A rotina exaustiva da graduação em medicina, marcada por longas jornadas de estudo e alta competitividade, tem se tornado um campo fértil para o desenvolvimento de transtornos mentais entre os estudantes. A psiquiatra Joana Athayde da Silva Cruz, que também leciona na faculdade de medicina IDEA em São Luís do Maranhão, além de atuar na área, aborda como as pressões acadêmicas se somam aos desafios pessoais, como o distanciamento da família, e levam a um aumento de casos de ansiedade e depressão.
Em um bate-papo aprofundado, a Dra. Joana Athayde discute os desafios e as soluções para a saúde mental na área da saúde.
Existe uma romantização do sacrifício na medicina?
A médica explica que há uma idealização da profissão. “Eu acho que existe uma romantização do que é a Medicina, ou do que é ser médico.” Ela acrescenta que, além da visão de sacerdócio, os estudantes de hoje buscam um ganho financeiro elevado, o que aumenta a pressão.

“Os estudantes estão muito escravos também de uma perspectiva de que eles precisam ganhar muito dinheiro. E desde a faculdade isso parece começar a direcionar.” Segundo a Dra. Joana, há uma cultura de cobrança excessiva, uma “autocobrança muito grande por um desempenho absurdo”, que se manifesta desde os primeiros períodos.
Os estudantes estão muito escravos também de uma perspectiva de que eles precisam ganhar muito dinheiro. E desde a faculdade isso parece começar a direcionar
Qual o papel das universidades?
A psiquiatra destaca a evolução das instituições, mas ressalta a necessidade de um suporte contínuo. “Eu acho que sempre tem que ter um olhar do núcleo de apoio psicopedagógico, prestar atenção principalmente naqueles alunos que estão mais reclusos ou que têm tido uma dificuldade de desempenho ou relações interpessoais.” Ela também enfatiza que é fundamental “fornecer minimamente… o apoio psicológico para o estudante.”
A busca por ajuda é difícil para esses jovens?
“Existe um estigma de que o profissional de saúde precisa ser forte e resiliente, o que dificulta a busca por ajuda.” A Dra. Joana observa que essa resistência se manifesta no consultório, onde os pacientes chegam com uma lista de sintomas, mas não falam sobre o que realmente os aflige. “As vezes, o paciente chega no consultório pra mim e ele não fala do que ele sofre. Ele me dá uma lista de sintomas, que não são pessoais.”
Quais são suas principais recomendações para os estudantes?
Para a Dra. Joana, o primeiro passo é o autocuidado básico, como o sono. “Não dá para não dormir. Isso é uma coisa que eu tento corrigir desde os meus pacientes… você tem que dormir. Se você não dormir, você não aprende, você não se regula emocionalmente.” Em seguida, ela aconselha a procurar um lugar para falar. “A primeira coisa que a gente tem que buscar é um espaço de fala.”
Qual sua mensagem para quem quer entrar na área da saúde?
A profissional alerta sobre a romantização e reforça a importância da reflexão. “Cuidado com a romantização da área da saúde, com a romantização da medicina. Se pergunte se, de fato, é o que você tem vontade de fazer. É com o que você quer trabalhar.” Ela conclui com um lembrete importante: “A gente precisa também despatologizar um pouco alguns sentimentos da vida… mesmo quem está bem tem angústia.”
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