SEM DESCANSO

Mesmo com aposentadoria, eles continuam trabalhando

A dura realidade das pessoas que, mesmo aposentadas, não podem deixar de trabalhar ou irão passar fome

Foto: Honório Moreira

Uma vida de trabalho duro e honesto merece ser recompensada com descanso e valorização por tudo que já foi feito. Essa é uma afirmação que fica muito mais no campo da ideia do que da realidade. O que realmente acontece com uma grande parcela da população é que, por todo o tempo que trabalhou e lutou para conquistar uma vida melhor, a recompensa que chega é escolha entre continuar dando duro ou passar dificuldades.

Atualmente, são milhares de idosos, que cumpriram sua obrigação social e receberam o benefício da aposentadoria, mas precisam se virar como podem, fazer bicos e arrecadar qualquer valor que se some ao que recebem da aposentadoria para fechar as contas no fim do mês.

A triste realidade

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de aposentados no Brasil passou de 8,2% para 14,2% entre 1992 e 2015. Nesse mesmo período, só na Região Nordeste, o número de pessoas com 60 anos ou mais recebendo o benefício previdenciário passou de 71,9% para 79,2%. Olhando por esse ângulo, parece positivo quando se pensa no aumento da expectativa de vida, que proporciona o crescimento da população na terceira idade.

Porém, nem tudo são flores, pois, enquanto o número de aposentados só cresce cada vez mais, seguindo na direção oposta estão os reajustes de valores das aposentadorias.

Em 2018, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), o reajuste no valor das aposentadorias foi de apenas 1,81% para aposentados e pensionistas do INSS que recebem o piso, sendo o menor reajuste desde a implantação do Plano Real em 1994.

No ano passado, entre os meses de janeiro e novembro, foram mais de 653 mil novas concessões de benefícios em todo o país, de acordo com o Boletim Estatístico da Previdência Social. Muitas dessas pessoas que ainda têm responsabilidades com a casa, família e até despesas bancárias precisaram levantar as mangas, deixar o descanso para mais tarde e continuar trabalhando.

Um levantamento realizado pelo Ipea, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), já apontava que cerca de 1,6 milhão de brasileiros trabalhavam e contribuíam para o INSS em 2014, quando estes dados foram disponibilizados pela última vez. Esses números apontam, porém, apenas os aposentados que trabalham de maneira formal. Quanto aos trabalhadores da informalidade, é quase impossível saber a quantidade exata, pois muitos só deixam de trabalhar quando as condições do corpo não permitem mais.

Vida longa, trabalho duro

Foto: Honório Moreira

São 76 anos acordando cedo, pegando no batente e não recusando trabalho nenhum. É o que diz Estácio Costa que, atualmente, trabalha como engraxate em um dos pontos mais tradicionais de São Luís, a Praça João Lisboa.

Ele conta que conseguiu se aposentar por idade, mas que o benefício não representou nada na mudança do seu dia a dia. “Acordo cedo, venho trabalhar aqui. À noite, jogo um pouco de dominó para espairecer, me distrair e passar o tempo. Nunca recusei trabalho e hoje estou aqui com muito orgulho”.

Em quase quarenta anos de todo o tipo de experiência, Estácio revela o cansaço no corpo, mas vivacidade que expressa no sorriso compartilhado com todos os seus clientes. “Eu já fiz de tudo, já vendi jornal, já fiz bicos em casas. Já estou aposentado há mais de dez anos e comecei a trabalhar como engraxate depois que aposentei. A gente tem que rir e não baixar a cabeça, que aos poucos as coisas melhoram”.

Quem começou a trabalhar na roça desde criança, com mais ou menos doze anos, e mais tarde assumiu um ofício de levar sabor à vida das pessoas espera também sentir o sabor de poder parar e descansar. Esse é o sonho do sorveteiro Cipriano Sabino, que com 62 anos de idade e quarenta percorrendo as ruas da cidade de sol a sol sonha em ainda poder receber o benefício. “Eu sou de São Bento. Quando criança, trabalhava na roça. Vim para cá e sempre trabalhei como sorveteiro, mas o corpo já está cansado e o trabalho fica mais difícil. Tem dias que já está quase impossível, mas ainda não consegui dar entrada na minha aposentadoria”, disse.

O sorveteiro conta que tentou até se informar, buscar na sua cidade meios de dar início à aposentadoria. Mas a falta de informação e burocracia não ajudaram muito. “Eu fui no INSS lá em São Bento, mas me informaram que ainda não dava para dar entrada na aposentadoria. Como não tenho como ficar muito tempo sem trabalhar, tive que voltar para São Luís e não consegui resolver isso. Eles também não me explicaram direitinho o que precisava e aí fico sem saber se posso ou não me aposentar”.

Atualmente, a aposentadoria por idade é garantida ao trabalhador que comprovar o mínimo de 180 meses de trabalho, além da idade mínima de 65 anos, se homem, ou 60 anos, se mulher. Para o segurado especial (agricultor familiar, pescador artesanal, indígena), a idade mínima é reduzida em cinco anos.

Parar é um sonho

Algo tão simples quanto parar de trabalhar e apenas descansar, fazer atividades que são aconselháveis na terceira idade e acreditar que tudo ficará bem são apenas vislumbres para a parcela da população que não viu alternativa após garantir um direito constitucional, e perceber que aposentar-se por si só não asseguraria condições de vida necessárias.

Ter mais tempo para si é o que o engraxate Estácio Costa queria se houvesse a possibilidade de depositar suas necessidades apenas na aposentadoria. “Se o valor aumentasse hoje, acho que teria mais um tempo em casa, descansando e aproveitando o resto da vida”.

Cipriano Sabino, que ainda nem se aposentou, confessa que só queria parar enquanto ainda tem saúde, algo que benefício nenhum pode comprar. “Eu nunca reclamei do trabalho. É pesado, mas é melhor do que estar fazendo o que não deve. Mas já estou muito cansado, o corpo não é jovem e só queria parar enquanto ainda tenho saúde”.

Dinheiro curto

Manter a família com a aposentadoria é quase um malabarismo, principalmente com os aumentos constantes em serviços essenciais como energia, água, gás, entre outros.

Para o sorveteiro Cipriano Sabino, mesmo ainda não recebendo o benefício, já dá para saber que não será possível contar apenas com a renda proporcionada por meio dele. Por isso, já tem planos para quando esse dia chegar.
“Quando eu conseguir me aposentar, vou voltar para minha cidade, onde estou construindo uma casinha e na frente vou botar uma vendinha. Assim, vou continuar fazendo alguma coisa, juntando uns trocados e sem precisar fazer muito esforço como estou fazendo hoje”.

Segundo Sabino, hoje em dia, já está difícil manter as contas e, no futuro, deve ser ainda pior. “As contas são muito caras hoje em dia. Pagar conta de água e luz é muito difícil. Acho que são poucos os que conseguem fazer isso só com o dinheiro da aposentadoria”.

Dinheiro que passa rápido pela mão do engraxate Estácio Costa, que quase não consegue pagar nem o que precisa para si e mais a família dos três filhos que moram com ele. “Eu moro com meus três filhos, e tem o marido da minha filha que também trabalha lá em casa. Mas a situação é difícil, o valor da aposentadoria não é justo, porque não dá para nada”.

Estácio conta que tem que decidir se mantém a saúde em dia ou paga as contas. “Eu fui fazer outro dia um exame, e o médico passou um remédio que eu precisava tomar. Só a caixa dele é R$ 280. Aí, como a gente consegue manter a casa se só com os remédios vai embora quase a aposentadoria toda. Não tem jeito, tem que trabalhar. Esses políticos não se preocupam com a gente, não querem saber se estamos bem, não estão nem aí”, desabafa Estácio Costa.

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