LITERATURA

Ferreira Gullar mostra seu eu em ‘Autobiografia poética e outros textos’

Livro traça panorama da vida de um dos poetas mais significativos da literatura brasileira

Foto: Estado de Minas.


Estado de Minas

Ferreira Gullar

A editora Autêntica acaba de lançar Autobiografia poética e outros textos, de Ferreira Gullar. O volume, inédito, revela, de forma honesta e sensível, a trajetória do poeta, crítico de arte, dramaturgo, ensaísta, ficcionista e tradutor. Trata-se de um depoimento, uma reflexão sobre seu fazer poético, em linguagem acessível, num diálogo franco com o leitor. Além da autobiografia, o livro reúne duas entrevistas com o poeta, uma de 1965 e outra de 2014, e ensaios sobre importantes nomes da literatura internacional – César Vallejo, o grande poeta nacional do Peru, o enigma Fernando Pessoa e o rebelde Rimbaud –, expressando a visão de Gullar sobre a criação artística. A obra traz, ainda, fotos de diferentes épocas da vida do poeta.
São os poemas que explicam o poeta. Nada mais. O poeta é a sua obra, o poeta está em cada linha, em cada verso. As palavras são, assim, suas pernas, os seus pelos, as suas unhas, as palavras respiram e elas são como senhas. Os versos ampliam os olhos do artista, os versos fazem crescer a barba, o cabelo. O poema dita este ou aquele jeito, aquele modo peculiar de um andar, são os versos a vestimenta que faz e desfaz, que desanda, que cresce um pobre coração imenso, insondável, apesar de tanto sonho e tanta literatura.
Daí, também, por que não, a beleza, a importância e a preciosidade da história contada pelo próprio artista. Nada é mais promissor, nada é mais agradável e prezeroso do que sabermos um pouco mais da vida, dos percalços daquelas pessoas que aprendemos a amar. Ainda que o poeta fale de si, em entrevistas e até mesmo em suas crônicas, o livro chega em boa hora para preencher, para completar esse processo de aproximação de um artista sempre pronto para desordenar a linguagem, um poeta inventivo, que chegou, com talento e esforço, ao ápice do “poema essencial”. Para isso, a receita: é preciso “violentar a sintaxe, destruir o discurso e, com isso, revelar o que ele oculta”.
Gullar fala, desenvolto, dos primeiros momentos de sua experiência poética até os dias de hoje. Gullar faz um balanço sobre o seu fazer, sobre os caminhos e descaminhos do espanto, que, segundo ele, faz nascer os poemas. O poeta lançou em 2010 Alguma parte alguma. Desde lá, o poeta preferiu o silêncio. Ele tenta, em sua autobiografia, com humildade, com sinceridade, entender as forças que nos levam para esse ou para aquele caminho.
Com 12 ou 13 anos, o poeta roubava copos em bares do Centro de São Luís. Desse pequeno delito, um salto, para transgressões maiores, bem mais interessantes, para a poesia, essa outra forma de molecagem astuta. Foi Dodô, seu irmão mais velho, que lhe fez um alerta estranho: os poetas, em geral, enlouquecem. Não foi o caso. Ferreira Gullar tornou-se, logo depois, um dos mais importantes poetas brasileiros. De Um pouco acima do chão, de 1949, segundo ele, “um livro imaturo, ainda que escrito com muita entrega e entusiasmo”, ao Poema sujo (1976), uma trajetória luminosa, peculiar, rica em termos de vivência a aprendizado. Muitos parceiros contribuíram para tanto – Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, como também Fernando Pessoa e Vitorino Nemésio. O poeta considera, contudo, A luta corporal, de 1954, seu livro de estreia.
No livro, encontramos, assim, o relato das mudanças na vida de Gullar. A obra proporciona ao leitor um encontro com as mais diversas personalidades que, de uma forma ou de outra, e em épocas distintas, também alicerçaram tanto sua produção literária quanto sua persona. Entre elas, Mário Pedrosa, Otto Lara Rezende, Benjamin Péret, Maurice Nadeau e André Bretton.
Também merece destaque a reprodução, na íntegra, do Manifesto Neoconcreto, redigido pelo autor e assinado pelos demais precursores do movimento que, em contraste com o racionalismo concretista, demonstra a consciência crítica e o engajamento de Gullar em defesa de seu fazer artístico, que busca dar à poesia autonomia, transcendendo sua objetividade. Sim, a poesia, essa aventura imprevisível. É simples como água, é suja como a terra e tudo que nela viceja. O poeta ensina: “A literatura só terá sentido se mudar alguma coisa, nem que seja a minha própria vida”.
AUTOBIOGRAFIA POÉTICA E OUTROS TEXTOS
• De Ferreira Gullar
• Editora Autêntica
• 160 páginas
• R$ 44,90
O FORMIGUEIRO
• De Ferreira Gullar
• Editora Autêntica
• 120 páginas
• R$ 54
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