Na divisa entre o Sul do Maranhão e o Norte do Tocantins, onde as paisagens são dominadas por ritmos como o forró, o sertanejo e o brega, uma força sonora distinta tem rompido o silêncio das zonas rurais. A banda Seventieth Blood, fundada em Carolina (MA) e hoje radicada em Riachão (MA), prepara-se para uma nova turnê que consolidará sua trajetória de uma década.
Formado por William Sousa (vocal), Hellio Marcos (guitarra), Henrique Meneses (guitarra), Adrian Kawan (baixo) e Leandro L. Andrade (bateria), o grupo vive uma logística que desafia a lógica da indústria fonográfica. Com membros espalhados por diferentes cidades, o processo criativo envolve sacrifícios físicos e financeiros.
“Viajamos 315 km em um único dia, em uma moto de baixa cilindrada, para gravar vocais e retornar logo em seguida por conta da folga do trabalho”, revela Henrique Meneses, guitarrista e fundador.

Diferente do estereótipo do gênero, a banda utiliza o heavy e o thrash metal para traduzir lutas regionais. “A melhor forma de sermos abraçados na região é traduzir o que ela sente“, afirma a banda.
Do Maranhão para o mundo (e de volta)
A arte do grupo já atravessou oceanos. Em 2025, o videoclipe da faixa One Flesh rendeu um convite para o Berlin Music Video Awards, na Alemanha. Entretanto, a realidade financeira impôs um limite geográfico: sem recursos para o deslocamento, os músicos não puderam comparecer.
O que poderia ser uma frustração tornou-se combustível. “Substituímos o sentimento de perda pela certeza de que somos capazes. O fato de ter uma banda em nossa região já anula todas as perspectivas negativas“, reflete Henrique.
“Dark Ages”: o retorno ao peso
Atualmente, o quinteto trabalha em seu quinto álbum de estúdio, intitulado Dark Ages, previsto para o último trimestre de 2026. O título, que remete à “Idade das Trevas”, é uma provocação intelectual. A banda esclarece que as “trevas” mencionadas não se referem ao período medieval, mas ao pensamento contemporâneo que corrói a liberdade e a coletividade.
Sonoramente, o disco promete um embate criativo entre as guitarras melódicas de Henrique e a agressividade de Hellio Marcos, influenciada pelo New Metal. É um retorno às raízes pesadas após a experiência bem-sucedida do álbum acústico Ruka, cantado em português.
A próxima turnê pelo Maranhão e Tocantins não é apenas uma série de shows, e sim um manifesto de permanência. Ao conquistar a própria casa antes de buscar espaços distantes, a Seventieth Blood pavimenta um caminho mais acessível para as futuras gerações de artistas do interior maranhense, provando que o metal brasileiro é, acima de tudo, um exercício de resistência e identidade.
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