TEATRO

O fabuloso mundo de La Fontaine em cartaz nesta sexta, 12

As histórias que trazem em sua essência uma sabedoria popular serão encenadas em francês na Casa de Cultura Hugunote

Foto: Divulgação / Paulo Socha

Concepções sobre a natureza física, a organização e funcionamento das sociedades, regras de conduta e comportamento, objetivos de vida que devem ser almejados, a construção de uma personalidade e o lado humano da vida por meio dos animais são alguns dos elementos que o poeta e fabulista francês Jean de La Fontaine, ou para os mais íntimos, La Fontaine, utilizou em sua obra literária que conquistou várias culturas do mundo.

Entre as histórias mais famosas, estão A formiga e a cigarra, A galinha dos ovos de ouro, A raposa e as uvas, A lebre e a tartaruga, O lobo e o cordeiro, além de outras que carregam em si uma sabedoria popular que atravessou gerações e servem como reflexão para as ações cotidianas do homem. É este universo surpreendente que o ator francês Jean-Marie Colin apresenta aos maranhenses no monólogo Les fables de Jean de La Fontaine 1 (As fábulas de La Fontaine), no próximo dia 12 de janeiro, às 19h, na Casa de Cultura Hugunote, localizada na escadaria do Beco Catarina Mina, na Praia Grande, Centro Histórico.

No espetáculo, que tem 50 minutos, Jean-Marie Collin reuniu em um único texto outras 17 fábulas de La Fontaine, entre elas, O agricultor e seus filhos, O sapateiro e o financeiro, A leiteira e o pote de leite, O cachorro e a mosca, O cavalo e o junco, A cigarra e a formiga, A rã que queria ser tão grande quanto o boi, O rato da cidade e o rato do campo, A garça real, junto com outras que serão encenadas todo em língua francesa.

Vale aqui ressaltar que algumas das fábulas de La Fontaine, que trazem em sua essência ensinamentos fortes de valores essenciais para o crescimento humano, transformaram-se em ditados e expressões populares, como: mãe coruja, burro em pele de leão, atirar pérolas aos porcos, contar com ovos na galinha, morder a mão do dono, unidos jamais serão vencidos, que até hoje são lidas e admiradas por pessoas de todas as idades sempre como uma lição a ser tirada. Um exemplo disso é a fábula A galinha dos ovos de ouro. Nesta história, La Fontaine conta que certa velha tinha uma galinha que lhe punha ovos de ouro; e bem que raros fossem, davam-lhe para viver em abastança. Um afilhado dela continuamente lhe dizia: “Como pode minha madrinha esperar pelos ovos desta galinha? Se põe ovos de ouro, é por certo toda de ouro; matemo-la”. A velha por fim cedeu. Morta a galinha, era por dentro como todas as galinhas.

Ou ainda a fábula O rato da cidade e o do campo, que conta a história de um rato que morava na cidade e foi dar um passeio ao campo. Recebeu-o e agasalhou-o um amigo que o levou para os seus palácios subterrâneos, e deu-lhe um banquete de ervas e raízes. Maldizendo em presença de tais iguarias a louca lembrança do seu rústico passeio, o rato da cidade, obrigado a jejuar, disse por fim: “Amigo, tenho dó de ti; como te podes resignar a semelhante passadio? Vem comigo para a cidade, verás o que é fartura, o que é viver”. O outro aceitou. À noitinha, estavam ambos em uma bela e rica residência, em bem provida despensa; queijos, lombos, o perfumado toucinho, tudo os incitava. Desforrando-se de sua longa dieta, o rato do campo regalava-se. Súbito range a porta, entra o despenseiro: vêm com ele dois gatos. O rato da casa achou logo o seu buraco; o hóspede, sobressaltado, pulando de prateleira em prateleira, mal escapou com a vida, e despedindo-se do amigo: “Adeus, camarada”, disse, “ficai-vos com as vossas farturas; mais vale magro e faminto no mato, do que gordo na boca do gato”. Moral da história: Sem sossego de espírito de que valem os outros bens?

Sem falar na famosa A raposa e as uvas, na qual La Fontaine conta que estava uma parreira carregada das uvas mais apetitosas e maduras; cada cacho fazia vir um favo de mel à boca. Apareceu uma raposa; como as não cobiçaria? Começou a fazer esforços e diligências por alcançá-las, mas qual?! Estavam muito altas. Por fim, vendo perdido o tempo e o trabalho: “Agora reconheço que estão verdes, disse o animal, não gosto da fruta assim.” E foi-se consolada. Ensinando-nos que “é costume de muitos se desfazer naquilo que não podem possuir. A cobiça consola-se, deprimindo o que não pode alcançar”.

 Les fables de La Fontaine

Sobre o espetáculo, ator francês explicou que o monólogo Les fables de Jean de La Fontaine 1 já foi apresentado pela primeira vez em São Luís, no Teatro João do Vale, no ano de 2005, durante as comemorações do “Ano do Brasil na França”, quando ocorreu a Semana da França e Francofonia e teatro, promovida pela antiga Aliança Francesa de São Luís. Jean-Marie Collin lembrou também que o texto foi encenado no mesmo ano, na região da Botânia, na França, com uma grande festa, uma exposição com fotos sobre a influência francesa em São Luís e uma missa que contou com a presença dos descendentes de Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, fundador da capital maranhense.

Em entrevista a O Imparcial, Jean-Marie Collin, que tem formação no Cours Jean-Laurent Cochet, uma das maiores instituições de teatro da França, por onde passaram atores como Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, revelou que a preparação só para decorar as fábulas de La Fontaine demorou cerca de um ano, sem falar as quatro horas de ensaios diários de expressão corporal que foram necessários para que o mesmo pudesse interpretar no palco todos os diferentes personagens que pede cada texto. “Para toda esta preparação, eu contei com o apoio do diretor de teatro do Meter en Scene Joel Cudennec Chateaubriand. As pessoas que irão assistir a este espetáculo, que é todo encenado na língua francesa, são aquelas apaixonadas pela cultura e pela terra natal de La Fontaine. Estou muito feliz em reapresentá-lo aqui em São Luís, que também é um pedaço do povo francês. Espero que gostem, pois foi feito com muito carinho”, disse Jean-Marie Collin. O espetáculo também foi apresentado em em Saint Malo, Teatro de Roudour, St Martin des Champs, Morlaix, Finisterre, Casa Champ de Mars, em Rennes, Teatro Champ au Roy, Guingamp, Palais des congrès, Perros-Guirrec, Fables Hall, em Berthegon entre outros locais.

O próximo projeto de Jean-Marie Collin será uma encenação com textos de Charles-Pierre Baudelaire, poeta boêmio e teórico da arte francesa. Baudelaire é considerado um dos precursores do simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX. O espetáculo Baudelaire deve estar pronto até o fim de 2019.

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