PRODUÇÃO CULTURAL

Rica em cultura, São Luís carece de calendário oficial e institucionalizado

Com o modus operandi da cultura ludovicense baseado na dependência de orçamento e realização do poder público, um dos grandes desafios é qualificação da produção cultural

Feira do Livro, Semana do Teatro, da Dança, Festival BR 135, ELAS, Sesc Guajajaras de Arte, Guarnicê de Cinema, Maranhão na Tela, São João e Carnaval. Fora estes, são incontáveis os eventos sediados em São Luís todos os anos. Alguns já tradicionais, outros, novidades que atraem olhares e formam público. Um calendário riquíssimo, de acordo com os produtores culturais que atuam na ilha, mas historicamente negligenciado pelo poder público.

Segundo o produtor cultural André Lobão, a responsabilidade de realizar estes eventos, grande parte oriundos da sociedade civil, tem sido quase inteiramente do Estado, e o orçamento público destinado a este tipo de realização não é suficiente para abarcar o número de grupos culturais pulsantes na ilha. Problema ocasionado por um modus operandi já antigo. “[Os artistas] que querem estar integrados nessa programação se sentem de certa forma obrigados a receber esse cachê, esse investimento para que haja a programação”, explica André Lobão. “Hoje se o poder público não realiza o investimento, as festas ficam comprometidas, porque os grupos culturais criaram uma total dependência desse investimento público pra realizar essas festas populares”, afirma.

Resultado: não existe um calendário cultural oficial e institucionalizado em São Luís. Mais que uma falta para promover lazer e cultura aos ludovicenses, o cenário representa grande dificuldade para o fomento do turismo na ilha – tanto de pessoas de fora, quanto dos próprios ludovicenses -, que depende de um calendário fixo, de peso e com apelo promocional para deslanchar. Para André Lobão, a articulação entre poder público, instituições não governamentais e sociedade civil ainda é frágil para garantir a efetividade do calendário cultural. “A falta de planejamento e investimento centrado nesse calendário faz com que esses eventos cheguem às vésperas de sua realização e que o orçamento esteja comprometido”, declara.

Outro problema observado no meio da produção cultural é a falta do mapeamento dos grupos culturais da ilha, nos bairros nativos. “Existe uma produção cultural imensa que a cidade não conhece, porque não está identificado, mapeado, registrado e divulgado em lugar nenhum”, aponta André Lobão. Os exemplos são marcantes: os calendários de batizados e mortes dos grupos de Bumba-meu-boi, Festa da Juçara, além de festividades que ocorrem no entorno da cidade, como a festa do Divino Espírito Santo, em Alcântara.

Fomento

Planejar significa capitalizar, captar recursos. E se o orçamento público não dá conta de abarcar o que se produz culturalmente na cidade, para André Lobão, a saída é recorrer aos editais e conhecer os caminhos para tal. “Se você consegue atrair [recursos], você consegue movimentar uma cadeia, fazendo com que ela fique mais estável. A falta de planejamento deixa a cadeia instável porque ela fica incerta daquilo que vai acontecer. Essa incerteza dificulta a captação de recurso, então ela não oferece uma possibilidade de captação, você fica fora do planejamento do orçamento público, perde tempo viável da articulação que se tem para capitalizar esses projetos”, explica o produtor. “A cadeia fica frágil, ela não está ali oficial, planejada, prevista, prospectada. Tudo de uma hora pra outra precisa acontecer, e isso cria uma instabilidade completa pra todo mundo”, afirma.

De acordo com o produtor, o maior desafio na produção cultural é a formação e qualificação de profissionais, para que os projetos elaborados tenham competitividade. “Quando você tá distante de todo esse conhecimento, você fica numa zona distante, dependente de tudo aquilo que vão te oferecer. Se você tem um olhar mais amplo da realidade dentro do campo da cultura, você consegue enxergar novas oportunidades”, diz o produtor.

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