Preservação

Reocupação pode ser saída para o Centro Histórico

O Centro Histórico de São Luís, que tem perfil econômico voltado para o turismo, pode ter na reabitação incremento para a revitalização

Honório Moreira

As áreas urbanas estão em constante transição. Bairros antes essencialmente residenciais, com o tempo, passaram a compor áreas comerciais e a sofrer o esvaziamento da população residente. Essas transformações são mais impactantes em bairros da região central.

O coração do comércio de São Luís era o bairro da Praia Grande com a atividade atacadista de gêneros alimentos, produtos de uso pessoal, vestuário e outros. A Rua Grande também tinha sua importância comercial, porém, em menor proporção, no segmento varejista, e despontando como espaço de moradia. Com o tempo, a Rua Grande se esvaziou como área habitacional e virou referência do comércio varejista. Já a Praia Grande se voltou para as atividades de bens, serviços e turismo.

Em 1997, São Luís, com seu belo conjunto arquitetônico, foi inscrita como Patrimônio Mundial. Grande parte do acervo cultural da capital maranhense está concentrada no Centro Histórico, que dado sua importância, atrai diversos turistas, principalmente, das cidades do Pará, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Eduardo Campos, consultor econômico da Fecomércio, ressalta que o comércio do Centro Histórico é formado essencialmente por produtos regionais ligados ao turismo, que tem grande atratividade para esse público. “Esse comércio movimenta a economia de São Luís e do próprio Centro Histórico. Diversas lojas comercializam produtos, em grande parte artesanato, peças de vestuário, decoração e etc. O Centro Histórico é o diferencial do comércio varejista”, aponta.

Dentro das opções dos serviços voltados para o turismo estão os museus, centros de cultura, bares, restaurantes, feiras e lojas de artesanato. A Casa das Tulhas, na Rua da Estrela, é onde mais se concentram quiosques e lojas de produtos regionais como cachaça, farinha, doces, guaraná e tiquira.

Como as áreas históricas geralmente priorizam a valorização do turismo é importante considerar algumas questões sociais que podem interferir na transição da cultura local. Trabalhar a permanência ou retorno da população local, além de preservar a função social do patrimônio, também é uma forma de fazer girar a roda da economia. Pois, a transformação do Centro Histórico como destino turístico não o sustenta plenamente. É necessária uma cultura de ambientação não só para os que por ali passam, mas para aqueles que ali residem. Se o local precisa de infraestrutura de conservação, ela deve ser pensada não só para o turismo, mas para os residentes locais como forma de garantir a reocupação do espaço com soluções que agreguem desenvolvimento e valorização.

Buscando alternativas

Sobre soluções para o Centro Histórico, o arquiteto Diogo Pires Ferreira, formado em São Luís, e que atualmente é doutorando em Urbanismo pela Universidade IuAV de Veneza, não considera que ações isoladas mudarão a reocupação do local, mas faz importantes considerações.

“Iluminação suficiente; sinalização eficiente; casario restaurado e habitado; praças arborizadas; policiamento preventivo e ostensivo quando necessário; e alguns quilômetros de calçadas de pavimento acessível, a gosto. Seria bom se tivéssemos uma ‘receita’ para reocupar, recuperar ou melhorar o centro da nossa cidade, não é mesmo?”, argumenta o arquiteto.

Para Diogo Pires, é necessário compreender o contexto da expansão urbana de São Luís dos anos 1980, quando a cidade deixava seu modelo compacto urbano, extremamente denso, e partia para um modelo disperso, de baixa densidade, através da ocupação das áreas costeiras da cidade, e a distância, espaço e o trânsito não eram problemas. Ainda que aquele movimento fosse exclusivo de uma minoria da alta renda, este processo se estendeu pelos anos 90, guiou (e guia até hoje) muitos dos investimentos por onde escoam os preciosos recursos públicos. Hoje, vivemos suas consequências.

Desta forma, consolidou-se – e com enorme êxito – um centro histórico monofuncional. Vítima do ‘zonning’, reduziu este precioso espaço às atividades comerciais onde pouquíssimas pessoas realmente habitam, o centro da cidade.

Diogo Pires considera curioso ver que boa parte dos bairros mais densos de São Luís se localiza ao redor do centro da cidade, em sua maior parte predominantemente compostos por pessoas de baixa renda. “Seria, aqui, ‘qualidade suíça’, pois não é fácil ver mundo afora, áreas coladas ao centro, conter famílias de baixa renda que consigam habitar ali, por conta do custo de vida. Entretanto, sabemos que isto pode, inclusive, ser uma das razões pelas quais poucos acreditam na reocupação do centro”.

O arquiteto ressalta que solução pronta não existe. Mas o caminho, sim. “É fundamental compreender que, se queremos o Centro Histórico conservado, precisamos dar as condições para que as pessoas possam viver lá. Ou seja, que possa habitar no centro. Habitar no sentido de viver, de poder realizar todas as coisas do seu dia a dia. E aqui tratamos de um habitar para todos, independentemente de condição financeira ou de qualquer outro tipo de segmentação”, analisa Diogo.

Segundo a análise do arquiteto, ter o turismo como única solução é condenar o centro histórico à sua mumificação. Afinal, o turismo demanda atividades específicas que não são as mesmas do dia a dia do habitante. “Ações assim pecam por querer monumentalizar o centro histórico. É buscar transformá-lo em um museu aberto, para que os turistas possam visitar. A matemática aqui é simples: os turistas virão, teremos inúmeras lojas de souvenir e, assim, o condenamos, perpetuando a sua incapacidade de se reerguer ou de se transformar”, alerta Diogo Pires.

Diogo Pires aponta, como exemplo, que várias cidades no mundo que viram no turismo uma atrativa fonte de renda, estão hoje batalhando contra o excesso do seu sucesso. Veneza, por exemplo, por receber um altíssimo número de turistas, acaba aportando em um mercado inflacionado, inviabiliza a habitação do próprio cidadão que, por sua vez, acaba abandonando a cidade. “O caso de Veneza é tão conhecido que, Barcelona, outra cidade europeia entre principais destinos de viajantes, está discutindo, abertamente, com a população “Como não se transformar em Veneza”.

O arquiteto chama à reflexão para valorização do patrimônio como nosso e não como produto exclusivamente turístico. “Será que não somos capazes de aprender com os erros deles? Talvez a pergunta que nos cabe fazer e refletir seria: por qual motivo você não viveria no centro da cidade? Ou, quem sabe, não é chegada a hora de refletirmos sobre nossos valores culturais: dar de presente aos turistas nossa herança histórica, Patrimônio da Humanidade, enquanto vivemos trancados em condomínios fechados, como passarinhos em suas gaiolas”, conclui.

Fomento ao turismo

Especialistas, comerciantes e frequentadores concordam que é necessário intensificar as políticas públicas de segurança e urbanização do local para melhoria da oferta de turismo na capital.

“Alguns projetos já foram feitos, mas é necessário que seja dada sequência aos planos de segurança. É importante, também, o serviço de limpeza pública, pois o turista gosta do ambiente limpo. É importante a disponibilidade de mais agências bancárias para que o turista possa utilizar como lhe convém. Percebemos que muitas dessas coisas já vêm sendo feitas, mas é necessário expandir”, alerta Eduardo Campos, consultor econômico da Fecomércio.

Kiane Serejo, 47 anos, junto com o marido é proprietária de um comércio localizado dentro da Casa das Tulhas, onde são vendidos, entre outros, tiquiras, óleos medicinais e geleias. Ela confirma que a maior movimentação do comércio é por temporada. “A frequência maior é durante esse período de festas juninas e mês de julho, em que a demanda de turista é bem melhor. No decorrer do ano, a venda não é tão boa quanto nessas temporadas, mas todos os dias tem movimento, então dá para manter o negócio”. Ainda de acordo com a comerciante o que poderia melhorar era a questão da segurança e o incentivo ao comércio e ao turismo.

De passagem por São Luís, turistas do Rio de Janeiro aproveitaram as lojas do Centro Histórico para realizar as últimas compras em uma loja de confecções e artesanatos. “Já estive aqui uns dias atrás para comprar. Hoje como vamos embora, vim fazer mais um arremate para adquirir mais alguma coisa. Acho os produtos muito bonitos, os artesanatos muito bem feitos”, revelou Maria Langone, professora aposentada, 68 anos.

Como incremento ao turismo, o economista Eduardo Campos acredita que a cidade de São Luís deve ser mais divulgada como centro turístico. “O local precisa ser mais divulgado em centros que possam gerar demandas turísticas para a capital. Também é importante maior divulgação do local entre os próprios maranhenses. Os comerciantes precisam de maior apoio”, orienta.

A Secretaria de Indústria, Comércio e Energia (Seinc) defende uma atuação planejada e direcionada para as peculiaridades do Centro Histórico. “É necessário, ainda, que os vários atores envolvidos venham a buscar convergência em suas ações, visto que o estímulo à atividade econômica de um território com características tão particulares não será possível conseguir com ações desconexas e unilaterais. Por isso, a Seinc apoia alternativas e ações específicas, que possam ajudar a alavancar o comércio no Centro Histórico, visando a atração de empresas, geração assim, emprego e renda”, afirmou o secretário de Indústria, Comércio e Energia, Simplício Araújo.

Nota

Em nota, o Governo do Maranhão informou que uma série de ações estão sendo executadas no Centro Histórico para estimular o fluxo de turistas e maranhenses, bem como aumentar o esquema de segurança da região. Há um posto fixo da Polícia Militar na área, com policiais capacitados para auxiliar turistas estrangeiros que estejam frequentando os espaços. Além disso, frequentemente está sendo realizada uma série de ações para movimentar o local, como o Mais Cultura e Turismo, promovido desde 2015, além de celebrações específicas, como o Carnaval e São João, também no Centro Histórico, dando mais opção de lazer para maranhenses e visitantes, não só na região, mas também em outros espaços da cidade. Estão sendo adotadas ainda medidas para a requalificação do Centro Histórico, à exemplo das obras realizadas recentemente no teatro Odylo Costa Filho e Fonte do Ribeirão.

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