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LITERATURA

Cultura negra inspira escritores brasileiros em diversos estilos

Livros de Nei Lopes, PJ Pereira e Claudio Fragata tratam de questões como racismo, cultura, religiosidade e resistência negra

Foto: Reprodução da Internet.


Reprodução da Internet

Nei Lopes volta aos anos 1950 para traçar um panorama do racismo naquela época

O Rio de Janeiro da década de 1950 de Nei Lopes não é aquele da bossa nova nas praias de Copacabana e de Ipanema. No livro mais recente, Rio Negro, 50, o escritor e sambista vai além desse cenário e apresenta ao leitor o cotidiano de intelectuais, artistas e jogadores de futebol, majoritariamente negros, nos bares do centro da então capital federal. O romance, que mistura realidade e ficção, mostra esses personagens debatendo sobre acontecimentos da época.

A ascensão da Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura e do Teatro Experimental do Negro; a fundação do primeiro clube social da classe média negra carioca (Renascença Clube) e a assinatura da Lei Afonso Arinos eram alguns assuntos das mesas do Café e Bar Rio Negro. Porém, a pauta mais comentada foi o assassinato de um jovem negro, confundido com Bigode, lateral da Seleção Brasileira derrotada pelo Uruguai na Copa do Mundo de 1950.
Infelizmente, mais de seis décadas depois, algumas questões do livro continuam atuais, como os problemas da falta d’água, a especulação imobiliária e a repressão ao candomblé. “A grande diferença é que as práticas de discriminação explícita são hoje tipificadas como crime. Então, na hora da ofensa, o racismo faz pensar um pouquinho antes de se manifestar. Além disso, hoje existe em vigor um Estatuto da Igualdade Racial, mesmo que esvaziado e enfraquecido em seus propósitos iniciais”, diz Nei Lopes sobre as semelhanças do cenário de exclusão dos anos 1950 com os dias de hoje.
Na obra, Nei também observa e critica a profissionalização das escolas de samba. “O samba, hoje, já não ameaça nem mete medo em ninguém. Já foi convenientemente desafricanizado — tanto que já tem até uma vertente sofisticada, de elite, batizada como ‘afro-samba’”, dispara. “A religiosidade, sim, ainda merece algum respeito; mesmo porque a semente do neopentecostalismo moderno surgiu com gente egressa da ‘macumba’. Mas os verdadeiros detentores dos saberes herdados da tradição africana, estes já se foram ou estão desaparecendo”.
Protagonistas
Rio Negro, 50 é uma obra-prima por mostrar personagens negros como protagonistas da história e da cultura do Brasil e por relembrar a consolidação do movimento negro no país. O livro encerra uma trilogia “involuntária”, que retratou três momentos importantes da história afro-brasileira. “Mandingas da mulata velha aborda o período do estabelecimento da comunidade baiana no Rio, que vai da virada do século até o início da década de 1930. E A lua triste descamba engloba do surgimento das escolas de samba à morte de Paulo da Portela (décadas de 1920 a 1940)”, relembra Nei.
Depois de recordar a década do protagonismo negro no Rio, o escritor carioca pretende voltar aos anos 1920 e 1930 para discutir a polemica questão da mestiçagem no Brasil e nos EUA. “Sem pensar em nenhuma ‘quatrilogia’”, avisa.
Cinco perguntas// PJ Pereira
Como suas histórias são criadas? Há uma inspiração específica para cada livro ou as histórias seguem o fluxo da sua pesquisa?
PJ Pereira: Eu tenho um processo bem rígido. Primeiro escolho o tema, o universo da história, e começo a pesquisar. Enquanto isso, faço minhas anotações e tento encontrar um ângulo diferente naquilo tudo, uma perspectiva ou um jeito de olhar que possa gerar uma boa trama. Nesse caso, foi a pergunta do que aconteceria se os búzios não dessem resposta nenhuma. Tudo nasceu daí. O próximo passo é escrever e reescrever o arco da história em linhas gerais e ir refinando até eu ter um resumo de cada capítulo, só então eu começo “escrever” propriamente — e isso também segue uma disciplina bem forte, que dura entre três e quatro meses: eu acordo e a primeira coisa que faço é ler o resumo do capítulo daquele dia. Nada antes nem depois. Depois disso, uso todas as horas em que estou sozinho, sem a distração do celular, para pensar a respeito. Não tomo notas para deixar minha memória servir como um filtro. À noite, quando a família toda foi dormir, eu sento e escrevo por duas a três horas. Não mais que isso para não cansar demais e acabar num “writers block”.
Para você, há diferença na forma de escrita se compararmos o primeiro com o terceiro livro?
PJ Pereira: Sim. No primeiro eu estava um pouco mais inseguro, então coloquei mais foco nas lendas originais dos orixás e mantive o texto mais seco e dinâmico, quase como se o leitor estivesse vendo um filme. No segundo, me permiti algumas pausas maiores, mas mantive o ritmo acelerado e o foco nas lendas. Para esse terceiro eu assumi muito mais riscos na forma de escrever, nas cenas. Ele é mais sombrio, até para combinar com o título (“O Livro da Morte”) mas acho que fiquei mais solto. A maior dessas ousadias, e confesso que várias vezes quase me arrependi, é que um dos dois mundos referenciados no título eu resolvi contar de trás para frente, de uma forma que o leitor não fica curioso para saber o que vai acontecer, mas por que algo que aconteceu.
A que se deve o sucesso de Deuses de dois mundos?
PJ Pereira: Acho que à coragem de todo mundo envolvido no projeto. Quando eu tentei publicar o livro pela primeira vez, ouvi que não havia mercado. Que esse era um livro para um público que não lê. Fiquei furioso com o preconceito e não desisti enquanto não consegui provar que esse povo estava errado. Consegui. O livro vende muito bem, tanto entre gente que lê um livro por semana quanto entre gente que nunca mais leu um livro desde que saiu da escola. Isso é a magia de uma história forte — não exatamente da que eu escrevi, mas de todos os mitos de que eu me apropriei para contar o que eu queria escrever. É muito bom ver preconceitos aos cacos, no chão, aliás. Acho que foi uma das partes mais divertidas de tudo, logo depois de sentir meu ego quase explodir quando vi uma fila gigantesca de gente que eu nunca havia visto na vida no lançamento do segundo volume da trilogia.
O público pediu para que você colocasse a bibliografia de suas pesquisas no “O livro da morte”. A curiosidade sobre a religiosidade africana está aumentando nos brasileiros?
PJ Pereira: As pessoas me pediam muitas indicações do que ler na página do Facebook do livro. Foi daí que veio a ideia. Acho que parte disso é um crescimento desse interesse que sempre vem junto com o aumento da repressão. Quando a polícia reprimia no passado, os artistas ficaram mais interessados em saber e falar do assunto. Agora com a pressão neo-pentecostal, vejo esse interesse crescendo de novo. A outra parte disso é que esse universo das tradições africanas sempre foi muito oral. Quando eu comecei a escrever, 15 anos atrás, havia poucos livros sobre o assunto, e muitos dos que haviam eram considerados grandes traições ao segredo. Hoje há mais abertura para isso. Mais títulos publicados, tanto na esfera religiosa quanto acadêmica (sociologia e antropologia, especialmente). Na ficção é que eu acho que ainda há pouco. Precisamos que essa geração de escritores que estão ativos por aí tenham mais interesse pelas raízes negras do Brasil, não só para que o interesse aumente, mas também porque existe uma crise de representatividade no nosso entretenimento. Simplesmente não há heróis negros. E não digo que heróis negros precisam vir diretamente de personagens mitológicos ou folclóricos. Eles devem aparecer também como executivos, médicos, advogados… gente que não tem nenhum motivo para ser “núcleo negro” da história. Mas até que isso aconteça, acho que há um passo intermediário que é a criação desses negros que são heróis exatamente por causa da sua origem.
Por que os capítulos dedicados ao Aiê são de trás para frente?
PJ Pereira: Há várias explicações. A primeira, e mais simples, é que no outro lado, no Orum, houve um problema no lago onde se enxerga o futuro e ele passou a enxergar o passado, como se o tempo andasse para trás. Isso fez com que a história do outro lado ficasse interessante se seguisse o mesmo sentido. A segunda é que eu queria manter o toque tecnológico, mas queria quebrar a estrutura de e-mails dos livros anteriores, então resolvi escrever sob a forma de blogs ou como posts no Facebook (embora muito mais longos do que se faz normalmente, essa licença eu tomei). Blogs e posts são lidos de trás para frente, os mais recentes no alto. São escritos na ordem cronológicas mas lidos ao contrário. Achei um desafio interessante e que combinava com a questão do rio que corria para trás e tudo combinou. Finalmente, o arco do mundo contemporâneo era mais surpreendente no início do que no fim. O fim tinha um choque, uma grande surpresa, mas era o início que me encantava mais. Então quanto veio a ideia de contar tudo do fim para o início, tudo funcionou tão bem que eu resolvi que era aquilo mesmo. Lembro bem do dia em que decidi isso. Estava no chuveiro, minha mulher se maquiava e naquele estalo eu disse para ela: “acabei de resolver “O Livro da Morte”.
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