Religião · o dono da festa

Fé e cultura marcam a herança de São João em São Luís

No dia dedicado a São João Batista, igrejas históricas, devoção popular e o bumba meu boi revelam como fé e cultura caminham juntas na capital maranhense

Boi na Paróquia de São João Batista de Vinhais Velho (Foto: Reprodução)
Boi na Paróquia de São João Batista de Vinhais Velho (Foto: Reprodução)

Em São Luís, o Dia de São João não cabe apenas dentro das igrejas. Ecoa nos sinos dos templos históricos, atravessa os bairros antigos e ganha força nos arraiais, terreiros e apresentações de bumba meu boi. A celebração de 24 de junho reúne elementos que ajudam a explicar a identidade cultural da capital maranhense: religiosidade, patrimônio histórico e tradição popular que resiste ao tempo.

Essa herança pode ser observada de forma especial em dois dos mais importantes templos dedicados ao santo na cidade: a Igreja de São João Batista, no Centro Histórico, atualmente em processo de restauração, e a Igreja de São João Batista de Vinhais Velho, com 414 anos.

Entre o passado e o presente

Localizada no Centro Histórico, a Igreja de São João Batista é um marco da antiga malha urbana ludovicense. Com origens que remontam ao período colonial, o templo acompanhou diferentes fases do desenvolvimento da cidade e permanece como símbolo da devoção ao santo. As obras de restauração em andamento buscam preservar não apenas a estrutura arquitetônica, mas também a memória de gerações de fiéis que passaram pelo local. Em razão das obras, o festejo deste ano está sendo celebrado na Igreja de Santo Antônio, também no Centro.

Igreja de São João em restauro (Foto: Reprodução)

Em Vinhais Velho, a relação entre a igreja e a história de São Luís é ainda mais profunda. O bairro é reconhecido como um dos núcleos mais antigos da capital, e a matriz de São João Batista ocupa lugar central nessa trajetória. Há registros que situam sua origem nos primeiros anos da fundação da cidade, tornando-a referência para pesquisadores e moradores que enxergam no templo um elo vivo com o passado. Foi lá que ocorreu a celebração da primeira missa de São Luís, segundo historiadores, a 20 de outubro de 1612.

Este ano, de forma inédita, a igreja recebe celebrações em inglês no dia do santo, 24, ao meio-dia, dentro da programação da Festa das Águas. A iniciativa, segundo a paróquia, busca acolher devotos estrangeiros e ampliar a experiência da comunidade católica local. “A Igreja Católica fala muitas línguas, mas professa uma só fé”, destaca a organização.

Ao redor da igreja, o bairro preserva características históricas que remetem aos tempos da ocupação indígena, da presença francesa e da colonização portuguesa. O largo da matriz continua sendo espaço de convivência, celebrações religiosas e manifestações culturais que mantêm viva a identidade da comunidade.

A devoção que saiu do altar

Embora a origem da festa seja religiosa, em São Luís a devoção a São João ganhou as ruas e se misturou às expressões culturais do povo maranhense. A crença popular afirma que o santo desperta na noite de 23 para 24 de junho para abençoar os festejos realizados em sua homenagem. Por isso, o dia é considerado o ponto alto do ciclo junino.

(Foto: Reprodução)

Nos arraiais espalhados pela cidade, a fé se manifesta de diferentes formas. Muitos grupos de bumba meu boi mantêm promessas, rituais e homenagens dedicadas a São João. Antes das apresentações, é comum a realização de rezas, ladainhas e bênçãos que reforçam a ligação entre a brincadeira e a religiosidade.

O resultado é uma celebração singular: ao mesmo tempo em que os fiéis participam de missas, novenas e procissões, também acompanham o som das matracas, dos pandeirões e das caixas que anunciam a chegada dos bois. No Maranhão, o sagrado e o popular não se excluem; eles se complementam.

O São João como patrimônio cultural

A força dessa tradição faz do São João maranhense um dos mais reconhecidos do país. O bumba meu boi, principal expressão cultural do período, foi declarado Patrimônio Cultural do Brasil e, posteriormente, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco. A celebração reúne diferentes sotaques, comunidades e formas de brincar, consolidando-se como um dos maiores símbolos da identidade maranhense.

Para historiadores e pesquisadores da cultura popular, as igrejas dedicadas a São João ajudam a compreender a origem dessa relação entre fé e festa. Elas representam a dimensão religiosa da celebração, enquanto os arraiais revelam como o povo transformou a devoção em uma experiência coletiva, marcada pela música, pela dança e pela convivência comunitária.

O precursor de Jesus

São João Batista, considerado pela tradição cristã o precursor de Jesus, tem sua festa celebrada desde os primeiros séculos da Igreja, em 24 de junho. Sua figura, associada ao batismo no rio Jordão e à anunciação da chegada do Messias, reforça a simbologia de renovação, luz e esperança presente nas celebrações juninas.

Na temporada junina as brincadeiras buscam o famoso batizado, benção de proteção para os brincantes que durante as noites “vadiam” nos terreiros e arraiais das cidades maranhenses levando brilho e alegria para o povo.

A ladainha de São João Batista e a apresentação da brincadeira na porta da igreja ou capela dedicada ao santo fazem parte do ritual, é maneira de pedir proteção e agradecer pelas bênçãos recebidas.

 “Historicamente, não se chamava festejo junino, mas joanino, pois tudo está ligado a São João. Com o tempo, o termo foi sendo transformado. No aspecto religioso, São João está associado à luz e à esperança, pois anuncia e prepara o caminho de Jesus. É também um tempo de alegria e de colheita, aqui no Maranhão marcado pelo fim das chuvas e pelas grandes manifestações culturais”, explica o pároco da Igreja de São João Batista (Centro), padre Antonio José Ramos Costa.

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