nualmente, o mês de abril pinta de verde as fachadas e os discursos corporativos. A campanha nacional de conscientização sobre a segurança e saúde no trabalho não existe por acaso, ela marca a memória das vítimas de acidentes e doenças ocupacionais. Para entender como a capital maranhense equilibra a produtividade com o bem-estar humano, ouvimos três perspectivas fundamentais: a estratégia do executivo, o cuidado da enfermagem e o rigor técnico do campo.
Lucro vs. segurança
Para Jaques, executivo com 25 anos de experiência e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), o primeiro passo para uma segurança real é abandonar a ideia de que proteger o trabalhador custa caro. “Não há equilíbrio. Essa é uma falsa dicotomia. O executivo que trata segurança como trade-off está apenas escolhendo quando e como o problema irá se materializar”, afirma Jaques.

Ele defende que a segurança não deve ser vista como um investimento que visa lucro, mas como uma condição operacional. “A pergunta relevante não é quanto se ganha investindo, mas quanto se perde operando sem controle. Quanto custa uma interrupção? Quanto custa uma decisão tomada sob pressão após um evento crítico?”.
“Redução de custos está relacionada a menos acidentes”
Essa visão estratégica encontra eco no dia a dia de Luciana Alencar, técnica de segurança do trabalho. Atuando diretamente no campo, ela utiliza sua base administrativa para mostrar que a segurança é o “guia” da produtividade.
“A redução de custos está relacionada a menos acidentes e afastamentos. Cada real investido é economia futura”, explica a profissional.
A saúde além do EPI
Se no topo da pirâmide a discussão é sobre governança, no atendimento direto o foco é o acolhimento. A enfermeira do trabalho e especialista em ergonomia, Kétellem Farias, destaca que a humanização é a chave para o trabalhador entender que ele é seu maior patrimônio. “Começa pelo básico: a escuta. Ouvir de verdade. Quando o trabalhador percebe que tem alguém que se importa sem pressa, tudo muda”, revela Kétellem.
A enfermeira traz o debate para a realidade climática de São Luís. O calor e a umidade da ilha geram estresse térmico, um vilão silencioso. “Gera desidratação, cansaço extremo e mal-estar. Água, pausas e ventilação são cuidados simples que evitam problemas enormes”.
Kétellem também alerta para a ergonomia, que vai muito além de uma cadeira confortável. Movimentos repetitivos e a falta de pausas causam desgastes que, muitas vezes, o empregado só percebe quando o dano é sério. “Hoje não dá mais para separar saúde física de mental. Um ambiente pesado afeta tudo”, completa.
Desafios da alfabetização em segurança
Luciana Alencar aponta que um dos maiores desafios em São Luís é a “alfabetização” do trabalhador. Segundo ela, por muitas vezes o colaborador chega com o vício do “sempre foi feito assim”. “O maior desafio são os atalhos e a pressa. A deficiência de mão de obra qualificada com mentalidade de segurança é grande, por isso o treinamento de integração é vital para colocar em prática a cultura de prevenção”, diz a técnica.

Jaques complementa essa análise sob a ótica da gestão de terceiros, comum nas operações portuárias da capital. Para ele, a fragmentação da responsabilidade é um perigo. “Quando o risco não tem um responsável claro, ele passa a ser absorvido pelo sistema. Isso gera a normalização do desvio”.
O que fica depois de Abril?
A grande conclusão dos especialistas é que uma campanha de um mês não corrige um sistema falho. Para Jaques, a segurança psicológica é o teste definitivo de uma liderança. “O trabalhador só interrompe quando sabe, com clareza, o que vai acontecer depois. Se houver dúvida sobre punição, ele tende a seguir”.
Além disso, Kétellem reforça que a mudança de mentalidade é o que falta para a segurança ser prioridade o ano todo. “Segurança é rotina, não apenas tempo de campanha”.
Para quem trabalha em São Luís e sente que o ambiente não é seguro, o conselho é unânime: comunicação. Luciana sugere o conhecimento das normas e o uso do plano de ação; Kétellem pede para não ignorar os sinais do corpo e relatar aos responsáveis; e Jaques encerra com um conselho aos novos executivos: “Não comecem pelo Abril Verde. Comecem entendendo como a operação realmente funciona, onde riscos são normalizados. Campanhas não corrigem incoerência; sistemas corrigem.”, conclui.
Se você identifica irregularidades em seu ambiente de trabalho, pode realizar denúncias anônimas ao Ministério do Trabalho e Emprego ou buscar orientação no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) de São Luís.