FÉ E RELIGIÃO

Devoção gigante na Capela de São Pedro

Centenas de grupos de bumba meu boi passaram pelo local, pedindo bênçãos e cantando para agradecer pela temporada.

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Você já ouviu aquele dito popular “primeiro a devoção, depois a diversão”? Pois é. Essa frase encaixa bem quando se fala do festejo na Capela de São Pedro. O dia e a noite que antecedem a festa são de celebrações ao Santo, e hoje, o ápice, o dia de São Pedro, além de marcado pelas tradicionais procissões marítima e terrestre, tem o amanhecer na Capela ao som do bumba meu boi.

Brincantes e fiéis sobem e descem ladeira. O destino? A Capela de São Pedro, templo tradicional de adoração, que fica na Madre Deus. Centenas de grupos de bumba meu boi passaram pelo local, pedindo bênçãos e cantando para agradecer pela temporada. “É uma festa que acompanho desde criança com meu pai, é um momento em que todo mundo quer participar, para que isso faça parte da sua trajetória. O dia 29 representa muito, desde cedo estamos aqui”, disse Ribinha de Maracanã, do histórico Boi de Maracanã.

O momento mágico é quando o boi sobe as escadarias para receber as bênçãos. “A gente se apresenta enquanto o miolo do boi leva o boi para a Capela, cantamos toadas e já nos preparamos para daqui a pouco ir para outra noitada, e em seguida, ir para São Marçal, nosso tradicional encontro dos bois de matraca”, completou Ribinha.

Zequinha de Coxinho e o Boi Fruto da Raça Show desde cedo se concentram para homenagear São Pedro, mas também para fazer uma reverência ao saudoso cantador e amo de boi  Coxinho. O cortejo sai do cemitério do Gavião com destino à Capela. “Todo ano a gente faz essa homenagem bonita para o meu pai, Coxinho. A gente guarnece o boi 23h do dia 28 para passar na porta da Capela cedinho, dia 29, descendo com o boi e estamos na luta, ano a ano”, disse Zequinha.

A expectativa pela volta da festa na Capela, depois de dois anos, não foi só dos brincantes. Pelas redes sociais, o público demonstrou a ansiedade pelo tradicional evento. “Nossa Capela está viva. Nosso São João está vivo e a gente vai poder se reencontrar”. Comentou o internauta Paulo André Santos. “Nem acredito que a gente vai amanhecer de novo na Capela…”, disse Camila Sá.

O estudante Fabrício André Santos, disse que é a primeira vez que participa da festa, e vai acompanhado do pai, que há 20 anos amanhece na Capela. “Eu não vinha antes porque era criança ainda, mas desta vez já deu para vir, ver tudo isso, acompanhar minha família”, disse ele, que tem 15 anos.

Homenagens ao padroeiro dos pescadores

A festa para São Pedro começa cedinho com a procissão marítima às 7h, a saída foi da Rampa Campos Melo (na Praia Grande) com dezenas de barcos. Nesse momento, fiéis e devotos pagam promessas, como seu Pedro José Bendito, 55 anos. “Graças a Deus este ano pude estar presente nessa festa de novo. Foram dois anos que paguei minha promessa só na Capela, mas este ano, estou na procissão de novo”, disse ele, que há 12 anos, participa da festa.

Logo mais, às 16h30, acontece a procissão terrestre, com saída da Capela de São Pedro, passando pela Rua São Pantaleão, Rua do Passeio, Praça da Saudade, Avenida Ribamar Pinheiro, Avenida Rui Barbosa, Rua Múcio Teixeira, de volta ao Largo de São Pedro, onde acontecerá a Missa Campal.

Enquanto essa programação acontece, o Largo está tomado pelos grupos de bumba meu boi, brincantes locais e turistas. São cerca de 80 anos de festa onde batuques, tambores e matracas invadem o Largo da Madre Deus.

São Pedro morreu martirizado no dia 29. Ele foi crucificado, mas pediu para que a cruz ficasse de cabeça para baixo, pois não se sentia digno de ter a mesma morte que seu mestre. Pedro era um pescador e foi apontado por Jesus como seu sucessor entre os doze apóstolos, com a missão de construir uma igreja que continuasse a obra de Jesus. São Pedro, o primeiro papa, ganha um diferencial pelo entrelaçamento com cultura popular, originada das práticas do catolicismo popular, que, na sua simplicidade, revela a história e devoção do povo da Madre Deus.

História que permanece viva

O jornalista, escritor e pesquisador Herbert de Jesus Santos fez um amplo trabalho sobre o festejo, o largo e tudo que o cerca, tendo em vista ter nascido atrás da primeira capela, e ser filho e sobrinho de alguns dos pescadores, que originaram o festejo, e ainda neto da primeira zeladora da igrejinha.

Em um dos seus trabalhos ele diz que as atividades religiosas da igreja começaram em 1940, antes da primeira capela de alvenaria, edificada embaixo, em 1949. “Havia, inclusive, atrações que não temos hoje, quanto leilão de prendas, queima de fogos mais bonitos, quanto os da imagem de São Pedro, e a ronqueira, um artefato de madeira e um pequeno canhão, que detonava bucha e pólvora para o Rio Bacanga, e batizados”, contou.

A  festa se originou, em 1939, no Desterro. Em 1940 se mudou para a Madre Deus, visto lá ter mais pescadores. Naquela época só os bois de zabumba participavam da festa. Em seguida, os de matraca passaram a participar. Hoje, a festa  reúne grupos de todos os cinco sotaques: zabumba, matraca, orquestra, costa-de-mão e baixada. Aos poucos, foi crescendo, até se tornar o que é hoje, um local por onde passam centenas de grupos ao longo do dia, e milhares de pessoas.

Sobre a Capela, apenas em 1949 foi erguida a de alvenaria, com o apoio do político e industrial Cesar Aboud, dono da Fábrica Santa Isabel, de tecelagem. Já a comissão organizadora, segundo Herbert, só foi criada em 1945. “Assim, a festa ganhou os noitantes (homenageados em todas as noites de junho, de pescadores a donas de casas, etc.), leilão de prendas, procissões terrestre e marítima, além da louvação de bumba bois, com os de zabumba, depois, os de matraca, no encontro, atualmente, com grupos de todos os sotaques”, disse Herbert.

Posteriormente, na década de 1970, foi refeita uma outra capela que ficava na parte de baixo do Largo, no entanto, no fim da década de 1990 foi construída a capela de São Pedro atual, a que fica bem no alto.

A capela foi reformada três vezes, duas delas pela Prefeitura de São Luís, em 1973 e 1996. A arquitetura atual data de 1997 e foi feita pelo Governo do Estado, na primeira gestão da governadora Roseana Sarney. Em 2017 mais uma reforma foi feita. No ano passado, em 2021, uma obra que contemplou não só a Capela, mas todo o Largo de São Pedro, entregou à comunidade um local novo. Segundo o governo do Estado, foi a primeira reforma completa em 19 anos.

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