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Artigo: A história através dos jornais, do professor Claunísio Amorim Carvalho

"Parabenizo O Imparcial pela sua longevidade, numa época em que muitos órgãos têm fechado suas portas ou ido apenas para a seara virtual, e especialmente por registrar muito do que pode subsidiar nossos historiadores."

Hoje, quando o mais antigo jornal em atividade no Maranhão completa 90 anos, uma pequena reflexão sobre a importância dos periódicos como fonte para a escrita da História. No Brasil da década de 1970, por exemplo, não se ignorava a importância dessas “enciclopédias do cotidiano”, pela riqueza dos registros da vida diária do país, através de notícias, de opiniões sobre variados temas, dentre outras coisas. Embora já houvesse trabalhos sobre a imprensa, relutava-se em escrever a História por meio dela. Isto muito se deve ao peso de certa tradição historiográfica que vinha desde o século XIX, quando a História, vista essencialmente como Ciência, buscava a verdade dos fatos, passível de ser encontrada em documentos.

O historiador, nesse contexto, não deveria se envolver com o objeto do seu estudo, mas ser senhor de precisos métodos de crítica textual, e suas fontes deveriam ser objetivas, neutras, fidedignas e distanciadas do seu próprio tempo suficientemente para serem vistas como fontes históricas. Daí que os periódicos pareciam inadequados, pelo aspecto fragmentário dos registros do presente e, sobretudo, pelo caráter subjetivo dos órgãos de imprensa, tidos como refletores de interesses particulares de determinados grupos. Em vez de captarem a verdade dos fatos, como se esperava, só conseguiam fornecer imagens parciais, subjetivas, incompletas e até distorcidas da realidade presente.

A crítica a essa concepção já existia desde os anos 1930, feita pela chamada Escola dos Annales, mais a imprensa ainda teria de esperar o reconhecimento pleno de suas potencialidades, que só viria mais para o final do século XX, com a chamada terceira geração daquela revista francesa, pensando novos objetos, problemas e abordagens, propondo laços fundamentais com outras Ciências Humanas, das quais muito tem se servido. Muita coisa mudou desde então, a História deixou de ser uma busca pela verdade dos fatos e passou a ser uma tentativa de compreender o passado, deixou de ser a História dos grandes homens e passou inclusive a ser “vista de baixo”, com “protagonistas anônimos”, os temas se ampliaram, os períodos se recortaram, e quase tudo passou a ser fonte de pesquisa histórica. Faz-se ainda História em durações maiores, mas já existe a vertente chamada História do Tempo Presente, tendo no Brasil programas de pós-graduação stricto sensu nesse sentido.

Os periódicos ganham força, nesse contexto em que predomina a ideia de que a História é uma mescla de Ciência e Arte, uma construção do olhar do historiador, a partir de um lugar social de onde ele fala. Seja para um passado já distante ou para um mais próximo, os jornais são importantes, por conterem informações sobre a vida cotidiana do país, mostrando seus olhares sobre a sociedade, a política, a cultura, a economia, etc., refletindo anseios e angústias, revelando fatos e fornecendo pistas. Tão importante esse reconhecimento que muitas hemerotecas no país têm digitalizado exemplares para consulta pela internet, cabendo aqui o registro do excelente trabalho feito pela Biblioteca Nacional.

Parabenizo O Imparcial pela sua longevidade, numa época em que muitos órgãos têm fechado suas portas ou ido apenas para a seara virtual, e especialmente por registrar muito do que pode subsidiar nossos historiadores. Quando pesquisava para o meu Terra, grama e paralelepípedos: os primeiros tempos do futebol em São Luís (1906-1930), servi-me de exemplares do jornal de 1929 e 1930. Vida longa!

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