São Luís viveu, no sábado (3), um daqueles momentos que entram para a história da cena musical local. Em plena concha acústica do Ceprama, durante o festival Ilha Rock Nacional, os Raimundos subiram ao palco com a missão de celebrar três décadas de trajetória e entregar ao público maranhense uma experiência que extrapolou os limites do entretenimento: foi catarse coletiva, resgate emocional, barulho de protesto e reafirmação de uma identidade musical que segue viva — pulsando forte em cada grito, cada riff e cada batida do coração roqueiro.
O show foi uma síntese da trajetória de uma das bandas mais irreverentes e fundamentais do rock brasileiro dos anos 1990 — que, mesmo enfrentando as mudanças de formação e os altos e baixos do mercado musical, jamais perdeu a essência nem a conexão com seu público. São três décadas de história condensadas num espetáculo que intercalou peso, provocação, humor e emoção.
No palco, a banda mostrou que continua afiada, passeando com segurança e vigor por suas diversas fases sonoras. O repertório costurou, de forma orgânica, os sucessos do aclamado Lavô Tá Novo (1995), que marcou a consolidação do estilo “forrocore” — uma fusão ousada de forró com punk/hardcore — e do emblemático Só no Forevis (1999), disco que catapultou a banda ao estrelato nacional com hits que invadiram rádios, trilhas de novela e corações rebeldes Brasil afora.
Show também foi uma celebração intergeracional
As clássicas “Mulher de Fases”, “A Mais Pedida”, “Selim” e “Palhas do Coqueiro” foram cantadas em uníssono por uma plateia tomada por nostálgicos e novos fãs. O show também foi uma celebração intergeracional. Pais e filhos, fãs veteranos e jovens recém-chegados ao universo do rock, se encontravam ali movidos por um mesmo impulso: a paixão pela música feita com verdade e sem concessões.

A presença de fãs vindos de diversas partes do estado, como o grupo de músicos e produtores culturais de Lago da Pedra, ilustra o poder de mobilização do Raimundos. Não foi apenas o público de São Luís que fez questão de prestigiar o evento — o show virou destino para quem entende que a música, quando feita com autenticidade, atravessa distâncias e fronteiras.
No centro do palco, Digão — ainda se recuperando de uma virose — demonstrou garra, vitalidade e sensibilidade. Não apenas entregou vocais firmes e presença de palco marcante, como também dialogou com o público em momentos de espontaneidade. Em meio ao som pesado e à entrega explosiva, o vocalista surpreendeu ao homenagear a plateia com um momento de reggae. “A gente faz rock, mas tem espaço pra todo mundo. O rock não morre, porque o amor do nosso público é fiel”, disse, arrancando aplausos.

Para além da música, o show dos Raimundos foi registro vivo de uma banda que, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, não ficou ancorada no passado. A turnê tem sido também uma vitrine para novos lançamentos — canções inéditas que mantêm o DNA contestador e escrachado do grupo, mas dialogam com os tempos atuais. Essa capacidade de se reinventar, sem perder o fio da própria história, é talvez o segredo de sua longevidade.
A performance foi registrada por uma equipe de produção que está documentando a turnê. O registro em solo maranhense promete ser um dos momentos mais potentes dessa narrativa audiovisual, por tudo o que representou — da vibração do público à entrega da banda, passando pela força simbólica de São Luís como palco para grandes momentos culturais.
O desfecho do show com “Eu Quero Ver o Oco” foi o ápice da noite. O público mergulhou em uma espécie de transe coletivo, como se voltasse no tempo, sem abandonar o presente. Ao final um gesto simples e simbólico: o agradecimento até mesmo a um cachorro caramelo que circulava pelo local, gesto que virou tema de conversa no pós-show e sintetizou o tom afetivo da noite.
Quem esteve lá sabe: não foi apenas um show. Foi um rito de passagem, um encontro com a essência do rock brasileiro, uma prova de que a resistência cultural também se faz aos gritos, ao som da guitarra distorcida, com suor, mosh e poesia marginal. Na concha do Ceprama, o rock gritou alto. E os Raimundos, mais do que veteranos, se reafirmaram como gigantes. Que venham mais 30 anos.
Vale ressaltar que a apresentação de todas as atrações do Ilha Rock SLZ foram acompanhadas por uma equipe de O Imparcial que registrou os momentos em tempo real pelas redes sociais. Para ter acesso a mais conteúdos interessantes acesse: www.oimparcial.com.br
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Por Samartony Martins