Em pleno Centro Histórico de São Luís, na Avenida Pedro II, a Galeria Trapiche Santo Ângelo pulsa. Onde antes havia silêncio, hoje há tinta fresca, vozes de oficina, palmas em lançamentos de livros e o vai e vem de estudantes, curadores, turistas e artistas que encontram ali não apenas paredes para expor, mas um território de pertencimento. Vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, SECULT, da Prefeitura de São Luís, a Galeria Trapiche se firmou nos últimos anos como o principal equipamento público de artes visuais da capital maranhense. E o motor dessa retomada tem nome: Uimar Jr.
Cursos, palestras, oficinas, residências, feiras gráficas, lançamentos literários e projetos culturais ocupam a agenda mensal da galeria, atendendo a uma demanda reprimida de fazedores de cultura que, por anos, reclamaram da falta de visibilidade e de política continuada para as artes plásticas em São Luís.
“Hoje a Galeria Trapiche é o coração das artes visuais da cidade”, resume a artista visual e professora da UFMA, Maria das Dores Silva, que expôs no espaço em março deste ano. “Não é só sobre abrir a porta para mostrar trabalho. É sobre formar público, criar rede, profissionalizar o artista, pensar em economia criativa. O Uimar entendeu que galeria pública não pode ser depósito de quadros. Tem que ser viva”.
A TRAJETÓRIA DE UM EQUIPAMENTO QUE RESISTIU
A história da Galeria Trapiche Santo Ângelo começa na gestão do ex-prefeito João Castelo, entre 2009 e 2012. Foi naquele período que o município implementou a galeria e criou o Salão de Artes Plásticas de São Luís, estabelecendo uma rotina mensal de exposições para artistas maranhenses. A iniciativa revelou dezenas de novos talentos e colocou São Luís no circuito regional de artes visuais. Artistas que hoje têm projeção nacional, como Marlene Barros, Airton Marinho e Romário, tiveram suas primeiras individuais no espaço.
Contudo, a prática foi interrompida na gestão seguinte, do prefeito Edvaldo Holanda Jr. Sem calendário fixo, sem salão e com programação esvaziada, a galeria perdeu protagonismo. Para muitos artistas, foi um período de “apagão institucional” nas artes plásticas. “A gente voltou a depender de favor, de espaço cedido, de edital que nunca saía. Foi um retrocesso”, lembra o pintor Raimundo Carvalho, de 62 anos.
A virada veio na gestão do ex-prefeito Eduardo Braide, que deixou o cargo recentemente para disputar o Governo do Estado do Maranhão. Além de retomar o investimento em cultura, Braide determinou a transferência da Galeria Trapiche da Praia Grande para um casarão na Avenida Pedro II, também no Centro Histórico. A mudança de endereço foi simbólica e estratégica: tirou o equipamento de um ponto de fluxo turístico sazonal e o colocou no eixo administrativo e cultural da cidade, próximo à Prefeitura, ao Palácio dos Leões e ao Teatro Arthur Azevedo. Com a nova sede, veio também um novo fôlego. E foi nesse contexto que o artista performer Uimar da Rocha Gama Jr. assumiu a direção.
INOVAÇÃO, EMPREENDEDORISMO E PARCERIA: O TRIPÉ DO NOVO TRAPICHE
A Galeria Trapiche Santo Ângelo adotou um modelo de gestão que se apoia em três pilares: inovação curatorial, empreendedorismo cultural e parceria com a sociedade civil.
Na inovação, a galeria rompeu com o formato de exposições engessadas. Além das mostras individuais e coletivas, o espaço passou a abrigar experimentações, instalações imersivas, vídeo-arte, performance e cruzamentos de linguagens. Em 2025, a exposição Territórios em Transe reuniu artistas visuais, grafiteiros, indígenas e mestres da cultura popular em uma mesma sala, propondo diálogos entre o contemporâneo e o tradicional. “A gente não pode ter medo do novo. A galeria pública tem que ser laboratório”, defende Uimar. Só para reforçar essa acerti9va, vale lembrar que na atual gestão o artista passou a ter espaço na Feirinha São Luís com o Projeto “A Trapiche vai à Feira”, que oportuniza espaço para exposições de artistas que precisam de apoio e promoção cultural, além de vender suas obras em espaço público.
No empreendedorismo, o Trapiche tem atuado para inserir o artista maranhense na cadeia produtiva da economia criativa. A galeria promove oficinas de precificação de obra, elaboração de portfólio, como vender para colecionadores, como acessar leis de incentivo e como usar redes sociais para circulação. Em parceria com o Sebrae-MA, realizou em abril o ciclo Arte que Sustenta, com quatro workshops gratuitos sobre microempreendedoríssimo individual para artistas. “Muita gente boa não vive de arte porque não sabe vender. A gente está mudando isso”, conta o diretor.
Já as parcerias se tornaram marca registrada. A Galeria Trapiche firmou acordos com a UFMA, UEMA, IFMA, Sesc, Aliança Francesa, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e com coletivos independentes como o Ocupe a Cidade e o Zumbi Ateliê. O resultado são exposições coproduzidas, residências artísticas e circulação de obras por outros municípios. Em junho, a mostra Filhos da Ilha, nascida no Trapiche, itinerou para Barreirinhas e Alcântara.
O TRAPICHE COMO INSTRUMENTO DE POLÍTICA PÚBLICA
Para fazedores de cultura, especialmente os que atuam no campo visual, a Galeria Trapiche se tornou o principal instrumento do poder público municipal para executar política de artes visuais. De acordo com Uimar Jr., “A gente tem uma determinação da prefeitura de descentralizar e profissionalizar. O Uimar conseguiu traduzir isso na ponta. O Trapiche hoje cumpre papel de formação, difusão, fomento e memória. É uma política pública que funciona”, avalia.
Os números reforçam a fala do secretário. Entre janeiro e maio de 2026, a galeria recebeu 14 exposições, 27 oficinas, 11 lançamentos e um público superior a 12 mil visitantes, segundo dados da SECULT. Mais de 200 artistas foram diretamente beneficiados com pauta, cachê ou formação. A página do Instagram do equipamento saltou de 3 mil para 21 mil seguidores em um ano, ampliando a visibilidade dos artistas para além da Ilha.
A retomada do Salão de Artes Plásticas de São Luís, extinto na gestão passada, está prevista para outubro deste ano. O edital, com premiação de R$ 40 mil, já está em fase final de elaboração. Nossos esforços é para que “O Salão volte maior, com categoria nacional e júri de fora. É a coroação desse processo de reconstrução”, adianta Uimar Jr.
DESAFIOS E FUTURO
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A equipe da galeria ainda é reduzida e o orçamento, embora maior que em anos anteriores, segue limitado diante da demanda. O casarão da Avenida Pedro II passou por reforma e adequações no telhado e de climatização, inclusive foi adequada para receber obras de grande porte. “A gente faz muito, mas a gente precisa avançar na estrutura. Arte visual exige cuidado técnico”, pondera o diretor.
Outro ponto é a necessidade de criar um programa municipal de aquisição de obras para formar acervo público, lacuna histórica em São Luís. “A gente expõe, mas a obra volta para casa do artista. A cidade precisa comprar, preservar, contar sua história através da arte”, defende produtores do campo das artes plásticas. Uimar Jr. diz que já apresentou projeto para criação do Fundo Municipal de Artes Visuais. Enquanto isso, segue no ritmo que o consagrou: “trator sem freio”.
Afirma Uimar Jr., “Eu brinco que sou gestor 24 horas. Se o artista me liga 11 da noite com uma ideia, eu atendo. Porque arte não tem hora para nascer. E a Galeria Trapiche tem que estar aberta, nem que seja o coração, para essa ideia acontecer”, finaliza.
No fim da tarde, quando o sol se põe na Avenida Pedro II, as luzes do Trapiche se acendem. E lá dentro, mais um artista maranhense encontra parede, holofote e público. É a prova de que, quando inovação e empreendedorismo se aliam na gestão pública, quem ganha é a arte. E quem ganha é a cidade.
SERVIÇO
Galeria Trapiche Santo Ângelo
Endereço: Avenida Pedro II, s/n, Centro – São Luís – MA
Funcionamento: Terça a sexta, 9h às 18h. Sábados, 9h às 13h. Entrada gratuita.
Instagram: @galeriatrapiche.slz
Agendamento de visitas mediadas e pautas: galeriatrapiche@secult.saoluis.ma.gov.br
*Por: Euclides Moreira Neto