Saúde · 2 de abril

Dia Mundial de Conscientização do Autismo: inclusão ainda esbarra no preconceito

Neste 2 de abril, relatos expõem a distância entre direitos garantidos e a realidade vivida por pessoas no espectro.

Associação dos Amigos dos Autistas de Pedreiras. (AMA Pedreiras). / Divulgação
Associação dos Amigos dos Autistas de Pedreiras. (AMA Pedreiras). / Divulgação

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, lembrado nesta quinta-feira (2), amplia o debate sobre inclusão, mas também evidencia um cenário em que o reconhecimento ainda não se traduz em prática. Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias, o preconceito, a desinformação e a falta de preparo em diferentes espaços seguem como barreiras no cotidiano.

À frente da Associação de Mães e Amigos dos Autistas de Pedreiras (AMA), Cícera Damasceno afirma que o principal entrave não está na condição, mas na forma como ela é compreendida socialmente. Segundo ela, a leitura equivocada sobre o autismo acaba restringindo oportunidades antes mesmo de qualquer convivência. “A sociedade carrega muitos equívocos sobre o autismo, e esses erros acabam gerando exclusão, preconceito e falta de apoio. Existe um pré-julgamento constante que limita a pessoa autista antes mesmo de ela mostrar suas capacidades. A própria sociedade, muitas vezes, acaba incapacitando esse indivíduo ao exigir comportamentos neurotípicos e desconsiderar suas particularidades”.

A dificuldade de acesso a espaços sociais

Na avaliação de Damasceno, esse tipo de postura sustenta um processo de apagamento. A dificuldade de acesso a espaços sociais, segundo ela, não está apenas na estrutura, mas na forma como a pessoa autista é vista. “Há uma invalidação muito presente. A sociedade, o tempo inteiro, tenta invisibilizar a pessoa autista no contexto social, como se ela não fosse capaz de ocupar esses espaços. Isso impacta diretamente o acesso à inclusão de verdade”.

A crítica também se estende ao funcionamento das políticas públicas e à formação de profissionais. Mesmo com garantias previstas em lei, a aplicação ainda encontra falhas, o que se reflete principalmente nas áreas de educação e saúde.

“Muitas vezes, as políticas públicas existem, estão garantidas em lei, mas não são aplicadas de forma efetiva. Soma-se a isso a falta de preparo de profissionais em áreas como educação e saúde, o que acaba criando mais barreiras no dia a dia dessas pessoas”.

A distância entre o que se reconhece no papel e o que se vive aparece de forma direta no relato de quem está dentro do espectro. Mulher autista adulta, Isabel Vitória Silva Carvalho diz que ainda precisa lidar com ideias equivocadas sobre o próprio autismo, especialmente quando se trata da vida adulta. “Um dos maiores equívocos é acharem que não existem mulheres adultas autistas, ou que o autismo só está presente em crianças com níveis de suporte mais elevados. Isso apaga completamente a nossa realidade”.

Ela relata que situações de infantilização são frequentes e acabam reduzindo a autonomia de pessoas autistas. “Muitas vezes, existe uma infantilização, como se a pessoa autista não tivesse autonomia ou maturidade. Isso incomoda porque nos reduz a um estereótipo e ignora quem somos de fato”.

O diagnóstico, segundo Isabel, trouxe mudanças importantes na forma como ela se percebe. “Mudou muita coisa na minha vida, principalmente em relação à aceitação. Passei a me compreender melhor, a reconhecer minhas limitações e a lidar com elas de forma mais consciente”, disse.

A realidade ganha outra dimensão

No contato com famílias, a realidade ganha outra dimensão. Coordenadora e tesoureira da AMA Pedreiras, Bianca Rafaela acompanha de perto o impacto do diagnóstico e a reorganização da rotina. “Na maioria das vezes, a AMA é a primeira porta que essa família vai bater. E elas chegam perdidas, sem rumo. A pergunta é sempre a mesma: ‘e agora, o que eu vou fazer? Estou perdida’. A partir dali a gente compartilha tudo, desde o diagnóstico até as pequenas conquistas do dia a dia”.

Associação dos Amigos dos Autistas de Pedreiras. (AMA Pedreiras). / Divulgação

Ela afirma que o preconceito atravessa diferentes ambientes e faz parte da rotina de muitas famílias. “Ele machuca em todos os ambientes e sentidos. É algo rotineiro e, muitas vezes, tenta nos tirar do foco. O que orientamos é que as famílias se fortaleçam, busquem informação e estejam preparadas para enfrentar isso, porque, infelizmente, ainda é uma realidade.”

Bianca destaca ainda o papel contínuo da família no desenvolvimento da pessoa autista. “É acreditar, incentivar, acompanhar, dar suporte. A pessoa autista cresce, se torna adulta, e a gente precisa estar preparado para esse processo”.

Orientações

A psicóloga clínica infantojuvenil Sara Martina chama atenção para a identificação precoce dos sinais do autismo, ainda na infância. Segundo ela, alguns comportamentos podem indicar a necessidade de avaliação especializada. “A ausência de marcos do desenvolvimento, como atraso na fala, pouco contato visual, dificuldade de interação social e comportamentos repetitivos, são sinais de alerta. Eles não fecham diagnóstico, mas indicam a necessidade de avaliação profissional”.

Psicóloga clínica infantojuvenil, Sara Martina. (Foto: Divulgação)

Ela explica que o início antecipado do acompanhamento faz diferença no desenvolvimento. “A intervenção precoce favorece de forma significativa a autonomia, a comunicação e as habilidades sociais. Quanto mais cedo esse acompanhamento começa, maiores são as possibilidades de desenvolvimento.”

Martina também reforça que ainda há desinformação sobre o espectro autista, o que contribui para estereótipos. “Ainda existe a crença de que toda pessoa autista é igual, que não sente afeto ou não consegue se comunicar. Isso não corresponde à realidade. O autismo é um espectro, e cada pessoa tem suas próprias características”.

No dia a dia, a participação da família segue como elemento central no processo. “Manter uma rotina, acolher as emoções da criança e valorizar pequenas conquistas fazem diferença no desenvolvimento e no bem-estar”, disse.

Para as mulheres da AMA, a inclusão depende de mudanças concretas e passa, acima de tudo, pela escuta de quem vive o autismo. “Respeitar as diferenças, buscar informação e ouvir as próprias pessoas autistas são passos fundamentais. Sem isso, a inclusão fica apenas no discurso”.