O volume de vendas no comércio varejista cresceu pelo nono ano seguido. A alta de 1,6% no varejo restrito em 2025, no entanto, significa menos da metade da expansão do ano anterior (4,1%), com ritmo equivalente ao de 2023 (1,7%), segundo os dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE. Foi um crescimento “com amplitude menor” e “razoavelmente distribuído”, segundo o gerente da pesquisa, Cristiano Santos.
Assim, o resultado foi puxado pelas atividades de produtos farmacêuticos, móveis&eletrodomésticos e equipamentos para escritório&informática. “Essa última fortemente influenciada pela desvalorização do dólar frente ao real”, afirmou Santos. “Isso ajudou nas vendas de produtos eletrônicos importados, como celulares e laptops.” O varejo ampliado ficou praticamente estável, em 0,1%, depois de 3,7% no ano anterior.
Para o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, do Instituto de Economia Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (IEGV-ACSP), o resultado foi positivo, dentro do esperado – a entidade projetava 1,5% – mas reflete a perda de ritmo da atividade econômica do país. “A desaceleração se deve aos juros altos e ao grande comprometimento de renda das famílias”, afirmou. Por outro lado, o emprego e a renda ajudaram a manter certo nível de consumo.
“Você tem duas forças”, disse Ruiz de Gamboa. “Emprego e renda continuaram sustentando o crescimento do consumo, de outro, juros e endividamento.” No caso do varejo ampliado, que tem setores mais dependentes de crédito, os dados já mostram retração: as vendas de veículos e peças caem 2,9% e as de material de construção recuam 0,2%. “São os setores mais afetados pela taxa de juros, os que mais sofrem.”
Em relação a 2026, o economista acredita que a tendência de redução de ritmo vai continuar. Mesmo que os juros passem a cair a partir de março, como se aposta (o Comitê de Política Monetária vai se reunir nos dias 17 e 18), os efeitos demoram a aparecer na economia. Ruiz de Gamboa projeta estabilidade para o varejo restrito e alguma retração para o ampliado.
Remédios
Segundo o IBGE, sete das 11 atividades pesquisadas tiveram alta no ano passado. Destaque para artigos farmacêuticos&médicos (incluindo perfumaria), com crescimento de 4,5%, móveis&eletrodomésticos (também 4,5%) e material de escritório&informática (4,1%). A atividade de tecidos, vestuário e calçados subiu 1,3% e a de hiper&supermercados e produtos alimentícios, 0,8% – ante 4,6% no ano anterior. O segmento de combustíveis e lubrificantes subiu 0,6%.
| Ano | Varejo restrito (%) | Varejo ampliado (%) |
| 2001 | -1,6 | – |
| 2002 | -0,7 | – |
| 2003 | -3,7 | – |
| 2004 | +9,2 | +11,1 |
| 2005 | +4,8 | +3,1 |
| 2006 | +6,2 | +6,4 |
| 2007 | +9,7 | +13,6 |
| 2008 | +9,1 | +9,9 |
| 2009 | +5,9 | +6,8 |
| 2010 | +10,9 | +12,2 |
| 2011 | +6,7 | +6,6 |
| 2012 | +8,4 | +8,0 |
| 2013 | +4,3 | +3,6 |
| 2014 | +2,2 | -1,7 |
| 2015 | -4,3 | -8,6 |
| 2016 | -6,2 | -8,7 |
| 2017 | +2,1 | +4,0 |
| 2018 | +2,3 | +5,0 |
| 2019 | +1,8 | +3,9 |
| 2020 | +1,2 | -1,4 |
| 2021 | +6,4 | +4,5 |
| 2022 | +1,0 | -0,6 |
| 2023 | +1,7 | +2,3 |
| 2024 | +4,1 | +3,7 |
| 2025 | +1,6 | +0,1 |
Fonte: Pesquisa Mensal de Comércio (PMC)/IBGE
O Ibevar-FIA Business School, projeta “crescimento moderado” do comércio neste início de ano, “com desempenho desigual entre os segmentos que compõem o varejo restrito e o varejo ampliado”. A estimativa, para o restrito, é de 1,7% em 12 meses em fevereiro, desacelerando para 1,3% em abril. No ampliado, alta em fevereiro e retração em março e abril, “refletindo principalmente o desempenho negativo de segmentos mais sensíveis ao crédito e às condições financeiras”.
O segmento de artigos farmacêuticos segue sendo destaque positivo, com variação acumulada de 6,7% em abril, “confirmando a resiliência do consumo essencial”. A atividade de hiper e supermercados deve sustentar alta de 0,3% a 1%. E a de veículos e peças continuará em queda, que pode chegar a 4%.
“Os resultados mostram um varejo que segue crescendo, mas de forma seletiva”, afirmou o presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), Claudio Felisoni, também professor da FIA Business School. “O consumidor está mais cauteloso, priorizando gastos essenciais e adiando compras de maior valor.”