Negócios

Vale enfrenta a crise com investimentos

Para o diretor de Operações Logísticas, Carlos Quartieri, a Vale está com sua posição consolidada no mundo e trabalha duro para ampliar sua participação no mercado de minérios

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Depois de alguns anos sofrendo prejuízos em razão da crise política e econômica do Brasil, da forte concorrência internacional no setor de minério, principalmente da Austrália, e queda no preço da commodity, a Vale, maior mineradora do planeta, hoje, já ver o cenário com otimismo. Foi preciso investir pesado na nova mina Canaã S11D (perto de Carajás), na duplicação da ferrovia Carajás e no complexo portuário da Ponta da Madeira.

Para o diretor de Operações Logísticas, Carlos Quartieri, a Vale está com sua posição consolidada no mundo e trabalha duro para ampliar sua participação nos mercados de minérios.

A rede ferroviária de 892 quilômetros, que separa as duas minas no Sudeste do Pará do Porto da Ponta da Madeira, em São Luís, está sendo duplicada para atender a demanda crescente de produção de minério, que fechou 2016 com 150 milhões de toneladas e tem como meta chegar a 2019 com 230 milhões/ano.

Para isso, conta com gigantesca engrenagem de logística, produção, transporte ferroviário, porto e exportação para o mundo, em gigantescos navios mineraleiros de até 400 mil toneladas.

O maior comprador de minério da Vale é a China, mas os Estados Unidos já sofre necessidade de ampliar seus negócios no setor, por falta de matéria-prima no país, da qualidade do produto da Vale.

Há um ano, a Vale encaminhou seu relatório anual à Securities and Exchange Comission (SEC), o órgão regulador do mercado norte-americano, onde a brasileira tem ações em bolsa, no qual apontou a crise política e econômica do Brasil como um dos fatores de risco para a mineradora. Ressaltou que o cenário de instabilidade, então, poderia afetar negativamente seus negócios e os preços de seus papéis. Em dezembro de 2016, porém, a Vale inaugurou o maior projeto da história da mineração – o complexo S11D, batizado de “Eliezer Batista”, nome do ex-presidente da empresa, responsável pela viabilidade de Carajás.

Duplicação da rede ferroviária

A obra custou US$ 14,3 bilhões – incluindo mina, usina, logística ferroviária e portuária. Com tamanho investimento, a Vale se consolida como a mineradora de menor custo de produção industrial. Na ocasião da inauguração, o presidente Murilo Ferreira disse que o maior investimento privado no país nesta década irá impactar o desenvolvimento econômico e social do país, em especial nos estados do Pará e Maranhão. “Aceitamos o desafio de implantar uma das maiores operações de minério de ferro do mundo, mesmo diante de um cenário externo carregado de incertezas”, afirmou.

A mina e a usina do S11D estão localizadas em Canaã dos Carajás, no Sudeste do Pará, mas as obras vêm sendo executadas simultaneamente nos dois estados. Dos US$ 14,3 bilhões investidos, US$ 6,4 bilhões foram aplicados na implantação da mina e da usina e US$ 7,9 bilhões na construção de um ramal ferroviário de 101 quilômetros, na expansão da Estrada de Ferro Carajás (EFC) e na ampliação do Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís.

O diretor de Operações e Logística, Carlos Quartieri, informou que o ramal ferroviário, que liga a mina do S11D à EFC, deu início de operação em outubro do ano passado, com a circulação do primeiro trem de 330 vagões, por toda a extensão do trecho. O novo berço do Píer IV, na Ponta da Madeira, faz comissionamento com carga. Até novembro, cinco embarcações com 1,3 milhão de toneladas de minério de ferro já tinham sido carregadas.

Ao lado de novas minas em operação, em Carajás, e de projetos de expansão em Minas Gerais, o S11D permitirá à Vale aumentar a sua competitividade no mercado internacional nos próximos anos. A estimativa é de que o custo do minério de S11D entregue na Ponta da Madeira fique em US$ 7,7 por tonelada. A alta qualidade do minério dará flexibilidade à empresa para misturá-lo, em portos na China, Malásia e Omã, com os produzidos em Minas Gerais, trazendo melhoria no preço do produto final.

Empregos

No pico das obras do S11D, em 2015, cerca de 40 mil trabalhadores atuaram no projeto, grande maioria do Pará e Maranhão. Hoje, restam cerca de 15 mil pessoas trabalhando na mina, na usina e nas obras de duplicação da EFC, já com quase 70% concluída. Na fase final de operação da mina e da usina do S11D, a previsão é que sejam gerados 2,7 mil empregos diretos e, pelo menos, outros 10 mil indiretos.

Tecnologia

Uma das principais soluções tecnológicas que transformam a mina de S11D em referência em termos ambientais é a adoção do sistema truckless, um conjunto de estruturas compostas por escavadeiras e britadores móveis, interligados por correias transportadoras. Ao todo, as correias chegam a 68 quilômetros de extensão, operando dentro da mina e da usina. O novo sistema substitui os tradicionais caminhões fora de estrada, comuns na mineração. A usina do S11D usará também uma rota de processamento desenvolvida pela Vale: o beneficiamento à umidade natural – ou a seco, como também é conhecido -, já utilizado em algumas plantas de Carajás e que permitirá reduzir em 93% o consumo de água, o equivalente ao abastecimento de uma cidade de 400 mil habitantes.

Após o beneficiamento, o minério de ferro de S11D é transportado por ferrovia até o Terminal de Ponta da Madeira (TMPM), em São Luís. Para viabilizar o transporte, foi preciso construir toda uma logística, que irá consumir quase 55% do investimento dos US$ 14,3 bilhões orçados. O chamado S11D Logística consistiu na construção de um ramal ferroviário, com 101 quilômetros de extensão, na expansão da EFC e na ampliação do TMPM. Essas obras foram concebidas com a construção de túneis, pontes e viadutos, para garantir a menor interferência possível na Floresta Nacional de Carajás. Dos 101 quilômetros, apenas três estão dentro da Flonaca. Nesse trecho, a ferrovia não interfere na circulação da fauna durante períodos de cheia. Além disso, existem 32 passagens que permitem a circulação de animais silvestres em área de floresta.

Gigantismo em tudo

Atualmente, circulam na Ferrovia Carajás 56 composições, simultaneamente, somando trens de minério, de carga geral e de passageiros. Entre as composições, está um dos maiores trens de carga do mundo em operação regular. São 330 vagões, com 3,3 quilômetros de extensão. Nele, é possível transportar 33 mil toneladas de minério de uma só vez, o equivalente a mil carretas.

Com a duplicação da ferrovia, será possível aumentar a circulação para 69 composições simultâneas. No fim do primeiro semestre de 2016, a Vale concluiu as etapas de expansão do terminal ferroviário, dentro do porto. Desde então, o TMPM terá sua capacidade nominal aumentada para 230 milhões de toneladas por ano, em 2019. Este patamar de produção só será alcançado com as demais etapas do Projeto S11D, a duplicação da EFC.

400 mil toneladas

Segundo o gerente do Porto, Walter Pinheiro, a vantagem do Píer IV em relação a outros portos brasileiros é a capacidade de receber navios de grande porte como o Valemax, maior mineraleiro do mundo, com capacidade de 400 mil toneladas.

Por ser desabrigado – ou seja, sem molhes ou quebra-mar –, o píer exigiu cuidados redobrados com segurança, já que a construção está a quase dois quilômetros sobre o mar. O sistema de amarração é único no mundo para esse tipo de navios. Na área do porto foram construídos quatro novos pátios de estocagem de minério, com capacidade para 600 mil toneladas cada. Eles se somam a outros nove já existentes. Os novos pátios contam com dois viradores de vagões, uma empilhadeira, duas recuperadoras e duas empilhadeiras-recuperadoras. No processo, os trens de 330 vagões vindos de Carajás, são separados em blocos de 110 vagões para facilitar a descarga. Enquanto o minério é retirado, as locomotivas seguem para revisão no Pial, que atende até 12 locomotivas simultaneamente, seguindo, em seguida, de volta à mina.

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