PERIGO

Moradores de Açailândia são vítimas de resíduo inflamável de usina, no Maranhão

O pó fino é depositado a céu aberto e se dissipa facilmente, tornando-se invisível ao olho nu. A última vítima, uma criança de nove anos, teve os pés corroídos até os ossos pelo resíduo

Antônio Araújo, morador de Açailândia, caminha ao lado das montanhas de resíduos inflamáveis - Fernando Martinho/Repórter Brasil

Diversas pessoas já foram vitimadas pelo resíduo de uma usina de minério em Açailândia, no Maranhão. Apelidada de “munha”, a escória é depositada a céu aberto, torna-se invisível ao olho nu e alcança temperatura capaz de causar queimaduras de terceiro grau. As informações são da matéria da jornalista investigativa Thais Lazzeri, da Repórter Brasil.

Segundo a matéria, o resíduo é fruto da produção de ferro gusa da empresa Gusa Nordeste S.A., cuja principal fornecedora de minério é a Vale. Montanhas de “munha” – algumas de até dois metros de altura – são depositadas a céu aberto em uma área sem cercas ou muros, próxima a casas de moradores. Com vento e chuva, o pó fino se dissipa com facilidade e decanta em outras terras, tornando-se invisíveis ao olho nu.

A vítima mais recente foi uma criança de nove anos. Alan caiu do cavalo em uma área de munha e teve seus pés corroídos até os ossos pelo resíduo. Permaneceu internado e sedado por 13 dias e levou seis meses para conseguir voltar a ficar em pé. Somente após quase um ano as feridas se cicatrizaram.

A primeira vítima da “munha” foi outra criança, de sete anos, em 1999. O relato diz que ela “afundou” no resíduo e não sobreviveu. Na sentença da empresa, em 2002, o juiz afirma que a empresa teria assumido o risco de provocar um acidente.

A reportagem relata que encontrou quatro famílias vitimadas pelo resíduo, mas que há muito mais vítimas nos últimos vinte anos.

Para continuar seu funcionamento apesar da condenação, a Gusa teria contado com a conivência do governo do Maranhão, conforme afirma um relatório feito por servidores do estado.

A vistoria teria sido composta por membros da Secretaria do Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH, em inglês) e por um morador afetado. Em um dos vídeos gravados, são mostrados gravetos de madeira que pegam fogo apenas sendo jogados na “munha”.

Ainda segundo a repórter, a empresa também teria sido favorecida por uma brecha na lei complementar federal nº 140/2011, que estabelece que se uma secretaria não responder ao pedido de licenciamento ambiental, a licença é prorrogada. Esta prorrogação estaria beneficiando a Gusa desde 2012.

Procuradas, a Gusa e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente não responderam aos questionamentos da Repórter Brasil. 

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