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Circo Show: a extraordinária magia por trás da lona

Embaixo da lona azul de estrelas, o Circo Show guarda histórias de perseverança e conquistas. Durante a reportagem, risos e lágrimas revelavam a emoção dos bastidores

Apresentação do palhaço Treme Treme

Em moto pequena e antiga, um homem magrelo toma as ruas da Ilhinha, bairro popular de São Luís. Numa das maiores favelas da capital maranhense, ele transita com caixa amplificadora, anunciando o grande espetáculo da noite. O Homem da Força Bruta é a principal atração do Circo que, com sobrenome de Show, gera expectativa.

Montado próximo às avenidas Ana Jansen e Ferreira Gullar, o Circo Show perde visibilidade pela correria dos carros que aceleram com medo do intenso tráfico de drogas na região. Violência? Aqui nunca houve. Pelo contrário, a lona azul de estrelas abriga artistas e sonhos: o Homem da Força Bruta, o tagarela Treme Treme, a emotiva Trapezista, o curioso Perna de Pau (sem pernas), o pequeno grande Madimbu, o sorridente Menino do Cubo Giratório e outros.

Fachada do Crico Show (Foto: Petronilio Ferreira)

O Homem da Força Bruta

Robson Martins, vulgo Batata, na passagem para adolescência realizou sonho de criança: entrou no mundo do picadeiro. Hoje com 30 anos, o jovem moreno de 1,75 m de altura sente dores constantes nas costas. Talvez pela versatilidade do artista que, durante o dia, se divide entre a manutenção do circo e os cuidados com dois filhos. À noite, Batata transforma-se em Homem Pássaro. Realiza acrobacias aéreas e explora sua força ao equilibrar motos em movimento. “Sabe qual o palhaço que eu mais gosto? Batatinha! Porque ele é tãããão engraçado”, diz o pequeno fã de 5 anos, Nauã. Brincalhão e reservado, o Homem da Força Bruta é querido pela criançada.

Como verdadeiro herói, Robson é exemplo para outros dois fãs: Guilherme e Gustavo, ambos com 2 e 5 anos, respectivamente. Filhos do artista, podem ser definidos como o futuro do Circo. “O maior já sabe fazer parada”, afirma o pai orgulhoso ao responder minha pergunta. Diferente do irmão mais velho, Guilherme não para. Tirar esta foto, foi um tremendo sacrifício. Segundo Batata, o caçula adora um microfone. “Não pode ver um que já quer cantar”, disse com brilho nos olhos.

Gustavo e Gulherme, filhos do Homem da Força Bruta (Foto: Petronilio Ferreira)

Durante a chamada para apresentação do Homem Pássaro, uma mão tocou meu ombro e uma voz fina sussurrou:

“Meu pai. É meu pai. É ele quem vai se apresentar agora!”, disse o inconfundível e agitado Guilherme que, por alguns segundos, sossegou, atendo ao espetáculo enquanto o homem conquistava o invencível sonho de Ícaro: voar.

Apresentação do Homem Pássaro (Foto: Petronilio Ferreira)

O tagarela Treme Treme

Do lado de fora do circo, em pose a “Le Penseur” (O pensador, de Rodin) , o Menino do Cubo contemplava a rua sentado em cadeira de plástico. Vigia despreocupado, mantinha a porta de entrada aberta. Entrei. “Quem é esse?”, perguntou o palhaço.

Fábio Jhonatan, o palhaço Treme Treme tem sotaque forte. Uma mistura de Pernambuco com Bahia e algo mais. Maranhense de nascença, carrega o típico nomadismo de circo em sua trajetória. “Nosso sustento vem do povo”, lembra Treme Treme sobre a realidade deste tipo de arte no Brasil. Nenhum incentivo do governo, é motivo suficiente para migrar entre praças em busca de nova plateia.

Além de entretenimento, o picadeiro também proporciona oportunidade de reabilitação. “Eu estava metido com a bandidagem do bairro, quando decidi ir pro circo”, lembra o palhaço que, há pouco mais de um ano, se dedica a provocar risos.

Palhaço Treme Treme (Foto: Petronilio Ferreira)

“Tem palhaço que leva a palhaçada pra adulto, e tem palhaço que leva a brincadeira para as crianças. Eu já sou mais um palhaço que leva a diversão para mais velhos, não brinco tanto com os pequenos”, conta Treme Treme.

Inspirado nos Estados Unidos da América, o palhaço tenta sempre ser moderno e inovador. Cores que lembram o simbolismo americano são a base da construção do personagem. Aos poucos, a tinta branca de tecido vai cobrindo a pele do artista. O vermelho vem logo em seguida e complementa a maquiagem, revelando a clássica face do palhaço. As roupas com as cores da bandeira americana,  reforçam o patriotismo e comprovam  paixão pelo país que fica a mais de 7 mil km do Brasil.

A emotiva trapezista

“Por que você tá chorando?”

“… Nunca ninguém me entrevistou”, disse a trapezista enxugando as lágrimas com a blusa.

Era a primeira vez que Raiana Padilha Sousa estava sendo entrevistada. Viu em mim, repórter, a realização de um sonho: o reconhecimento. Com 19 anos de idade, a jovem trapezista construiu no circo mais que carreira, fez da sua realidade um conto de fadas. Você já amou à primeira vista? Já fez loucuras para ficar perto de quem ama? Já conheceu o amor da forma mais inusitada? Raiana, já.

A trapezista lembra muito bem do dia em que conheceu o palhaço Treme Treme. “O circo tava na minha cidade e resolvi dar uma volta com uma amiga”, lembra. No caminho, ela escutou o convite tentador. “Ei! Pra vocês a entrada é R$ 2,00”, conta toda tímida. “Encostamos por lá e começamos a conversar com eles sobre o grupo de dança do qual eu fazia parte. O dono do circo soube e nos convidou para dançar” completa. A trapezista, que ainda não era trapezista, se apresentou por 3 dias no circo como dançarina, tempo suficiente para conhecer todo gingado e beleza do palhaço Treme Treme. Não demorou muito para que essa paixão virasse amor.

Com o amado, Raiana conheceu os instrumentos de trabalho. “Ele me ensinou tudo”, reconhece. Segundo a trapezista, o início da carreira foi difícil. Com tantos movimentos repetitivos, a dor era inevitável. Mesmo assim, venceu as barreiras e logo começou a se apresentar. “No mesmo dia que aprendi os passos, me apresentei no meu bairro”, lembra. Como seu trabalho é a metros do chão, não me contive e perguntei como ela geria a altura e o medo. A resposta não demorou a vir. “Normal. Uma vez eu caí, mas graças a Deus estou aqui”, disse com tranquilidade.

O pernas de pau (sem pernas)

Formado pela Academia de Artes Circenses do Estado do Ceará, como ele mesmo conta, Ribamar Silva é conhecido por Milionário do Riso. Prestes a se aposentar, não pelos 45 anos de picadeiro, mas pela falta do principal instrumento de trabalho, a perna de pau. “Não tenho dinheiro para comprar uma perna de metal”, afirma o artista. Diferente da clássica perna de madeira, fácil de entortar, o instrumento de metal é mais resistente e chega a custar R$ 2 mil.

Milionário do Riso lembra, com voz rouca, que já foi artista de renome e pousou para grandes revistas. Hoje, é porteiro no Circo Show. Às 19h, arruma-se com camisa social e vai para porta receber ingressos de papel da plateia. Além do trabalho no circo, há dois anos faz sucesso como animador de loja. São Luís, São Paulo e Manaus foram algumas das cidades por onde passou. No currículo, acumula experiência em varejistas como: Carrefour, Casas Bahia e Pollyele.

“Aqui é assim: Sacolejou, balançou e o preço baixou. Aqui você não paga nada para entrar, nem paga luxo e nem vitrine para comprar. Aqui você compra o melhor pelo menor preço da praça. Quem passa, olha; quem olha, para; quem para, entra; e quem entra, compra”, solta o repente.

Sonhador e com histórias pra contar, Ribamar afirma que aprendeu muito por onde passou. Para ele, palhaço só é bom quando tem ótimo mestre de cena.

“Tu sabes qual foi o maior show da minha vida? O dia em que meu pai tava dentro do caixão. Foi no meio de uma apresentação que minha irmã me chamou para dizer que ele havia morrido. Eu então, segurei as lágrimas e continuei, porque tinha que mostrar que era aquilo que eu queria. Se eu visse só do lado negativo, seria um verdadeiro fracasso. Mas continuei. Só que as lágrimas cairam. Quando descobriram que eu estava chorando, fechei a reprise e saí do palco”, conta emocionado Ribamar Silva.

E foi assim que no dia 23 de setembro de 1991, o palhaço chorou para a plateia sorrir.

A crise do circo

Robson Martins conhece muito bem a crise que os circos brasileiros passam. “Quando comecei, era muita gente. O povo vinha, gostava mesmo. Mas hoje tá ficando mais difícil manter o circo”, afirma. Sem incentivos, muitos picadeiros, que dependem exclusivamente da plateia, lutam diariamente para sobreviver. Uns, usam tecnologia ao seu favor; outros, o que tiver ao alcance para angariar público.

“Quando a gente não tem ajuda do governo, como faz para colocar óleo no caminhão e mudar o Circo de lugar? Como faz para pagar e alimentar os funcionários?”, indaga Fábio Jhonatan.

O que poucas pessoas sabem é que tramita no Senado o Projeto de Lei nº 5095/2013, de autoria do Deputado Tiririca, cujo texto tem como objetivo alterar a Lei Rouanet e reconhecer a atividade circense como manifestação cultural. Se aprovado e sancionado, os circos poderão receber recursos públicos para manutenção da arte. Um alívio para muitos artistas Brasil.

“Eu já coloquei na minha cabeça: enquanto eu existir de palhaço, vai haver circo”, Robson Martins

O grande Madimbu (Foto: Petronilio Ferreira)

Nota: Atualmente, o Circo Show está montado em frente ao Cintra, bairro Anil. 

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