão é compartilhada por Allan Pereira. Sua trajetória começou aos 15 anos, no auge da pandemia de COVID-19, ao presenciar o desmonte de direitos básicos de saúde e assistência em sua comunidade.
“Comecei a estudar a história do meu território, o Quilombo Liberdade. A identificação completa pelo território me fez querer lutar por um dia melhor na comunidade e na escola, entender que nossas dores precisavam de um jovem para falar o que outros tinham medo”, pontua Allan.
Papel que o jovem desempenha nos partidos
Uma das principais reflexões provocadas pelos entrevistados diz respeito ao papel que o jovem desempenha nos partidos e governos atuais. Existe uma linha tênue entre a inclusão genuína e a utilização estética da juventude. Gleide avalia que os jovens estão mais preparados e críticos, rejeitando não a democracia, mas a forma como ela é conduzida.
Contudo, aponta um gargalo estrutural. “Ainda somos chamados para representar renovação estética, mas não necessariamente para participar das decisões estratégicas. Essa atual situação exige compromisso e responsabilidade de nós, jovens, dispostos a mudar a realidade”.

Allan complementa essa visão ao destacar as barreiras materiais que impedem uma participação mais ampla. Para o jovem da periferia, a militância muitas vezes esbarra na urgência da sobrevivência. “O jovem não tem tempo para engajar em lutas pois precisa trabalhar e estudar, e se torna um fardo. Enquanto o jovem tiver que trabalhar para ter que pagar até a passagem para estudar, não teremos o acesso pleno ao direito político e social”, desabafa.
O jovem não tem tempo para engajar em lutas pois precisa trabalhar e estudar, e se torna um fardo. Enquanto o jovem tiver que trabalhar para ter que pagar até a passagem para estudar, não teremos o acesso pleno ao direito político e social
O Coronelismo invisível e o peso do “sobrenome”
O cenário político maranhense, historicamente moldado pelo poder de grupos tradicionais e oligarquias familiares, impõe barreiras extras para quem tenta renovar o sistema de forma independente. Allan ressalta o peso da desigualdade de oportunidades dentro do próprio universo político.
“O Maranhão é um estado que politicamente sempre foi fechado em grupos e até famílias. Para um jovem sem sobrenome ou apoio conhecido de político, é cinco vezes mais difícil. Nós, para termos um local de fala, precisamos estudar e trabalhar muito mais, enquanto o filho do político é nomeado a um cargo alto”.
O Maranhão é um estado que politicamente sempre foi fechado em grupos e até famílias. Para um jovem sem sobrenome ou apoio conhecido de político, é cinco vezes mais difícil
Gleide Daniela aponta que o maior desafio estrutural é o enfrentamento cultural à herança do coronelismo e à lógica clientelista que ainda resiste no interior e nas periferias.
“O que mais me marcou foi lidar com a velha prática política baseada na troca de favores e benefícios por voto. Isso sempre me doeu, porque acredito em política como direito, não como barganha. Um dos maiores desafios é encarar esse perfil de eleitor que vivenciou e vivencia a prática do coronelismo, pois não necessitamos de intermediários quando algo já é garantido por lei”.
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