EM CARTAZ

Diretores explicam atualidade de Bacurau

Sônia Braga vive uma médica e é o grande nome do elenco de Bacurau, que estreou nos cinemas brasileiros ontem

Reprodução

A Escola Municipal João Carpinteiro, com sua fachada deteriorada, evidencia que a trama de Bacurau, embora se passe “daqui a alguns anos”, fala de problemas históricos do país, que se estendem ao presente. O remoto e fictício vilarejo no sertão pernambucano que dá nome ao longa (e também a uma ave noturna típica da fauna local) sofre com a negligência desonesta do prefeito e a consequente privação de recursos hídricos, educacionais e medicinais.

Por outro lado, a homenagem feita pelos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ao cineasta norte-americano John Carpenter, diretor de filmes como Halloween, Fuga de Nova York e A bruma assassina, também deixa claro que Bacurau tem muito da cinefilia de dois amigos, que compartilham mais que o roteiro e a direção.

Assim como Mendonça Filho, Juliano Dornelles é recifense e assina a direção de arte nos dois longas anteriores do amigo – O som ao redor (2012) e Aquarius (2016). A parceria profissional começou bem antes, em 2004, no premiado curta Eletrodoméstica. Em 2009, trabalharam juntos em outro curta, Recife frio.

Segundo Mendonça Filho, foi quando nasceu Bacurau, pela ideia dos dois de fazer “algo delirantemente exagerado e verdadeiro”. Dez anos mais tarde, eles lançaram o filme no Festival de Cannes, em maio passado, do qual saíram com o Prêmio do Júri. O salto de Juliano Dornelles para o cinema profissional se deu com Cinema, aspirinas e urubus (2005), do também pernambucano Marcelo Gomes, no qual trabalhou no Departamento de Arte.

Apontando que tem sintonia afinada de ideias com Mendonça Filho, Dornelles afirma que Bacurau “não foi escrito num retiro na montanha, com uma lareira, uma máquina de escrever e um copo de uísque. Estávamos numa mesa, com dois monitores, TV ligada, rádio, portais de notícia e o mundo jogando as inspirações na nossa cara”.

A maior parte da crítica enxerga na história de Bacurau um comentário potente e raivoso ao Brasil de hoje, com uma crítica direta ao governo Jair Bolsonaro. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, no entanto, dizem que a construção do filme vem desde antes da eleição presidencial de 2018.

Embora o vilarejo da trama não tenha mais que 100 habitantes, há uma médica competente, a dona Domingas (Sônia Braga), e o professor Plínio (Wilson Rabelo), que cativa seus alunos em aulas de geografia ministradas com um tablet e mapas on-line, sem mencionar os conhecimentos botânicos muito úteis à comunidade preservados por Damiano (Carlos Francisco).

Há também violência, prostituição e miséria, além de um prefeito charlatão, vivido por Thardelly Lima, que só aparece para pedir votos, sendo duramente confrontado pelos locais. Nesse contexto, surge uma ameaça externa e aterrorizante, que obriga os moradores a se organizar de modo mais complexo.

Apesar de ter vencido o Prêmio do Júri em Cannes, Bacurau não conseguiu ser o representante brasileiro no Oscar 2020. O escolhido pela comissão formada por membros da Academia Brasileira de Cinema foi A vida invisível, do cearense Karim Aïnouz, que ficou com o prêmio máximo da mostra Um Certo Olhar, também em Cannes.

Sobre isso, Kleber Mendonça Filho diz que “Bacurau tem uma carreira internacional gigante. É um filme de enorme prestígio, mas prefiro que seja dito que Karim é um grande cineasta e vai representar muito bem o Brasil”.

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