DIA DAS MÃES

Mães universitárias: um outro tipo de jornada de trabalho

Se uma mulher já tem uma jornada dupla de trabalho, imagine uma mulher, mãe e universitária. Neste Dia das Mães, conversamos com três guerreiras que conseguem conciliar os estudos, a maternidade e o trabalho

Sâmia e Marco. Foto: Arquivo Pessoal

Todos os dias ao acordar, Raviane Mendes leva e busca o filho na escola, lhe dá seu almoço e parte para a UFMA, onde estuda Relações Públicas. Quando a madrinha não está disponível para tomar conta da criança, a estudante é obrigada a levar o menino Miguel*, de seis anos, à universidade. Este tipo diferenciado de “jornada dupla” – ou tripla – faz parte da história de incontáveis outras mulheres que se esforçam diariamente para conciliar a maternidade com a vida acadêmica e, às vezes, com o trabalho.

De sua casa na zona rural, a viagem chega a durar uma hora e quarenta minutos e é dividida em três ônibus. Ao chegar na universidade, Raviane leva Miguel consigo às aulas e tem que repartir sua atenção entre o professor e o filho, já que a UFMA não disponibiliza creches para mães universitárias.

“O ideal seria ter um espaço dentro da universidade em que eu pudesse deixar meu filho enquanto eu faço minhas atividades. Eu revesaria entre assistir às aulas e estar mais próxima dele. Pagar por babá, mesmo, eu não tenho condições”, desabafa.

Raviane. Foto: Reprodução

A estudante Pétala Monteiro também passou por aperreios por conta do tempo apertado para fazer as duas coisas. Quando iniciou a graduação, o percurso da UFMA até onde estudava seu filho, Luís, era de uma hora e vinte minutos. “Então, às vezes eu levava bronca da escola por chegar depois das seis e meia da tarde para buscá-lo, sendo que as crianças eram liberadas às cinco. Era muito chato e cansativo”, conta.

Durante as férias, por não ter com quem ficar, o filho tinha que acompanhar a mãe nas aulas da universidade. “Ele ia, às vezes cochilava na carteira, ficava entediado, às vezes ficava no celular ou desenhando…”, lembra a estudante. De acordo com ela, nenhum professor nunca reclamou da presença do menino, mas Pétala sentia certa incompreensão por parte dos próprios colegas de classe.

“Às vezes eu chegava atrasada quando tinha apresentação de trabalho, mas porque eu tinha que deixar um monte de coisas prontas em casa, jantar… Eu notava que as pessoas criticavam. Faltava empatia”, revela.

Pétala e Luiz. Foto: Arquivo Pessoal

O começo, entretanto, foi a parte mais complicada de todas. A estudante diz que já entrou na universidade grávida e não chegou a completar dois anos de curso até desistir. “Quando eu ia para a UFMA e amamentava, era muito difícil por causa do cansaço do ônibus, o calor, a agonia. Muitas vezes eu tinha que sair da aula porque ele ficava chorando”, diz.

Também é o caso de Sâmia Martins, que divide seu dia-a-dia entre os cuidados com Marco Antônio, seu filho de dois anos, e a graduação de jornalismo na UFMA. Além de com a mãe, Sâmia divide as responsabilidades com o companheiro e pai de Marco, Kaio Lima, que também estuda no local.

Por conta da ajuda, a graduanda nunca precisou levar o menino à universidade – o que não quer dizer que as coisas sejam mais fáceis. “Quando acontece um imprevisto, é uma loucura. Eu e Kaio temos que decidir quem vai faltar com base no nível de importância do que vamos fazer na aula do dia”, relata.

Quando Marco Antônio nasceu, a complicação era maior: Sâmia precisou atrasar a graduação para dar a atenção adequada ao filho. “A UFMA não tem espaços para o bebê ficar, então preferi trancar o curso até meu filho fazer um ano de idade. A minha preocupação maior era a amamentação”, explica.

“O real problema de eu ser mãe universitária é a consciência pesada”, revela Sâmia. “Como eu também trabalho, tem dias que só vejo ele à noite, ou ele quando já está dormindo. (…) Várias vezes eu já pensei em largar tudo porque acho que estou perdendo a vida do meu filho”, pontua.

Sâmia e Marco. Foto: Arquivo Pessoal

As três mulheres, ao travarem estas batalhas diárias, acabam por defender uma coisa em comum: a criação de um local na universidade para que possuam tanto o direito de estudar quanto o de ver seus filhos crescerem – sem que a graduação anule a maternidade ou vice-versa.

“A universidade não dá nenhum tipo de apoio. Já tivemos discussões, manifestações e debates pela criação de creches e berçários dentro da universidade para facilitar a vida das mães e dos pais. Mas, infelizmente, nossas pautas nunca foram atendidas”, denuncia Pétala.

Raviane diz que a criação de creches na universidade é um mecanismo para que não aconteça a evasão destas estudantes e propõe que salas desocupados nos prédios, assim como estudantes de pedagogia, poderiam cumprir esta função. “Ia economizar dinheiro da universidade, os alunos poderiam fazer o estágio lá e as mães poderiam ficar bem mais próximas das crianças”, defende.

Enquanto a estrutura da instituição de ensino não muda, as mães universitárias e trabalhadoras permanecem na luta diária. “Apesar da rotina pesada, eu tenho conseguido conciliar de alguns períodos para cá”, finaliza Raviane. No final das contas, esta frase resume bem a forma como estas mulheres guerreiras vencem a batalha contra as adversidades.

*O nome original da criança foi trocado a pedido da mãe.

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