O cinema no Maranhão é um ato de resistência que equilibra a precariedade do fomento com a exuberância do talento local. Entre laços que viabilizam sets de filmagem e a luta por políticas públicas que garantam a continuidade da produção, cineastas e pesquisadores desenham um cenário onde a arte muitas vezes precede a indústria. Para entender essa engrenagem complexa, ouvi três vozes fundamentais: o veterano diretor Joaquim Haickel, o premiado cineasta Arturo Saboia e o renomado pesquisador e documentarista Alexandre Bruno.
O gargalo do fomento
A realidade financeira apresenta-se como o ponto de maior convergência e dor entre os realizadores. Embora o Brasil tenha retomado mecanismos de incentivo, no Maranhão a percepção é de um sistema que ainda opera sob baixa pressão. Joaquim Haickel é enfático ao diagnosticar a fragilidade institucional:
“Se a lei funcionasse corretamente, o crescimento era maior. As leis de incentivo não funcionam no Maranhão, nem as de patrocínio nem de instrumentos. Fazer cinema aqui é por abnegação, não é porque tem condição“.
Essa visão é ecoada por Alexandre Bruno, que traz uma perspectiva histórica. Ele lembra que o audiovisual brasileiro é, estruturalmente, dependente do Estado devido ao desmonte da Embrafilme nos anos 90, um “crime contra a cultura” que entregou as telas à hegemonia estrangeira.
Para Bruno, o desafio atual é superar o amadorismo na gestão: “O calcanhar de Aquiles não é apenas a falta de recurso, mas a falta de um agente capacitado e profissionalizado para captar esse recurso de maneira consistente”.

O Raio-X dos incentivos
Atualmente, o fomento ao cinema no estado respira por meio de editais como a Lei Paulo Gustavo e a Lei Aldir Blanc, que injetaram recursos emergenciais e estruturantes. Contudo, como aponta Arturo Saboia, a dependência quase exclusiva do setor público torna o ecossistema frágil: “O desafio agora é ampliar essas fontes de financiamento e pensar o cinema também como um setor estratégico da economia cultural”.

Entre o preconceito e o reconhecimento
O cinema feito no “norte do Nordeste” ainda enfrenta barreiras geográficas e simbólicas. Arturo Saboia recorda um episódio emblemático no Festival de Gramado, onde um jornalista admitiu que pensou em sair da sala ao saber que o filme era maranhense, apenas para depois declarar que a obra fora uma das mais emocionantes de sua vida.
Essa subestimação, por vezes, acontece dentro de casa. Joaquim Haickel critica duramente a curadoria de festivais locais, citando o Festival Guarnicê, onde premiações de um ano específico teriam ignorado atrizes profissionais em favor de critérios pouco claros. “Esse tipo de preconceito só atrasa nosso mercado”, lamenta.

Por outro lado, há um consenso: a qualidade técnica no estado saltou de patamar. Se antes era preciso importar maquinário e técnicos, hoje o Maranhão possui infraestrutura e escolas que formam uma nova geração consciente de que cinema se faz com técnica, mas também com rede.
A identidade que se vê na tela
O que o público quer ver? Para os entrevistados, a resposta vai além das lendas e do folclore. Arturo Saboia defende um cinema de “conflitos íntimos, de afetos e de silêncios”, onde a tradição coexista com a contemporaneidade. Bruno Alexandre complementa com uma reflexão profunda sobre a soberania audiovisual:
“Se nós contássemos mais as nossas histórias, ganharíamos algo que vai além da bilheteria: ganharíamos identidade. O maranhense se veria em tela. A memória se manteria viva“.
A representatividade do Nordeste não é uma “tendência”, mas uma base estrutural. Bruno define: “O cinema nordestino não está crescendo, ele já é. Ele existe, tem potência, tem voz e história.”.
De Glauber Rocha a Kleber Mendonça Filho — e passando pela força autoral do maranhense Frederico Machado — a cinematografia brasileira hoje é indissociável da produção feita acima do eixo Sul-Sudeste.
Movimentos que fomentam o audiovisual maranhense
A sobrevivência do cinema no Maranhão depende da ocupação dos espaços e da formação de público. Mais do que grandes salas de shopping, o audiovisual pulsa onde o povo está. Exemplo recente dessa vitalidade foi o Festival Batalha na Praça, realizado no Centro Histórico de São Luís pelo coletivo Coisa Nossa.
Ao unir a cultura urbana, o audiovisual e a ocupação do espaço público, movimentos como este evento provam que o cinema maranhense está encontrando novas formas de circulação. Quando a tela é montada na praça, a barreira do “preconceito curioso” cai por terra, e a obra finalmente cumpre seu papel social: ser espelho e janela para o próprio povo.
Como resume Alexandre Bruno, “O cinema não aceita improviso por muito tempo. O futuro da sétima arte na Ilha e no continente exige estudo, profissionalização e, acima de tudo, a coragem de continuar filmando, mesmo quando as luzes do fomento parecem se apagar.“, conclui.
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