Por décadas, o Maranhão mudou — politicamente, economicamente, culturalmente — e, em cada uma dessas fases, um elemento permaneceu constante: a presença de O Imparcial como testemunha e narrador da história. Em um tempo em que a velocidade da informação muitas vezes sufoca a precisão e a memória, reconhecer um jornal impresso como patrimônio cultural imaterial é reafirmar que o passado ainda importa e que o futuro só se sustenta quando ancorado em instituições que preservam a verdade. É nesse cenário de transformações profundas que o Estado do Maranhão declara oficialmente o jornal O Imparcial como Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial, coroando quase um século de dedicação jornalística.
O reconhecimento foi estabelecido pela Lei nº 12.727, de 1º de dezembro de 2025, sancionada pelo governador Carlos Brandão e assinada pelo secretário-chefe da Casa Civil, Sebastião Madeira. A norma decorre do Projeto de Lei 443/2025, elaborado pela deputada estadual e presidente da Assembleia Legislativa, Iracema Vale, que defende a preservação das instituições que contribuem para manter viva a identidade maranhense.
Um título que honra uma trajetória centenária
Ao comentar a sanção, o governador destacou o caráter simbólico do reconhecimento: “Reconhecer o jornal O Imparcial como Patrimônio de Natureza Cultural Imaterial do Maranhão é valorizar quase um século de história dedicada à informação e à democracia. O Imparcial atravessou diferentes tempos, transformou-se com a chegada dos meios digitais e manteve sua credibilidade. É um jornal que acompanhou a vida do nosso povo, registrou marcos importantes e segue cumprindo um papel essencial”, afirmou Carlos Brandão.
Iracema Vale, autora da proposta, enfatizou o compromisso do jornal com a coleta e preservação da memória maranhense. “Tive a honra de apresentar este projeto porque acredito que o Maranhão precisa preservar quem preserva o Maranhão. O Imparcial documentou nossas transformações, nossas lutas e conquistas. É, com justiça, um patrimônio do nosso povo”, declarou.
Densidade histórica na justificativa do Projeto de Lei
O texto do PL mergulha profundamente na história do jornal, reforçando sua relevância como agente de transformação cultural. Logo em sua justificativa, o documento afirma que a finalidade é reconhecer a “inestimável contribuição do jornal O Imparcial à história, à cultura e à democracia maranhense e brasileira”.

Ao revisitar 1926, ano da fundação do periódico por João Pires Ferreira (J. Pires), o projeto sublinha seu caráter disruptivo ao nascer “com espírito inovador e apartidário, rompendo com o paradigma vigente da imprensa maranhense”, que até então era dominada por publicações segregadas entre governo e oposição.
Outro trecho marcante resgata o contexto de sua criação: “O Maranhão possuía cerca de 874 mil habitantes, vivendo a expansão da agricultura e o início do ciclo do babaçu. O Imparcial tornou-se veículo fundamental para a difusão de ideias, o registro da vida social e política e o fomento à literatura.” O PL também destaca as adversidades enfrentadas pelo jornal ao longo de crises econômicas, regimes autoritários, mudanças tecnológicas e disputas políticas. Apesar disso, manteve-se — como o documento reitera — fiel “ao princípio da liberdade de imprensa”, consolidando-se como espaço de pluralidade e credibilidade.
Além do passado, a proposta evidencia a relevância contemporânea do veículo. Num trecho crucial, ressalta que, mesmo diante das redes sociais e do avanço da desinformação, “O Imparcial segue pautando outros meios de comunicação e reafirmando o jornalismo como fiador da democracia e da liberdade”.
O valor simbólico do centenário
O reconhecimento chega no limiar de uma data histórica: em 2026, O Imparcial completará 100 anos de atividades ininterruptas — um feito raro no Brasil, onde muitos jornais tradicionais encerraram suas operações diante da crise do impresso e da ascensão dos meios digitais.
Para o diretor-executivo do jornal, Célio Sérgio Ferreira, o título é tanto uma homenagem quanto um chamado à continuidade. “Este reconhecimento vem em um momento profundamente simbólico. Estamos prestes a completar 100 anos de atividades ininterruptas. Ver essa trajetória reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Maranhão é um tributo não apenas ao jornal, mas às gerações de profissionais que construíram essa história”, afirmou.
Ele destaca ainda que o legado de O Imparcial ultrapassa o papel: “Hoje, nossa presença vai muito além das páginas impressas. O jornal está nas plataformas digitais, dialogando com novas linguagens sem abandonar a profundidade e a ética que sempre nos definiram”, ressaltando que a cerimônia de entrega do título ainda será definida.
A força de um patrimônio vivo
Transformar O Imparcial em patrimônio cultural imaterial significa reconhecer que sua importância não se limita às edições que circularam ao longo de um século. O valor do jornal está na sua capacidade de atravessar diferentes eras e manter-se relevante, interpretando o Maranhão por dentro e por fora.
Patrimônio imaterial é aquilo que não pode ser tocado, mas que se inscreve na memória social. O Imparcial corresponde exatamente a isso: um repositório vivo que ajudou a registrar ditaduras e redemocratizações, transformações econômicas, renovações culturais e viradas políticas. Sua passagem do impresso ao digital não enfraqueceu sua identidade; ao contrário, ampliou seu alcance e preservou a tradição jornalística em novos ambientes informacionais.
Num momento em que o instantâneo rivaliza com a veracidade e as redes sociais se tornaram terreno fértil para desinformação, reconhecer um jornal centenário como patrimônio cultural é reafirmar que o jornalismo profissional continua sendo um alicerce democrático.
Para além de celebrar a história de O Imparcial, o título reafirma a necessidade de manter vivo aquilo que garante ao Maranhão — e ao país — a continuidade da memória e o respeito à verdade. É, portanto, um gesto de preservação, mas também de futuro.
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