O cantor porto-riquenho Bad Bunny, 31, entrou para a história ao comandar o show do intervalo do Super Bowl LX, realizado no último domingo (8), em São Francisco, nos Estados Unidos. Pela primeira vez, a apresentação do evento esportivo mais assistido do país foi conduzida majoritariamente em espanhol, com uma performance que exaltou a cultura latina, a memória histórica e a identidade dos imigrantes nas Américas.
No palco, Bad Bunny apresentou um repertório marcado por sucessos do reggaeton e da música latina contemporânea, como “Tití Me Preguntó”, “Safaera”, “Party”, “Voy a Llevarte a PR” e “EoO”. Logo na abertura, o artista deixou claro o tom da apresentação ao afirmar: “Que rico es ser latino”.
Um dos momentos mais celebrados do show ocorreu quando o público acompanhou o cantor dançando sobre “La Casita”, a tradicional casa rosa porto-riquenha que se tornou um símbolo recorrente em sua carreira. O cenário reuniu convidados especiais, entre eles Jessica Alba, Karol G e o ator Pedro Pascal. A apresentação também contou com uma participação surpresa de Lady Gaga, que interpretou uma versão em salsa da música “Die With a Smile”.

Além do espetáculo musical, bandeiras de diversos países da América Latina — como Porto Rico, Cuba, Brasil e Venezuela — tremularam no estádio ao lado da bandeira dos Estados Unidos, reforçando a proposta multicultural da performance.
Críticas do presidente
A apresentação, no entanto, provocou forte reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criticou publicamente o show nas redes sociais. Segundo ele, o espetáculo foi inadequado, incompreensível e ofensivo aos valores norte-americanos.
A seguir, a declaração completa de Donald Trump, reproduzida integralmente:
“O show do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores de todos os tempos! Não faz sentido nenhum, é uma afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo, e a dança é repugnante, especialmente para as crianças pequenas que estão assistindo de todos os Estados Unidos e do mundo todo. Esse ‘show’ é um tapa na cara do nosso país, que está estabelecendo novos padrões e recordes todos os dias — incluindo o melhor mercado de ações e planos de aposentadoria 401(k) da história! Não há nada de inspirador nessa bagunça de show do intervalo e, com certeza, receberá ótimas críticas da mídia de notícias falsas, porque eles não têm a menor ideia do que está acontecendo no mundo real. Aliás, a NFL deveria substituir imediatamente sua nova e ridícula regra do kickoff. FAÇA A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE! Presidente DONALD J. TRUMP.”
Trump afirmou que o público não teria compreendido a apresentação por ter sido realizada em espanhol e criticou a coreografia, que classificou como inadequada para crianças. As críticas também se estenderam à NFL, que, segundo ele, deveria rever regras recentes do campeonato.
Cultura, política e identidade
As declarações do presidente não surpreenderam aliados e críticos. Antes mesmo do evento, Trump já havia afirmado que Bad Bunny seria uma “péssima escolha” para o show do intervalo. O cantor, por sua vez, é conhecido por se posicionar publicamente contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), órgão frequentemente defendido por Trump.
Natural de Porto Rico, Bad Bunny tem se destacado por usar sua música como ferramenta de afirmação cultural e denúncia política. Durante o show, uma das canções fez referência direta ao Havaí, que se tornou um estado dos EUA, mas, segundo o artista, perdeu parte de sua identidade indígena original. A letra alerta para os riscos da perda cultural e territorial vivida por povos submetidos à influência norte-americana.
“O espanhol é o segundo idioma mais falado nos Estados Unidos”, segundo levantamento do Instituto de Políticas Migratórias divulgado em 2019, que aponta que cerca de seis em cada dez pessoas no país falam ou compreendem a língua. Ainda assim, a presença do idioma no maior evento esportivo da televisão norte-americana gerou reações polarizadas.
Porto Rico e o debate colonial

Porto Rico tornou-se território dos Estados Unidos em 1898, após a Guerra Hispano-Americana. Em 1917, os porto-riquenhos passaram a ser cidadãos norte-americanos e, em 1952, a ilha adquiriu o status de Estado Livre Associado, com autonomia administrativa interna, mas sem soberania plena.
Embora a ONU não classifique oficialmente Porto Rico como colônia desde 1952, o Comitê Especial sobre Descolonização da organização considera que a ilha vive uma “situação colonial”. Em relatório publicado em março de 2025, o relator especial Koussay Aldahhak afirmou que o Congresso dos EUA mantém controle sobre áreas estratégicas como defesa, comércio exterior e relações internacionais.
Desde 1967, Porto Rico realizou sete referendos consultivos sobre seu status político. No mais recente, em 2024, 58% dos eleitores votaram a favor de transformar a ilha em um estado norte-americano. Apesar disso, as consultas não têm efeito vinculante e dependem de aprovação do Congresso dos Estados Unidos.
Um show além da música
O Super Bowl é tradicionalmente o evento televisivo de maior audiência dos Estados Unidos, reunindo dezenas de milhões de espectadores. Ao levar o espanhol, símbolos latino-americanos e debates históricos ao palco do intervalo, Bad Bunny transformou a apresentação em um ato cultural e político.
Enquanto recebeu elogios de parte do público e da crítica por ampliar a representação latina em um dos maiores palcos do mundo, o show também escancarou divisões profundas nos Estados Unidos sobre identidade, imigração, idioma e pertencimento — um debate que ultrapassou a música e ganhou contornos políticos no discurso presidencial.
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