Entrevista

Os 25 anos de dedicação à dança de Abelardo Teles

Bailarino e coreógrafo será o grande homenageado na XI Semana Maranhense de Dança, que acontecerá em novembro, em São Luís, com a participação de vários grupos e companhias de dança locais e nacionais

Bailarino e coreógrafo Abelardo Teles tem 25 anos de carreira

Comemorando 25 anos dedicados à dança, o bailarino e coreógrafo Abelardo Teles será o grande homenageado na XI Semana Maranhense de Dança, que acontecerá entre os dias 30 de outubro e 5 de novembro, nos teatros e casas de cultura da cidade. O bailarino já recebeu, em média, oito prêmios por meio da Cia Pulsar. Ressaltou que, assim como nas edições anteriores, o evento reunirá bailarinos, coletivos culturais, grupos, escolas, companhias e produtoras, que contemplem atividade cultural em dança nas modalidades: ballet clássico, neoclássico, contemporâneo, jazz, balé aéreo, dança do ventre, sapateado, dança flamenca, danças urbanas e dança de salão. A escolha do artista faz jus à importância do seu trabalho para dança no Maranhão.

Em entrevista a O Imparcial, Abelardo Teles contou como foram seus primeiros passos na dança, as dificuldades que enfrentou, seus ídolos e influências, o trabalho à frente da Cia Pulsar, entre outros assuntos. Confira abaixo a entrevista, na íntegra, do bailarino que, atualmente, responde pela direção do Teatro Alcione Nazaré, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho – Centro Histórico, na Praia Grande.

Quando começou o seu interesse pela dança?

Como vim de uma família de artistas, os meus irmãos, Regina Telles e Guilherme Telles, eram diretores de uma escola de dança, na época, o Estúdio Pró Dança. Acho que veio daí algum despertar para a arte. Aos meus 18 anos iniciei a prática, mas meio desprentencioso de algo futuro, só queria praticar mesmo a arte da dança. Comecei no Pró Dança com alongamento com a professora Marcia Rego. Daí veio um despertar para outras práticas, como Ballet Clássico, Dança Moderna e Contemporânea. Nessa época já era atleta e professor de natação e queria, além da prática desportiva, também praticar a arte e iniciei, paralelo a essas atividades que já fazia. Isso tudo foi em 1987.

Qual foi a sua maior emoção com a dança?

Acho que, nesse meio, emoção é o que não faltava… Foram inúmeros espetáculos dançados, dirigidos, roteirizados, aulas, apresentações nos mais diversos lugares e eventos. Posso citar apresentações nos teatros municipais do Rio, São Paulo, Minas Gerais. Mas tem uma coisa que pode ser considerada muito pequena, mas que muito me emocionei: coreografar e dançar na comissão de frente de uma escola de samba. Fui convidado pelo meu estimado amigo, Chico Coimbra, para compor uma comissão de frente da Flor do Samba, quando esta fez uma homenagem a Piranha. E lá fomos e representamos o nosso estimado Piranha, com as suas negas fulôs, representadas por bailarinos homens e vestidos de nega fulô. Foi lindo e até hoje, quando se fala em comissões de frente de escola de samba maranhense, lembra-se desta. Foi irradiante esse dia…

Quais suas maiores influências?

Costumo dizer que não sou uma pessoa de ter muitos ídolos, mas eu posso citar algumas pessoas que admirava, como Mikhail Baryshnikov, talvez meu grande ídolo e referência; posso citar o meu amigo Cléo Junior, como um espelho de dedicação e beleza na dança; Geraldo Lafont, meu irmão Guilherme Telles e posso dizer que todos amigos que vi dançar e que amavam a arte da dança, me inspiraram muito.

Posso considerar, dentro de todo esse meu momento de prática na dança, Antonio Gaspar, como meu mestre e formador. Costumo dizer sempre, que tudo que sei de dança ou uma grande parte, foi ele que me trouxe inúmeros conhecimentos e muito carinho estimado a mim. Se posso dizer se sinto falta hoje, na minha vida, de alguma coisa, é daquela sala do Teatro Arthur Azevedo, com aqueles bailarinos e bailarinas, que hoje são amigos e irmãos, fazendo aulas, ensaiando, dançando espetáculos. Bons tempos…

Você enfrentou algum tipo de preconceito ao fazer da dança uma filosofia de vida?

Conscientemente não tive nada que me lembre de bullying ou coisa dessa natureza. Mas inconscientemente o problema foi comigo mesmo, talvez uma falta de amadurecimento para enfrentar as questões conflitantes vindas da sociedade e, por conta disso, parei minhas atividades artísticas na área de dança aos meus 20 anos. Também nessa época eu estava muito envolvido pela natação e meus alunos, me lembro que, ao iniciar, dando aula pra bebê, com minha cunhada Denise Araújo, da Academia Viva Água, algumas vezes, quando ia faltar algum professor , eu logo de imediato me oferecia pra substitui-lo e faltava na escola que cursava ainda 3º ano do 2º grau, para ir dar aula. Já aparecia ali um dom de ensinar e amar essa linda vocação de ser professor.

Há 20 anos você desenvolve um trabalho artístico com a Pulsar nos palcos de São Luís e do Brasil. Fale um pouco dessa trajetória…

Quando iniciamos a Pulsar a 20 anos atrás, eu e meus amigos Carlos Kenne, Cléo Junior e Geraldo Lafont jamais imaginaríamos que fosse chegar tão longe nosso sonho, que era inicialmente de juntar um grupo de amigos bailarinos para fazer uma coreografia pra levar pra participar do Fida 98, Festival Internacional de dança da Amazônia. Só que tomaram proporções além das inicialmente pensadas, fomos campeões do festival com a coreografia Bolero de Ravel, coreografia de Cléo Junior e Geraldo Lafont e, no outro ano, lá estávamos nós de novo com novos trabalhos e novamente campeões. Daí em diante foram convites para participações em outros festivais com o Fendafor, Festival de Recife, Joinville, Santos, São Paulo, dentre outros. Dai começamos a ter nossos projetos aprovados por editais, para execução de projetos, para composição de espetáculos, turnês, formação de nossos bailarinos e formação de bailarinos da comunidade.

A Pulsar também contribuiu com a formação de muitos bailarinos na cidade. Muitos deles seguiram o caminho da dança e outros não…

Dentre os inúmeros projetos que realizamos, um que me deixa muito feliz em realizar, é o de formação. Nele damos a oportunidade à comunidade em geral, que muitas vezes não tem possibilidade financeira de praticar a dança. Daí vemos muito amor dos alunos a essa prática e com isso vimos o seu desenvolvimento e muitos se tornam profissionais da àrea, como hoje temos quatro bailarinos que integram o elenco da Cia. Posso dizer que a Pulsar contribuiu e contribui muito para esse processo de formação de inúmeros bailarinos, que hoje se tornaram diretores, grandes bailarinos, coreógrafos, professores.

A Pulsar também vem realizando aulões abertos à comunidade com vários estilos de dança. Como surgiu essa ideia?

Surgiu da necessidade de propagar a dança nos seus mais diversos estilos. Nossos aulões são sempre bem recebidos temos tido bons resultados ao despertar a pratica da dança com esses aulões.

Como você vê a formação dos bailarinos nos dias de hoje?

Hoje a formação de nossos bailarinos é feita pelas escolas de dança de nosso estado, através de seus professores. Acredito que seja necessário, nessa formação, acrescentar a fundação de um curso superior e técnico da nossa área, uma vez que, para se profissionalizar e se formar enquanto profissionais da dança, temos que ter não só a prática das salas de aula de dança, mas também as cadeiras das salas de aulas de cursos superiores ou técnicos. Assim, não precisaremos sair para outros estados ou outros países para nos especializar e absorver mais conhecimentos. Hoje nossos professores tem que esta sempre fora, fazendo seus cursos, participando de eventos, para assim se fazer reciclar.

Qual a mensagem que você deixa para quem quer seguir o caminho da dança…

O que me levou a ser o artista que sou hoje, acredito que tenha sido meu amor, minha emoção, dedicação e claro que um pouco de talento (risos)…que não faz mal a ninguém. Acho que tendo isso, já é meio caminho pra chegar aos seus objetivos. Para superar todas as barreiras que vão vir é preciso de um pouco disso tudo e, principalmente, verdade ao que você escolheu e que escolheu porque ama fazer.

Quais são seus próximos projetos?

Para este ano de 2017 ainda temos espetáculos para serem estreados, projetos a serem executados, criações para serem feitas. Acredito que nosso grande projeto está para 2018, onde a Pulsar completa 20 anos e que será brindado com um grande projeto com as mais diversas ações.