Política · DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Protagonismo feminino redefine poder no estado

Com bancada recorde na Assembleia, presença estratégica no Congresso e crescimento no número de prefeitas, mulheres maranhenses consolidam a sua liderança política.

Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão. (Foto: Divulgação/ALEMA)
Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão. (Foto: Divulgação/ALEMA)

No momento em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, o cenário político do Maranhão revela uma transformação estrutural que vai além do simbolismo da data. O estado vive uma fase inédita de fortalecimento da presença feminina nas esferas de poder — um processo que atravessa câmaras municipais, o parlamento estadual e o Congresso Nacional.

Se por décadas a participação das mulheres nos centros decisórios foi marcada pela sub-representação, os dados mais recentes demonstram uma inflexão histórica: mulheres maranhenses passaram a ocupar não apenas cadeiras, mas postos estratégicos de liderança política, influenciando agendas legislativas e executivas com impacto direto na sociedade.

Quebra de paradigmas

Segundo levantamento realizado por O Imparcial, o marco mais simbólico dessa mudança ocorre na Assembleia Legislativa do Maranhão (ALEMA). Pela primeira vez em quase dois séculos de existência, o parlamento estadual é presidido por uma mulher: a deputada Iracema Vale, do PSB. Eleita presidente da Casa e posteriormente reconduzida por unanimidade para o biênio 2025–2027, Iracema Vale tornou-se o principal símbolo institucional da ascensão feminina na política maranhense. Sua gestão coincide com outro dado histórico: a maior bancada feminina já registrada no parlamento estadual, formada por 12 deputadas estaduais.

Presença feminina no           legislativo estadual 
Entre as parlamentares da atual legislatura estão nomes como Abigail, Ana do Gás, Andreia Rezende, Cláudia Coutinho, Daniella, Dra. Vivianne, Edna Silva, Fabiana Vilar, Janaina Ramos, Mical Damasceno e Solange Almeida. Mais do que uma conquista numérica, essa presença feminina tem produzido resultados concretos na formulação de políticas públicas.

Observatório do Feminicídio
Entre as iniciativas de destaque está a criação do Observatório do Feminicídio, projeto articulado pela presidência da Assembleia em parceria com a Procuradoria da Mulher — conduzida pela deputada Daniella — e instituições como a Defensoria Pública. O mecanismo tem como objetivo monitorar casos de violência contra mulheres, produzir dados em tempo real e orientar ações preventivas.

Outro avanço relevante foi a implementação do auxílio financeiro para órfãos do feminicídio, proposta legislativa que se tornou política pública estadual e garante apoio a crianças e adolescentes que perderam suas mães em decorrência da violência doméstica.

A força maranhense na esfera federal e municipal

O protagonismo feminino do Maranhão também se projeta no cenário nacional. No Senado Federal, a voz mais ativa do estado é a da senadora Eliziane Gama, do PSD. Reconhecida por sua atuação em comissões parlamentares de investigação, Eliziane ganhou projeção nacional ao atuar como relatora da comissão parlamentar mista que investigou os ataques às instituições ocorridos em 2023 no país. Além disso, tornou-se uma das principais defensoras da ampliação da participação feminina na política brasileira.

Entre as pautas que tem defendido está a proposta de garantir 20% das vagas de mandato para mulheres no novo Código Eleitoral, medida que busca reduzir a histórica desigualdade de gênero na representação política. Em 2025, a parlamentar também passou a articular um movimento inédito: a possibilidade de disputar a presidência do Senado — algo jamais tentado por um político maranhense.

Na Câmara dos Deputados do Brasil, o estado é representado por três deputadas federais: Detinha (PL), que foi a candidata mais votada do Maranhão nas eleições de 2022, evidenciando a força eleitoral feminina. Roseana Sarney (MDB), figura histórica da política estadual. Amanda Gentil (PP), representante de uma nova geração de lideranças. A presença desse trio demonstra uma combinação entre experiência política consolidada e renovação geracional no cenário federal.

Prefeitas e vice-prefeitas
A transformação também se expressa no poder executivo municipal. Nas eleições de 2024, 42 mulheres foram eleitas prefeitas no Maranhão, número significativo quando comparado aos 173 prefeitos homens escolhidos no mesmo pleito.

Esse crescimento segue uma curva ascendente observada nos últimos ciclos eleitorais e reforça o papel do interior do estado — marcado por forte tradição municipalista — como o principal celeiro de novas lideranças femininas. Além das prefeitas, dezenas de mulheres foram eleitas vice-prefeitas, consolidando chapas mistas ou majoritariamente femininas em cidades estratégicas.

Curiosamente, os dois maiores colégios eleitorais do estado — São Luís e Imperatriz — ainda não elegeram prefeitas recentemente. Mesmo assim, o protagonismo feminino avança de forma consistente no conjunto dos municípios maranhenses.

Novos modelos políticos
 Na legislatura 2025–2028 da Câmara Municipal de São Luís, cinco mulheres conquistaram mandato entre as 31 cadeiras do parlamento: Rosana da Saúde;  Concita Pinto; Clara Gomes, Thay Evangelista e Flávia Berthier.  Além das cadeiras individuais, a capital maranhense tornou-se palco de experiências inovadoras de representação política, como os mandatos coletivos como o Coletivo Nós (PT), que tem entre as integrantes as co-vereadoras, Flávia Almeida, Eunice Chê e Raimunda Oliveira .  Outro modelo é o Coletivo Unidos, representado oficialmente pelo vereador Rommeo Amin, que conta com a atuação da co-vereadora Professora Concita e do co-vereador Ricardo Hortegal. 

A possível prefeita da Ilha
O avanço feminino pode ganhar um novo capítulo em breve. A atual vice-prefeita de São Luís, Esmênia Miranda, surge como possível protagonista de uma transição política na capital maranhense. Caso o prefeito Eduardo Braide (PSD) decida disputar o governo estadual nas eleições de 2026 e renuncie ao cargo dentro do prazo legal — até 2 de abril de 2026 —, Esmênia assumirá a prefeitura. 

Policial militar e professora de Geografia, a vice-prefeita construiu uma trajetória política recente, iniciada em 2020 ao integrar a chapa vencedora de Braide. Em 2024, a dupla foi reeleita com expressivos 69,5% dos votos no primeiro turno. Se a transição ocorrer, Esmênia poderá se tornar a quarta mulher a comandar a capital maranhense, liderando uma cidade com mais de um milhão de habitantes e um dos maiores orçamentos públicos do Nordeste.

Apesar dos avanços significativos, a paridade plena entre homens e mulheres ainda está distante na política maranhense. Entretanto, os números e as trajetórias recentes indicam que o processo de transformação já está em curso. Do interior do estado às tribunas do Congresso Nacional, mulheres maranhenses passaram a ocupar cadeiras estratégicas, mesas diretoras, relatorias de projetos e chefias de executivos municipais.

Neste novo cenário, o Dia Internacional da Mulher deixa de ser apenas uma data de homenagem. No Maranhão, ele se transforma em um marco que registra uma mudança estrutural: a política começa, finalmente, a refletir a maioria feminina da população que representa.