O Imparcial conversou com Felipe Bueno, de 34 anos, que atua como professor universitário da Estácio, homem trans e que entende bastante sobre as dificuldades de ingressar no mercado de trabalho, além de dá sua opinião sobre as oportunidades no mercado de trabalho, o preconceito por parte dos empregadores e sobre a importância do Dia da Visibilidade Trans.
- Foi difícil ingressar no mercado de trabalho por ser uma pessoa trans?
“Quando assumi a identidade masculina informei a todos que estava em processo de transição de gênero e que estava atuando como professor universitário e estou na mesma instituição até hoje, logo, não passei pela etapa de procurar emprego sendo uma pessoa trans. Mesmo assim, após informar os colegas e superiores precisei passar por um processo de readaptação, pois foi como iniciar um novo ciclo.”
- Na sua visão, o mercado de trabalho tem dado as mesmas oportunidades para pessoas trans?
“Evidentemente, não. A minha experiência têm sido positiva, mas essa não é a realidade da maioria das pessoas trans. Pessoas transgênero ainda são majoritariamente excluídas dos processos de recrutamento profissional em decorrência do preconceito e do ódio disfarçado de opinião ou religião”
- Qual a importância do dia da visibilidade trans?
“É importante lembrar o mundo que nós existimos e merecemos respeito. O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. A expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos enquanto a média nacional é de quase 77 anos. As pessoas precisam ter acesso à informação para quebrar seus preconceitos, para compreenderem que pessoas trans não são aberrações mas apenas pessoas comuns que desejam as mesmas coisas que todas as outras, ou seja, felicidade, tranquilidade, amor e acima de tudo, paz.”
- Os empregadores ainda têm preconceito com pessoas trans?
“Sim, o preconceito não nasce com essas pessoas mas é enraizado nelas na medida em que não são educadas para respeitar a diversidade, as múltiplas formas de ser e estar no mundo. Nossa sociedade estabeleceu um padrão masculino, hétero, branco e cisgênero como sendo o aceito e detentor de valor. Por exemplo, muitas pessoas acreditam que pessoas trans sofrem de algum distúrbio mental e isso as tornaria menos eficazes em seu trabalho.”
- Qual a sua sugestão para que o mercado de trabalho seja mais inclusivo com pessoas trans?
“Em primeiro lugar a sociedade precisa compreender que pessoas trans existem e tem o direito de existir com dignidade. Precisamos romper com os estereótipos que desqualificam e promovem o ódio às pessoas trans. A mídia, em todos os seus formatos, tem contribuição essencial nesse processo ao promover informação e dar espaço para as vozes que geralmente são silenciadas pelo preconceito. Com essas medidas já poderemos ter um mercado de trabalho mais acolhedor, pois teremos uma sociedade diferente. Até lá, é importante que as empresas se comprometam socialmente com essa causa e abram cotas de vagas de trabalho destinadas às pessoas transgênero.”