Análise do crime

Assassinato de Anne Mickaelly: mais um caso de lesbofobia?

O Imparcial conversou com a psicóloga forense Evelyn Lindholm que analisou o crime ocorrido no dia 6 de janeiro em Samambaia, no Distrito Federal

Reprodução

O caso de assassinato da maranhense Anne Mickaelly Monteiro Mendonça, de 22 anos, ocorrido no último sábado, 6, teve mais um capítulo esta semana. O homem que a matou com golpes de faca se apresentou à Polícia Civil na última terça-feira, 9. O Imparcial conversou com a psicóloga forense Evelyn Lindohlm, que fez uma análise sobre o crime que chocou o município de Samambaia, no Distrito Federal.

O caso

As primeiras informações sobre o crime foram passadas por vizinhos que testemunharam o ocorrido. Anne supostamente teria sido assassinada porque o agressor não aceitou a notícia de que ela e a sua filha iriam se casar. Em depoimento, ele desmentiu essa versão e disse que sofria ameaças por parte da vítima, que chegou a soltar fogos de artifício para anunciar a morte do investigado.

Identificado como José Roberto Brito Moreira, de 46 anos, o homem trabalhava como vendedor de churrasquinho em frente a sua casa, vizinho à Anne Mickaelly. Irritado com o relacionamento da filha, ele correu atrás da vítima com uma faca e a golpeou no rosto e no pescoço sem chance de defesa.

“A faca é um objeto fálico e também casual, é usada geralmente em crimes pessoais e/ou sem planejamento, pois representa raiva, agressividade, força, mas também pode indicar impulsividade e falta de planejamento, por ser um objeto de uso diário. Agressores sexuais, com disfunção erétil ou ejaculação precoce costumam usar facas em suas abordagens e assassinatos, pois mostram o poder e a força que podem infringir”, explica a psicologa. Ela acrescenta também que o número de facadas desferidas pelo assassino podem indicar a raiva e o poder de decisão que ele tinha ou queria ter sobre a vida da vítima.

Agressores sexuais, com disfunção erétil ou ejaculação precoce costumam usar facas em suas abordagem e assassinatos, pois mostram o poder e a força que podem infringir. (Evelyn Lindholm, psicóloga forense)

Evelyn traça um perfil do agressor com base na forma como ele elucida o crime. “A surpresa [pelo pedido de casamento], assim como a recusa em aceitar a orientação sexual da própria filha, podem ter gerado um sentimento de descontrole sobre a vida do outro e como já uma dificuldade de culpar ou direcionar a raiva para o ente querido, geralmente, se direciona àquele a quem ele considera culpado pelo desvio de caráter [Mickaelly]”, conclui ela.

A outra versão

Em contrapartida ao relatado por José Roberto em seu depoimento, o tio da vítima, Antônio José Monteiro, 34 anos, refutou a versão do autor. Ele relatou que antes de se mudar para Brasília, Mickaelly morava na mesma casa que ele e os avós. “Ela era uma menina querida”, contou.

Segundo Antônio, a sobrinha retornou algumas vezes à Presidente Dutra, sua terra natal, e passou temporadas com a família. Ele confirmou que a jovem era lésbica e disse que ela mantinha relação amorosa com a filha do assassino. “Ela foi para Brasília na sexta (5/1) para reencontrar a parceira. Tentamos impedi-la, pois o pai da menina não aprovava. Ela era a única ameaçada nesta história”, lamentou.

O caso choca pela crueldade com que Anne foi assassinada e deixa a dúvida: seria esse mais um caso de lesbofobia? A psicóloga Evelyn Lindholm explica que “muitas vezes os pais acreditam que a sexualidade dos filhos é temporária. Ou seja, ele pensa que ela está se relacionando com essa menina agora, mas depois ela vai encontrar alguém com quem ela queira ficar mesmo. Aí quando fala-se em casamento, dá-se a ideia de que essa orientação sexual não vai mudar, causando choque pela ilusão”.

Lesbofobia?

A lesbofobia ou lesbifobia caracteriza-se pelas formas de negatividade e aversão em relação às mulheres lésbicas como indivíduos, como um casal ou como um grupo social. Esta negatividade engloba preconceitodiscriminação e abuso, além de atitudes e sentimentos variando de desdém a hostilidade. Cynthia Petersen, uma professora de Direito na Universidade de Ottawa, definiu lesbofobia também incluindo “o medo que as mulheres têm de amar outras mulheres, assim como o medo que os homens (incluindo gays) têm das mulheres não amá-los”.

O termo é utilizado para formas específicas de preconceito e negatividade contra lésbicas, uma vez que a denominação homofobia surgiu como forma de simplificar a rejeição a homossexuais, mas dentro dela existem diversas outras fobias especificas. O intelectual argentino Daniel Borrillo explica: “a lesbofobia consiste em uma especificidade no cerne de outra: a lésbica sofre uma violência particular advinda de um duplo menosprezo, pelo fato de ser mulher e pelo de ser homossexual. Diferentemente do gay, ela acumula discriminações contra o sexo e contra a sexualidade”.

Em seu perfil nas redes sociais, Anne revela que sofria preconceito. Em um relato postado por ela, a jovem chega a dizer: “Que homofóbico e tolo este pai que aceitou a filha ser maltratada por um homem, mas não foi capaz de ver ela sendo feliz só porque seria com uma mulher”, o que confirma a hipótese de as duas estarem vivendo um relacionamento às escondidas.

Oque eu acho interessante eh que a Homofobia da pessoa é tao grande que ela fica cega á ponto de nao ver o lado bom de…

Posted by Ane Mickaelly on Wednesday, 15 November 2017

Segundo relatado pela jovem, o pai aceitava que ambas fossem amigas, porém, ao descobrir que a amizade ia além, ele determinou que as duas se afastassem e proibiu elas de se verem.

O depoimento do agressor inclusive menciona que ele e a família eram próximos à vítima. “O autor contou que, a princípio, acolheu a jovem, que frequentava a casa e era amiga da filha dele. Quando soube que a Anne teria problemas psicológicos, a família começou a se afastar. Foi a partir disso que ele contou que ela teria começado a difamar a família, mandar fotos de armas e ameaçá-los constantemente”, disse o delegado responsável pelo caso, Joás Borges.

Ao avaliar o perfil de Anne, Evelyn pontua: “Ela parece bem consciente e assumida da própria sexualidade, sem preâmbulos, direta, vivendo uma realidade social e familiar de preconceito e distância, acreditando que o amor verdadeiro pode superar barreiras, mesmo que escondido, mas sabendo dos riscos que corria”, analisa a psicóloga.

Anne morou por um curto período de tempo em Brasília. Natural de Presidente Dutra, no interior do Maranhão, a família sabia da sexualidade da menina e tinha conhecimento do relacionamento dela com a filha do agressor. A mãe de Mickaelly, Luzinete Monteiro lamenta: “Meu mundo amanheceu escuro. Tiraram um pedaço de mim levaram minha filha covardemente. Eu peço forças a Deus pra suportar tamanha dor”.

Amigos essa é a mickaelly que vocês devem guardar na lembrança com um sorriso lindo no rosto uma alegria esplêndida pena…

Posted by Luzinete Monteiro on Monday, 8 January 2018

“Dia ruim e escuro infelizmente chega nas nossas vidas, e vem de várias formas, na nossa família vem pela morte trágica e cruel da nossa filha, neta, irmã e sobrinha Mickaelly”, disse o tio em uma postagem nas redes sociais. 

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Posted by Antonio Jose Monteiro on Tuesday, 9 January 2018

A polícia ainda apura o caso, mas parece ter descartado a possibilidade de lesbofobia. José Roberto, o assassino, não tinha passagens pela polícia e foi liberado após prestar esclarecimentos. Ele deve responder por homicídio qualificado por motivo fútil. O caso ainda está sendo investigado pela 32ª DP (Samambaia Sul).

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