CINEMA

Eternos pode ser o épico bíblico da Marvel

Uma adaptação fiel da HQ de Jack Kirby passará obrigatoriamente por analogias cristãs como a dualidade entre o Bem e o Mal

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É difícil saber o que esperar do filme dos Eternos porque, antes de mais nada, a história da equipe é uma mistura megalomaníaca de referências. Quando Jack Kirby deixou a DC Comics sem conseguir completar sua história dos Novos Deuses, ele voltou para a Marvel e lá reaproveitou conceitos de cosmogonia e mitologia para explicar a vida na Terra do Universo Marvel a partir dos gigantes Celestiais. Uma das principais referências de Kirby na HQ era o cristianismo – e não seria estranho se a Marvel Studios fizesse com The Eternals seu primeiro… épico bíblico.

A ideia central por trás do primeiro volume da série, publicado em 19 edições entre 1976 e 1978, é a de que os chamados eternos estão por trás das narrativas mitológicas da Humanidade – os deuses do Olimpo grego eram eternos e figuras proeminentes de eventos definidores da história do mundo, como Nero ou Atila, conviveram com eles. Essa noção se consolida na quinta edição, a que revela a cidade eterna de Olímpia; na caixa de diálogo que abre a HQ, Kirby apresenta os eternos como “a verdade que há por trás de todas as mitologias”.

Embora passeie por panteões ecléticos, porém, nas edições anteriores Kirby usa como base para a série uma noção cristã de Bem e Mal. Quando os primatas ainda caminhavam sobre quatro patas, os Celestiais vieram à Terra e aqui fizeram experimentos para criar três raças: os eternos, os humanos e os deviantes. A organização entre eles se assemelha à divisão entre céu e inferno; castigados pelos deuses, os deviantes se refugiaram nas profundezas dos oceanos, criando armas e planejando conflitos, enquanto os plácidos eternos encontraram abrigo nos topos das montanhas, de onde perscrutavam o universo com suas mentes, e coube aos homens povoar as terras baixas do planeta.

Se essa organização já tem um caráter cristão evidente, a própria noção de que os deviantes são parentes “corrompidos” dos eternos, seres deformados que não têm a mesma beleza dos “escolhidos” dos Celestiais, só cimenta o paralelo com a Bíblia e seus anjos caídos convertidos em demônios. 

Quando os deuses voltam à Terra nos dias de hoje (a ação que Kirby narra ao longo do Volume 1), o deviante Kro, que tinha a cabeça lisa quando surge pela primeira vez, então desenvolve chifres que, segundo ele, lhe dão uma imagem demoníaca que é capaz de instigar os humanos a temê-lo. “Eles não vão rir disto… Até o dia de hoje, esta imagem assombra as mentes deles como um vírus”, diz Kro antes de partir em um ataque a Nova York. A ideia de Kro não é subjugar, mas instigar o medo e a ira nos humanos contra os deuses – uma agenda mais próxima do Mal cristão do que normalmente se vê em supervilões de quadrinhos.

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