Educação · ARTIGO

Todas as Ciências são Humanas

Confira o artigo do Prof. Dr. João de Deus Mendes da Silva, Pró-Reitor de Planejamento e Professor de Matemática da Universidade Federal do Maranhão.

Prof. Dr. João de Deus Mendes da Silva
Prof. Dr. João de Deus Mendes da Silva

No final do mês passado fomos surpreendidos com uma declaração do Ministro de Educação sobre a descentralização orçamentária dos cursos de Filosofia e Sociologia. Pelos critérios apresentados pelo Ministro, o remanejamento de verba privilegiará os cursos com retorno imediato para a sociedade, como Medicina, Engenharia e Veterinária. Sob esta camada de aparente justificativa, subjaz a impressão e relativa certeza de que o remanejamento decorre muito mais de uma retaliação à postura crítica e questionadora de ambos os cursos, do que propriamente de uma necessidade orçamentária. A recepção da notícia, logo em seguida confirmada pelo Presidente Bolsonaro, nos fez despertar para o contrassenso, pois na atual conjuntura os alunos se encontram tão desinteressados com os estudos, que até mesmo doutriná-los já implicaria desviá-los das conversas paralelas, da desatenção e do (cada vez mais constante em sala de aula) aparelho celular. Entretanto, considerando uma eventual doutrinação, ainda assim não seria uma condição necessária para se propor um remanejamento dos recursos destinados a tais cursos de licenciatura, pois, são  cursos relativamente baratos, afinal não exigem recursos específicos como laboratórios ou condições especiais de trabalho.

Após considerar a declaração do Ministro, gostaria de fazer uma reflexão especificamente sobre o porquê de a Filosofia ser necessária para o espírito acadêmico, a Filosofia é o próprio espírito criador da Universidade, afinal o que faziam os teólogos medievais que criaram esta grandiosa Instituição, lá nos idos do século XII, senão filosofar? O que fazia Arquimedes quando, no século III a.C, decidiu fundir a Filosofia e a Matemática, ao criar os primeiros argumentos infinitesimais para o cálculo de área? Contrariando a normalidade daquele período, Arquimedes decidiu tocar em um problema que, sendo genuinamente filosófico, até hoje nos fascina: o infinito, que originaria posteriormente (em matemática) o cálculo diferencial e integral.

Ao longo dos séculos, pensadores como Isaac Newton, Cauchy e Weirstrass deram condições para que um problema genuinamente filosófico, como o do infinito, fosse adaptável em uma variedade de processos físicos, tecnológicos e econômicos. Diferentemente desses gênios, o Ministro Weintraub parece, ou se esquecer do potencial abstrativo da filosofia, ou diminui-lo em comparação com ciências de ‘retorno imediato’. Em se tratando de Educação, retorno não é o melhor dos termos. Daí por que, o que seria da Física sem o cálculo diferencial e integral; indispensável para a compreensão dos conceitos de velocidade, aceleração instantânea e força – conceitos que só são definíveis por que, um dia, antigos filósofos gregos se inquietaram com o problema do movimento? Vejam bem: filósofos que, não dando ‘retorno’ aparente, dão condições para que outras áreas criem autonomia e amadurecem intuições filosóficas. O que seria das áreas do conhecimento ‘com retorno imediato’, como por exemplo, a Medicina, se alguns filósofos não tivessem se questionado sobre a harmonia dos humores ou fluidos corporais, e, cuja curiosidade, ensejou as primeiras autópsias? A própria noção de ‘harmonia’, com francas adaptações na Música, no Direito, na Arquitetura e nas Artes plásticas só surgiu no instante em que um filósofo se deu conta do problema imediatamente contrário: o da desarmonia. O que seria, de modo conjunto e interdisciplinar: uma ressonância magnética, caso a Matemática não tivesse se interessado pela inquietação filosófica do infinito, gerando assim valores integrais que, no caso do exame, correspondem à diferença de intensidade entre a onda que entra no organismo e a que sai? O que seria da Química sem os elementos dos filósofos pré-socráticos, cujo desdobramento deu origem à tabela periódica? O que seria da Gramática sem a noção grega de substância, que deu origem ao nosso conhecido ‘sujeito’? 

Sempre valorizei todas as dúvidas e incertezas, pois a partir delas pude desenvolver meu raciocínio matematicamente. Considerando-as em graus de abstração distintos do que minha mente possa suportar, sou daqueles poucos que a Matemática arrebatou ainda na juventude. Entretanto, sempre retive na memória as lições que fui obtendo e estimando ao longo de minha formação, fosse com meus Professores de Licenciatura ou de Pós-Graduação, ou mesmo no convívio com colegas professores de diversas outras áreas nos cursos de formação de professores pelo interior do estado do Maranhão. Retendo-as, fui percebendo, por exemplo, que a educação sempre deu seus melhores frutos no instante em que a Filosofia se fez presente como um grau do conhecimento que, de modo transversal, dialoga tanto com o senso comum, como com as outras ciências. Daí porque a nota do Ministro me parece, relativamente, deslocada, afinal é desproporcional contingenciar gastos de cursos de licenciatura já contingenciados, em uma realidade que, carente de educação, necessita mais de interdisciplinaridade que propriamente de segmentação e apartheid científicos. A saída não é contingenciar o já, desde há muito contingenciado, a saída é reformar o Ensino Superior brasileiro, dando condições para que a Filosofia dialogue (em posição estratégica) com todos os cursos, oportunizando assim meios para que os futuros licenciados e bacharéis possam definir (com muito mais propriedade) a essência de seus próprios objetos de estudo.

Certamente Arquimedes, Newton, Cauchy e Weirstrass receberam instrução filosófica, marcando-os decisivamente. Sem intuições de natureza filosófica, parte expressiva do que desenvolveram matematicamente ficaria comprometido. Por essa razão, de quem sabe que, sem Filosofia a Ciência é como um corpo sem alma, é que recebo com reservas a declaração do Ministro Weintraub. Filósofos, quando compreendidos, criam gênios, físicos, matemáticos e cientistas. Ministros, quando compreendidos, criam problemas para que se possa filosofar.

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