Os ludovicenses têm cuidado cada vez mais da saúde física. O crescimento do engajamento em práticas como corrida e caminhada é prova disso; o baixo custo e a liberdade de horários atraem pessoas de diferentes idades e perfis. No entanto, à medida que os passos ganham ritmo nas ruas e parques da cidade, uma preocupação constante acompanha os corredores, principalmente as mulheres: a sensação de insegurança.
Para compreender como esse sentimento impacta o cotidiano das corredoras em São Luís, O Imparcial ouviu Stefany Sodré, assistente social e entusiasta da corrida, e Francisca Oliveira, coordenadora do Projeto Percorrendo, grupo voltado ao incentivo da prática esportiva. Ambas compartilham o mesmo desejo: poder correr sem medo.
Vencendo o medo
Francisca Oliveira, que há vários anos treina em diferentes pontos da cidade de São Luís, descreve a rotina de quem precisa planejar cada passo com cautela. “Principalmente para nós mulheres, a gente não consegue correr só. […] Se for, por exemplo, duas mulheres, a gente também não se arrisca. Porque o risco de assalto, e até outro tipo de violência também, é muito grande”.
Ela explica que, mesmo em locais populares como o Parque do Rangedor, a sensação de vulnerabilidade persiste. “Quando a gente vai praticar a corrida, ou a caminhada, a gente não tem policiamento. No Rangedor, ainda tem o pessoal que toma de conta, mas tem áreas desertas, mato dos dois lados… é uma insegurança muito grande. Eu não me arrisco a correr num horário mais tranquilo”.
Brasileiras têm medo de se deslocar sozinhas
Ainda assim, a paixão pela corrida fala mais alto. “A prática logo cedo, tipo 5h da manhã, 4h30, aumentou muito. A gente só quer isso: fazer nosso treino em paz, voltar em paz pra casa, vir em segurança”.

O relato de Francisca reflete uma realidade nacional. Segundo o Instituto Patrícia Galvão, 97% das mulheres brasileiras têm medo de se deslocar sozinhas, e 71% já sofreram algum tipo de violência durante o trajeto. Assim, a corrida acaba se tornando um exercício de coragem.
“Tá tudo bem, é bom quando tem um maior número de pessoas correndo, mas isso não garante, não nos dá segurança. […] Todo mundo tá ali, fazendo suas atividades; de repente, aparece alguém armado, a gente não consegue fazer nada. Fica todo mundo à mercê da situação”, completa Francisca.
Avenida Litorânea: entre o movimento e a vigilância
Considerada um dos principais pontos de prática esportiva da capital, a Avenida Litorânea é, para muitos corredores, um refúgio de segurança relativa. O fluxo constante de pessoas e a presença do mar criam uma sensação de acolhimento.
Stefany Sodré conta sua experiência indo treinar no local. Apesar do horário, o movimento ajuda a aliviar a tensão. “Já fui na Litorânea cedo, tipo 4h da manhã. Só que fui com um amigo, então não me senti tão insegura […] lá tem muita gente fazendo exercícios físicos. Fica lotada, a Litorânea”.
Segundo nota enviada pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP-MA), a região conta com patrulhamento 24 horas realizado pelo 1º Batalhão de Polícia de Turismo (1º BPTur), com equipes a pé, viaturas e motocicletas em ação contínua, inclusive nos fins de semana e feriados.
A pasta informou ainda que a avenida e seu entorno são monitorados por câmeras do Cercamento Digital, sistema que utiliza tecnologia inteligente com leitura de placas e reconhecimento facial, ampliando a capacidade de resposta em caso de ocorrências.
Além da Litorânea, o policiamento também é reforçado em áreas verdes como o Parque Estadual do Rangedor e a Reserva do Itapiracó, sob responsabilidade do Batalhão de Polícia Ambiental (BPA). De acordo com a SSP-MA, o patrulhamento é contínuo, com rondas a pé, viaturas e ações educativas voltadas à segurança dos visitantes.

Corrida e Resiliência
Mesmo diante das dificuldades, o que motiva corredores e corredoras a continuarem é a busca por uma vida mais saudável e pela sensação de pertencimento. Stefany reforça que o ato de correr em grupo é uma forma de proteção e também de encorajamento. “Quando estou perto de outros corredores, me sinto mais tranquila. A gente acaba se cuidando mutuamente”, disse.
No final, todos compartilham o mesmo objetivo: o ponto de chegada. O caminho pode ser perigoso, mas, ao olhar para o lado, encontram histórias parecidas, medos semelhantes e a certeza de que a força para continuar pode ser compartilhada.
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