Entretenimento e Cultura · futuro da tradição

Juventude assume protagonismo e fortalece o futuro da cultura popular maranhense

Entre o Bumba Meu Boi, o Tambor de Crioula e outras manifestações tradicionais, jovens brincantes mantêm vivas as raízes culturais do Maranhão e garantem a renovação de um patrimônio que atravessa gerações

Sarah, de 25 anos, é Integrante do Boi de Axixá
Sarah, de 25 anos, é Integrante do Boi de Axixá

Com a chegada do período junino, o Maranhão volta a viver uma de suas épocas mais simbólicas e aguardadas do ano. Os arraiais se enchem de cores e ritmos que fazem do São João maranhense uma das maiores expressões culturais do país. Por trás dos espetáculos que encantam moradores e turistas, uma nova geração de brincantes assume um papel fundamental para manter vivas tradições centenárias e garantir que elas continuem atravessando gerações.

Entre os jovens que escolheram fazer da cultura popular parte de suas vidas estão estudantes, profissionais de diferentes áreas e apaixonados pelas manifestações maranhenses. Em comum, eles carregam o orgulho de representar suas raízes e a certeza de que a juventude é essencial para o futuro do Bumba Meu Boi, do Tambor de Crioula e de outras expressões culturais do estado.

Um amor herdado pela família

A paixão pelo Bumba Meu Boi acompanha o profissional de marketing João Guilherme, de 25 anos, desde a infância. Hoje integrante do Boi Barrica, ele conta que o vínculo com a cultura nasceu dentro de casa, inspirado pelo tio e pela irmã.

“Surgiu desde muito novo, acompanhando meus familiares. Meu tio e minha irmã me introduziram nessa cultura. São João era sempre uma época muito aguardada lá em casa, porque todos nós amamos esse período”, relembra.

A ligação com o Boi Barrica também veio dessa convivência familiar. O tio, já falecido, era admirador do grupo e fazia questão de acompanhar suas apresentações sempre que possível. “Eu cresci com esse amor deixado por ele. Comecei a frequentar as oficinas, me aproximar mais do grupo e, neste ano, finalmente entrei para o elenco.”

Antes de ingressar no Boi Barrica neste ano, João já havia participado do Boi de Axixá. A aproximação com o grupo atual aconteceu aos poucos, por meio de oficinas, ensaios e apresentações que acompanhava ainda como espectador.

“O Boi Barrica teve um papel fundamental na construção da minha identidade. Foi através dele que aprendi valores como disciplina, compromisso, respeito e trabalho em equipe. Também fortaleceu meu senso de pertencimento e meu orgulho pela cultura maranhense.”

Para ele, permanecer na cultura popular é uma forma de honrar a herança recebida da família. “O amor e o respeito que me foram passados desde pequeno fizeram com que eu escolhesse manter essa tradição viva. É algo que faz parte de quem eu sou”, afirma.

Mais do que dançar, João acredita que a participação dos jovens será decisiva para o futuro dos grupos culturais. “Os brincantes mais antigos entendem seus limites e sabem a hora de parar. É aí que a juventude entra, renovando as fileiras e garantindo a continuidade das brincadeiras.”

Ele também destaca que os grupos funcionam como espaços de aprendizado e acolhimento. No Boi Barrica, uma das tradições é o apadrinhamento dos novos integrantes pelos mais experientes. “Eles aconselham, ensinam, ajudam e acompanham os novatos durante toda a temporada. Os laços criados são extremamente fortes e duradouros.”

Entre os momentos mais marcantes de sua trajetória está o batismo do grupo. “É um sentimento que não se explica, só se sente. Naquele momento passam pela cabeça todos os ensaios, as coreografias, as vivências e as amizades construídas. A emoção toma conta.”

O encantamento que virou missão

A química Sarah, de 25 anos, também encontrou no Bumba Meu Boi uma forma de fortalecer sua identidade cultural. Integrante do Boi de Axixá há três anos, ela cresceu frequentando arraiais com a família, mas foi ao assistir uma apresentação do grupo que decidiu se tornar brincante.

“Eu me encantei completamente pela força do sotaque do Munim, pelas orquestras e pelo bailado. Naquele momento soube que não queria ser apenas plateia; eu precisava viver aquela magia de perto.”

Ela acredita que a juventude tem papel central na preservação e na renovação da cultura popular.

“A presença dos jovens é vital. Quando entramos na cultura popular, compreendemos a grandiosidade do nosso universo cultural, conhecemos outros sotaques e criamos pontes de amizade com diferentes grupos. A juventude traz um fôlego novo e ajuda a mostrar que essa tradição continua viva e atual.”

Entre as lembranças mais especiais está o tradicional batizado realizado anualmente em Axixá. “As pessoas começaram a pedir as toadas mais antigas e a sintonia foi tão perfeita que dançamos e cantamos juntos até o amanhecer. Foi inesquecível.”

Ela também celebra os avanços conquistados pelas mulheres dentro da manifestação. “Importante demais. A nossa presidente por exemplo abriu muitos espaços para mulheres no bumba meu boi, como inserindo cantadora, mulheres dançando de vaqueiras e muito mais.”

Quando pensa no futuro, ela demonstra tranquilidade. “O maior medo de quem vive a cultura popular é ver a tradição desaparecer. Mas quando vejo tantos jovens ocupando os terreiros, tenho certeza de que nossa história continuará sendo contada.”

O tambor que ecoa o futuro da tradição

Aos 16 anos, o estudante Benício Pereira já acumula experiências no Tambor de Crioula e no Bumba Meu Boi. Tocador de tambor no grupo do Mestre Felipe e ex-cazumba do Boi da Floresta, ele cresceu cercado pelas manifestações populares.

“Desde que me entendo por gente, meus pais me levam para as brincadeiras de cultura popular. Tenho foto com três anos vestido de vaqueiro. Na verdade, acho que conheci essa cultura quando nasci”, conta.

O interesse surgiu naturalmente, impulsionado pelas experiências vividas desde a infância. “Eu sempre gostei da música, da energia e do movimento do Bumba Meu Boi. As histórias do Pai Francisco, da Catirina, as cores e os personagens marcaram minha infância.”

Além do boi, Benício encontrou no Tambor de Crioula outra paixão. Ele aprendeu a tocar ainda criança, incentivado pelos pais, e hoje considera a manifestação uma parte essencial de sua trajetória.

“Minha lembrança do tambor é sempre de uma casa cheia, com gente feliz, cantando e dançando. A pior hora era quando chegava a saideira, porque ninguém queria que terminasse.”

Para ele, tocar tambor é carregar uma responsabilidade. “Estamos carregando a cultura nas próprias mãos. Sem o tambor não existe o ritmo, e sem o ritmo não existe a brincadeira. É uma grande responsabilidade.”

Durante dois anos, também viveu a experiência de brincar como cazumba no Boi da Floresta. “A gente coloca a máscara e sente outra coisa. É como se virasse outro ser. Você dança sem vergonha, contagia quem está ao redor e vê todo mundo entrando na brincadeira.”

Benício também destaca os ensinamentos recebidos dos mais velhos. “Aprendi muito sobre resistência. Os mestres lutam há décadas por valorização, direitos e visibilidade. E continuam brincando com a mesma energia, passando ensinamentos para as novas gerações.”

Apesar da pouca idade, ele demonstra maturidade ao falar sobre a importância da participação juvenil.

“É a nossa geração que vai levar esse legado para frente. Quanto mais jovens participarem hoje, mais pessoas no futuro vão conhecer e valorizar essa cultura.” Afirma. “O desafio é ter coragem de chegar. Depois disso, é só cantar, brincar e se divertir.”

O futuro da tradição já chegou

As histórias de João, Sarah e Benício revelam que a cultura popular maranhense está longe de ser apenas uma herança do passado. Ela continua sendo construída diariamente por jovens que escolhem dedicar tempo, energia e paixão às manifestações que formam a identidade do estado.

São eles que aprendem as toadas, preservam os passos, vestem as indumentárias, carregam os tambores e assumem a responsabilidade de transmitir conhecimentos para quem virá depois e manter viva uma das maiores riquezas do estado.