DISPUTA

Guerra do tráfico mata 14 pessoas em novembro

Até agora já foram contabilizados pelo menos 14 assassinatos. Na guerra entre facções criminosas, a população é quem fica no fogo cruzado

Imagem ilustrativa

“Sair de casa é complicado. Você não sabe se vai ser pego de surpresa no meio de um tiroteio”, afirma, entre receio e medo, uma moradora do bairro Vila Cascavel. Essa realidade atormenta a vida de muitos moradores que temem estar entre as “baixas” de uma guerra que eles mesmos não começaram. Desde o início dos confrontos entre facções criminosas, 14 pessoas já foram assassinadas. As facções criminosas disputam território e controle sobre o crime organizado na capital já há alguns anos. No centro dessas disputas, destacam-se como as principais associações criminosas o Bonde dos Quarenta (B40), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que, ao que parece, foram progressivamente deixando de atuar apenas no submundo do crime para tentarem, a partir da força, impor regras sociais às comunidades em que atuam.

Os chamados “tribunais do crime” surgiram como forma das lideranças dessas facções terem o controle dos bairros onde se instalam, mantendo uma falsa impressão de ordem social a partir de punições severas, que vão desde surras, mutilações, até a morte de criminosos que não respeitam as regras impostas.

Para evitar ataques rivais, criminosos chegam a decretar leis em certas regiões, fazendo pichações em muros que restringem motoristas de andar com vidros levantados. Há ainda códigos internos que impedem que membros de uma facção cruzem uma linha imaginária invadindo o espaço de outra.
Brigando muitas vezes pelo controle do mesmo bairro, facções diferentes, hora ou outra, entram em confronto, e quando um membro de uma facção encontra outro vulnerável, o destino deste é a morte. Assim, uma guerra violenta acontece diariamente e debaixo dos olhos da correria urbana das milhares de pessoas que vivem na Grande Ilha.

A primeira ofensa 

No dia 12 de novembro Yuri de Paula Silva, mais conhecido como Chacal, que era membro da facção criminosa Comando Vermelho, foi morto em uma emboscada na Estrada da Maioba, proximidades do Sítio Grande, em Paço do Lumiar. Durante o tiroteio não foi poupada nenhuma das pessoas que estavam como alvo dos criminosos no momento. O cabo Josélio Sousa, lotado no 9º Batalhão da Polícia Militar, que era padrasto de Yuri, também foi morto. Durante o tiroteio, uma criança de apenas 1 ano também foi ferida, assim como a sua mãe, companheira de Yuri. Segundo o delegado Tiago Bardal, responsável pela Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic), esse foi o estopim para ações em retaliação de criminosos. “Desde o dia da morte do Chacal, que era uma das lideranças do Comando Vermelho, houve uma revolta do CV, que começou a atacar o Bonde dos 40, atribuindo essa morte a eles. Desde então, começou essa guerra declarada entre Comando Vermelho, Bonde dos 40 e ainda temos também o PCC. Já tivemos aí mais de 15 eventos com mortes. Várias lideranças que estão nas ruas já foram identificadas pelo Departamento de Combate ao Crime Organizado e algumas já foram presas”, afirma Tiago Bardal.

Três pessoas envolvidas no assassinato de Chacal foram presas. Mateus Vinícius da Silva, conhecido como “Abacate”, Álvaro Teixeira Santos, que afirmou ter emprestado um dos veículos utilizados na ação criminosa, e Werbert Mendes Pinho, conhecido como “Bebeto”, acabou entregando o nome dos demais comparsas.

A guerra não perdoa

As noites em bairros onde as facções atuam com maior força começaram a ficar tensas e vários ataques em locais diferentes foram registrados. Três membros do Bonde foram executados durante uma festa na madrugada do dia 13, em Pedrinhas. Houve mortes também no Ipase e Vila Embratel, com tiroteios intensos e pelo menos nove mortes, inclusive de Miguel Souza, conhecido como Pixote. Crimes foram registrados também na Vila Cascavel, Coroadinho.

Houve relatos de invasões em residências nos bairros Vila Samara, Inhaúma Coqueiro e Juçara. Uma pessoa, moradora do Coroadinho, não quis se identificar por medo de represálias, mas afirmou à reportagem que teme sair de casa e se encontrar no meio de fogo cruzado, em um destes ataques. Segundo ele, as disputas são antigas, mas de vez em quando ficam mais intensas, principalmente quando lideranças são assassinadas. “Nós vivemos sempre nesse clima como se fosse uma bomba, que a qualquer momento vai estourar. Quem pode tenta se mudar para outros lugares, mas quem não pode tem que conviver”, disse.

Segundo o delegado Tiago Bardal, o maior problema da atuação das facções criminosas em São Luis é a quantidade e diversidade de siglas diferentes. “Aqui, em São Luís, além de ter várias facções, dentro do mesmo bairro ainda existem duas, três, até quatro diferentes. Além das facções nacionais, existem também as regionais, que demostram resistência pelo controle de pontos de vendas de droga, por exemplo. Isso ocasiona essa guerra declarada entre eles. Já foram realizadas 26 prisões desde o início desses confrontos, o que diminuiu desde os primeiros dias, mas é de suma importância uma colaboração do Poder Judiciário e Ministério Público, para que estes integrantes de organização criminosa tenham tratamento diferenciado para que essas pessoas não voltem à sociedade e sejam perigo para a ordem pública”.

Informações falsas

Com a onda de violência, várias mensagens com ameaças, inclusive a escolas, foram disseminadas por meio de redes sociais, o que causou pânico e medo nas pessoas.
Segundo o delegado Tiago Bardal, foram identificados cinco menores que estavam retransmitindo informações falsas. “Nós orientamos as pessoas que quando receberem essas mensagens apaguem e não retransmitam, porque a disseminação é de forma muito rápida e acaba trazendo clima de terror à comunidade.
Tiago Bardal reitera que a participação da comunidade é importante para auxiliar nas investigações. “Desde o início dos eventos, estamos recebendo dezenas de denúncias anônimas que têm ajudado muito no trabalho da polícia. Então, o papel da população é de suma importância e as pessoas podem ficar tranquilas, pois quando denunciam é realmente de forma anônima. Pedimos que a população continue acreditando no trabalho da polícia e continue denunciando, pois a intenção é essa, desestabilizar essas facções e manter a paz social nas comunidades”, pede.

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