Últimas Notícias · TRAGÉDIA MUSEU

OPINIÃO: o brasileiro é um povo sem memória?

Cultura é um intrincado grau de conhecimento e saberes sobre arte, crenças, lei, moral, costumes, hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano. Não é exagero dizer que o brasileiro ainda está longe de ser um depositário de cultura no sentido clássico

Um incêndio de proporções ainda incalculáveis atingiu, no começo da noite deste domingo (2), o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na zona norte da capital fluminense
Um incêndio de proporções ainda incalculáveis atingiu, no começo da noite deste domingo (2), o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na zona norte da capital fluminense

Virou bordão desajuizado dizer-se que o brasileiro não tem memória, não exerce o seu direito à memória ou não cumpre o seu dever de memória. Em síntese: é um amalucado. Mas essa observação é meio vaga e só em parte tem algo de verdadeiro.

A memória histórica precisa de dinheiro gordo para ser preservada e ficar para gerações futuras. Quando ocorre um incêndio devastador do maior museu da América Latina, como o Museu Nacional, todo mundo dá opinião e aponta culpado pelo desleixo com a história e a cultura.

Mas cadê a cultura impregnada na mente dos brasileiros? Por que tem mais brasileiros gastando milhões de euros todo ano para visitar o Museu do Louvre em Paris e nem a metade dessa curiosidade cara se volta para o Museu Nacional, transformado em cinzas, ontem? Os brasileiros vão ao Louvre tirar foto, mesmo que não entenda uma única peça do vasto acervo. Cultura é um intrincado grau de conhecimento e saberes sobre arte, crenças, lei, moral, costumes, hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano. Não é exagero dizer que o brasileiro ainda está longe de ser um depositário de cultura no sentido clássico.

Como imaginar que alunos incendeiem, nas periferias de São Luís, a própria escolar onde adquirem conhecimento, sem pagar nada por isso. Puro ato de vandalismo? Isso é tão grave quanto um desocupado se divertir soltando balões no Rio, que pode ter um sido o responsável pela destruição do maior museu das Américas, com 20 milhões de itens de valor histórico e cultural. Se a cultura é um balaio de conhecimentos clássicos e populares, não deixa de ser uma esculhambação geral, depois que o Museu Nacional virou cinzas, banqueiros e seus parceiros bilionários se reunirem para salvar o Museu que não existe mais.

Parece um deboche o governo federal destinar a verba de R$ 50 mil, em 2018, para manter o maior museu das Américas e depois lamentar o incêndio. Agora, a nata do baronato brasileiro quer fazer o Museu Nacional – como a fênix – ressurgir das cinzas. Só mesmo quem acha que a cultura destruída no Brasil é semelhante ao pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas.

Compartilhar