Política · EMBróglio POLÍTICO

Disputa por poder no PT do Maranhão tem indício de fraude em eleição do comando da legenda no estado

Votação foi marcada por suspeitas de irregularidades e forte contestação por parte de chapas concorrentes. Desfecho final está nas mãos da Executiva Nacional da legenda

Partido dos Trabalhadores (PT) (Foto: Divulgação/PT)
Partido dos Trabalhadores (PT) (Foto: Divulgação/PT)

O processo de eleição direta (PED) do Partido dos Trabalhadores no Maranhão, realizado no último domingo (6), pode ter seu desfecho final nas mãos da Executiva Nacional da legenda. A votação, que deveria eleger os novos dirigentes estaduais e municipais para os próximos quatro anos, foi marcada por suspeitas de irregularidades e forte contestação por parte de algumas chapas concorrentes.

Segundo apuração de O Imparcial, apenas os votos de 80 municípios — de um total de cerca de 190 — foram contabilizados até agora, o que acendeu o alerta entre os participantes do pleito. Embora a votação tenha encerrado às 20h, seguindo orientação da direção nacional que prorrogou o prazo originalmente previsto até as 14h, o resultado parcial gerou desconfiança e reclamações.

A apuração parcial aponta a seguinte configuração: o atual presidente do PT-MA, Francimar Melo, lidera com 5.559 votos (50,28%), seguido por Genilson Alves, com 2.562 votos (23,05%). Em terceiro lugar aparece Monteiro, com 2.429 votos (21,85%), seguido por Rogério (353 votos – 3,18%) e Eri Castro (182 votos – 1,64%). Com esse cenário, caso os números sejam validados, haverá segundo turno entre Francimar e Genilson, marcado para o dia 28 de julho, conforme prevê o regimento do PED em todo o país.

Prejudicados com resultado deverão recorrer


No entanto, chapas que se dizem prejudicadas pelo processo já se articulam para formalizar uma contestação junto ao diretório estadual, que deve encaminhar o pedido à Executiva Nacional do partido. A contestação é respaldada por uma orientação da própria direção nacional, diante das inconsistências registradas na condução da eleição no estado.

Outro ponto que alimenta a crise interna no PT-MA é o suposto abandono da Comissão de Organização Eleitoral (COE) estadual por parte de seu presidente, um representante da Executiva Nacional que teria deixado o Maranhão no meio do processo para cumprir agenda em Brasília. Ele teria sido substituído por um membro da comissão estadual, o que gerou questionamentos sobre a legitimidade da condução da apuração.

Presidente da legenda ainda não se posicionou


Procurado pela reportagem, Francimar Melo não se pronunciou oficialmente até o fechamento desta edição. Já Patrícia Carlos, membro da Executiva Estadual do PT e da COE estadual, defendeu o andamento do processo. Segundo ela, “pelas regras do PED, quem faz a apuração da eleição são os municípios”, e cabe às chapas recorrerem dentro do prazo previsto em caso de contestação.

Cinco chapas assinam nota e exigem providências

Ela também criticou o não computo de cerca de 60% dos municípios e acusou tentativa de manipulação. “Esvaziar a COE, parar a contabilização e deixar de computar 60% dos municípios é um desrespeito à nossa base! Mesmo nesse resultado parcial e fabricado que foi enviado, Francimar já está eleito no primeiro turno. Nossa preocupação é com a não computação dos votos da nossa militância, num intuito de forjar uma composição de diretório que favoreça duas chapas. Já acionamos a direção nacional e estamos confiantes de que isso será resolvido, pois o PT é um partido sério!”, afirmou.

A espera de uma resposta 


Diante da interrupção da apuração dos votos e da exclusão de mais da metade dos municípios participantes do pleito, cinco chapas decidiram assinar uma nota conjunta exigindo uma resposta imediata da Executiva Nacional do PT e a responsabilização dos envolvidos no que classificam como uma “tentativa explícita de golpe interno”.

O documento é assinado por lideranças de peso dentro do partido, como a dirigente nacional Cricielle Muniz (Articulação Petista – CNB), o deputado federal Rubens Júnior, o professor Francisco Gonçalves (da chapa No Campo e na Cidade – PT de Todos Nós com Lula e Camarão), a representante da COE estadual Cristiane Vasconcelos Bacelar, além de Patrícia Carlos, Carlos Augusto Alves, Creuzamar de Pinho e Ivaldo Coqueiro, membros ou observadores do processo eleitoral interno. “A democracia interna não pode ser apenas um valor proclamado: ela precisa ser praticada, defendida e garantida — especialmente quando está sob ataque”, afirmam os signatários logo na abertura da nota enviada à imprensa. 

De acordo com os denunciantes, o PED, que inicialmente deveria ser uma “celebração da militância”, foi tomado por práticas que violam os princípios democráticos do partido. Eles relatam que, até as 17h do dia 7 de julho, apenas 37 municípios haviam sido computados pela Comissão de Organização Eleitoral (COE). Após orientação da Direção Nacional, esse número chegou a 82, mas os votos contabilizados teriam sido escolhidos “seletivamente”, segundo o grupo, para favorecer chapas ligadas aos petistas Zé Carlos (superintendente do INCRA) e Zé Inácio (ex-deputado estadual).

“Atas enviadas até o dia 7 de julho, dentro do prazo, foram simplesmente ignoradas, enquanto documentos recebidos no limite da data — às 18h do dia 8 — foram aceitos sem questionamento”, denuncia a nota. “O resultado é escandaloso: 119 municípios estão de fora da apuração, uma exclusão que compromete não apenas o resultado final, mas a credibilidade do processo como um todo.”

A situação se agravou quando integrantes da COE se retiraram da apuração sem justificativa formal. Segundo os denunciantes, a secretária de organização do PT, Kelly Araújo, abandonou os trabalhos por volta das 11h30 do dia 8, acompanhada por Genilson Alves e Fernando Silva. Na sequência, o coordenador da COE, Arthur Mendes, também deixou o local.

Desde então, os trabalhos de apuração foram suspensos e os votos de centenas de filiados permanecem desconsiderados. Apesar da interrupção, lideranças internas do partido, como Márcio Jardim, anunciaram na manhã do mesmo dia um suposto segundo turno entre Francimar Melo, atual presidente do PT-MA, e Genilson Alves — anúncio considerado precipitado e sem respaldo formal pelas chapas que assinam a nota.

“O que está em curso, portanto, é uma tentativa de golpe interno. Não se trata de um erro técnico ou de divergência interpretativa: trata-se da construção deliberada de um resultado artificial, com o claro objetivo de forjar uma maioria no diretório estadual e forçar um segundo turno inexistente para a presidência”, alertam.


Os signatários afirmam ainda que, mesmo com a apuração parcial — que consideram “fabricada” —, o atual presidente Francimar Melo teria vencido no primeiro turno. Por isso, sustentam que o anúncio de um segundo turno seria apenas uma manobra política para reverter um resultado desfavorável.

Diante do impasse, o grupo cobra que a Executiva Nacional do PT atue com urgência e firmeza para garantir a retomada da apuração sob novos critérios, com total transparência, respeito ao prazo de envio das atas e acesso aos documentos enviados pelas comissões municipais.

“Golpistas não passarão no PT. É hora de afirmar, com coragem e lealdade, que quem não respeita o voto da militância não pode falar em nome do partido”, concluem. A Executiva Nacional deve se pronunciar nos próximos dias sobre as providências a serem tomadas diante das graves denúncias que pesam contra membros da própria estrutura de organização do PED no Maranhão.

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Samartony Martins
Samartony Martins