ARQUITETURA COLONIAL

Conheça a triste história do Palácio das Lágrimas

O sobrado, com histórias trágicas, foi demolido no final do século 19

Reprodução

Um fato ocorrido no final do século 19 que mistura história e lendas, eivado de crimes e tragédias, até hoje mexe com o imaginário do nosso povo. Um crime por vingança e outro por intriga sórdida e ambos culminando com mortes e injustiças. Assim é a história/lenda do Palácio das Lágrimas, nome dado a um sobrado de três andares que existiu na Rua da Paz, na esquina da Rua de São João, em frente à igreja do santo, no Centro de São Luís.

Este prédio de histórias trágicas foi demolido no final do século 19, dando lugar a um prédio para abrigar um instituto de ensino superior, o que nunca aconteceu porque o seu idealizador morreu antes de ver o sonho realizado. Outra versão é a de que o prédio era para abrigar a Escola Modelo Benedito Leite, que ali funcionou por algum tempo e depois foi para um prédio maior, na Praça de Santa Antônio, onde até hoje funciona. Ali passou a funcionar a Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade Federal do Maranhão. Hoje, está em reforma.

O historiador Euges Lima disse que são muitas lendas em torno do prédio que recebeu o nome de Palácio das Lágrimas e permaneceu em ruínas por muitos anos, até sua demolição. Segundo Euges, aquele prédio, conforme consta no imaginário popular, tinha uma maldição que dizia que, qualquer pessoa que tentasse concluir sua construção, teria morte certa.

Então, o prédio não teria passado de paredes, sem coberta. Assim consta no livro O Cativeiro, de Dunshee de Abranches. Em sua narrativa, conta que um escravo conseguiu escapar de seus algozes e se escondeu nas ruínas do Palácio das Lágrimas, e ali permaneceu por três dias, pois os policiais do Posto de São João, que ficava próximo, não imaginaram que ele poderia ter se acoitado naquele lugar, cujo interior havia sido tomado pelos carrapateiros e as urtigas-de-rato, vegetal que tem as folhas cheias de finos espinhos que por conter ácido fólico, causam coceiras terríveis e até chagas nos corpos. O negro fugitivo era irmão de uma negra identificada como Apaga Fogo e foi retirado dali, alta madrugada, por um catraeiro conhecido como Caroba e levado para uma embarcação que o levou para o Ceará, primeiro estado abolicionista no Brasil.

Segundo Dunshee de Abranches : “Sobre essas sombrias ruínas, criaram-se lendas e inventaram-se tragédias. A crendice popular afirmava que, quem ousasse comprá-lo e reconstruí-lo, teria morte súbita. E, por coincidência, o chefe político que um dia resolveu adquiri-lo para edificar um instituto de ensino, não chegou a ver sua obra concluída e sucumbiu em pleno vigor da vida”.

Lendas trágicas

Uma foto do velho prédio o mostra totalmente edificado e nas narrativas de outros autores consta que o referido era habitado. Mário Meireles, no seu livro São Luís-Cidade dos Azulejos, consta que a denominação Palácio das Lágrimas foi porque ali morava um homem de boas posses, e que mantinha no terceiro andar daquele prédio um harém formado por suas jovens escravas e, entre elas, uma se sobressaia pela beleza escultural do seu corpo e de face com traços finos e delicados, por quem um jovem escravo se apaixonara.

Este não foi correspondido, visto que a escrava preferiu ficar gozando das benesses que lhe eram dadas pelo seu dono e senhor. Por isso, o negro, que estava apaixonado, tramou um crime terrível e envenenou os dois filhos do senhor e escondeu o vidro com restos do veneno nos pertences da bela escrava, que assim foi acusada do duplo homicídio e condenada à morte por enforcamento, embora clamasse por clemência, negando a autoria dos crimes.

Esta jovem, quando saia do prédio para ser levada à forca montada na esquina da Rua da Paz com Rua da Mangueira, chorava copiosamente que seu pranto molhou os degraus da escada do sobrado. Conta a lenda que desde então, todas as manhãs os degraus amanheciam molhados e no imaginário popular, eram as lágrimas da escrava injustiçada.

Inveja e vingança

O escritor Jomar Moraes, no seu livro Guia de São Luís do Maranhão, narra que na Rua de São João, na esquina com a Rua da Paz, havia um vasto sobrado com três pavimentos e que, durante muitos anos, permaneceu em ruínas e que correm, ligadas a este imóvel, diversas lendas. A principal fala de dois irmãos portugueses que resolveram “fazer a América”, e vieram ter ao Maranhão.

Um deles, Jerônimo de Pádua, comerciante e cujas atividades também compreendiam as de traficante de escravos, enriqueceu bastante, enquanto o outro jamais conseguiu sair da pobreza. Cheio de inveja do rico, o irmão pobre concebeu o plano macabro de assassiná-lo, com a finalidade de herdar-lhe a grande fortuna, pois o irmão rico não tinha herdeiros legítimos, vivendo amasiado com uma preta sua escrava, com quem teve vários filhos. Praticado o nefando o crime, e na posse dos imensos bens herdados de sua vítima, o fratricida passou a tratar os escravos com crueldade, notadamente a amásia e os filhos do seu irmão assassinado.

Informado, certo dia, acerca do quem fora o verdadeiro assassino do seu progenitor, um dos filhos lançou-se, indignado, contra o tio e, de uma das janelas, arremessou-o violentamente à rua, provocando-lhe a morte súbita.

Descoberto o criminoso, e por ser escravo, foi ele condenado à morte na forca, que foi levantada em frente ao sobrado. Ao subir ao cadafalso, o condenado proferiu, como últimas palavras esta frase:

Palácio que viste as lágrimas derramadas por minha mãe e meus irmãos! Daqui por diante, serás conhecido como Palácio das Lágrimas

Assim o sobrado passou a ser chamado

Nos últimos anos do século XVIV, o poeta Sousândrade, empenhado na criação de sua sonhada e frustrada Universidade Atlântica(que depois rebatizou de Universidade Nova Atenas), pretendeu instalá-la no Palácio das Lagrimas. Após os trabalhos de restauração e adaptação, o poeta morreu sem realizar o seu sonho.

Joaquim Manuel de Sousa Andrade , o Souzândrade, morreu na extrema miséria e considerado louco.

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