opinião

Futebol e racismo

Yuri Costa e Marco (*) Adriano Fonsêca (**) - Defensor Público Federal e Professor UEM(*) e Juiz de Direito TJMA e Professor ENFAM e UEMA (**)

O futebol está certamente entre uma das maiores expressões culturais do Brasil. Serve de orgulho nacional, impulsionando sentimentos positivos que são marcas de nossa identidade cultural. Aliás, seria difícil pensar o Brasil e nossa cultura sem esse elemento.

No entanto, mesmo diante do espetáculo e da festa despertados pelo futebol, somos frequentemente levados a pensar o quanto ele permanece tocado pelo racismo. A cada ano se torna mais evidente que o racismo está longe de ser algo banido por completo dos estádios.

Tivemos recentemente mais uma manifestação racista tendo por vítimas atletas brasileiros. Dessa vez foi na Copa Libertadores da América Sub-20, em Assunção, Paraguai. Doze clubes sul-americanos competem na competição pelo maior título futebolístico do continente, buscando alcançar a “glória eterna”, como diz o slogan do torneio.

No episódio aqui comentado, ocorrido em 6 de março, torcedores do Cerro Porteño, time paraguaio, direcionaram ofensas racistas contra os jogadores Luigi e Figueiredo do Palmeiras, de 18 anos de idade. O caso tomou grande repercussão na imprensa. A reação de Luigi, capitão do clube brasileiro, foi imediata e contundente. Durante a entrevista concedida ao final do jogo, ao ser indagado sobre a partida, questionou duramente o repórter pelo fato de não ter sido perguntado sobre o episódio de racismo por ele sofrido. Luigi foi além disso. Cobrou ao vivo que a Confederação Sul-americana de Futebol (Conmebol), organizadora do torneio, adotasse providências. Perguntou ainda até quando isso ocorreria. A postura incisiva de tão jovem desportista, que infelizmente também foi flagrado chorando após as ofensas recebidas, chamou muito a atenção de atletas profissionais, clubes e de autoridades públicas de diferentes partes do mundo, que foram solidários aos jogadores do Palmeiras.

Depois do ocorrido, o Palmeiras e a Confederação Brasileira de Futebol protocolaram pedidos de exclusão do Cerro Porteño da competição. Todos os times do grupo principal do futebol brasileiro publicaram notas de solidariedade e de cobrança por punições. A reação da Conmebol foi frustrante. Após anunciar que haveria punições exemplares, apenas determinou o fechamento dos portões em jogos com mando do Cerro Porteño, a obrigação de realizar campanha antirracista e uma multa de 50 mil dólares, considerada demasiadamente baixa para as estabelecidas na competição.

Importante destacar que os torcedores paraguaios envolvidos na agressão, mesmo facialmente identificáveis pelas imagens, não foram presos pela polícia que estava nas arquibancadas do estádio. Não há também notícia de inquérito policial formalmente aberto naquele país para investigar o episódio de racismo. O caso envolvendo o time do Palmeiras está longe de ser algo isolado. Infelizmente, há uma sistemática prática de racismo nos estádios de futebol sul-americanos. Nos diferentes torneios promovidos pela Conmebol fica bastante evidente a maneira com que o racismo está impregnado na cultura futebolística, somando-se a outras posturas igualmente reprováveis, como a misoginia e a LGBTfobia.

A manifestação corriqueira do racismo nos estádios possui uma direta relação com a impunidade que acompanha tais casos, ainda que denunciados e com expressiva repercussão nas mídias. Apenas para se ter uma noção, a multa imposta pela Conmebol no caso envolvendo o Palmeiras – de 50 mil dólares – equivale à metade da que um clube em média recebe caso se atrase para uma partida naquela competição. Além disso, mesmo tendo sido reiteradamente pedida, a Confederação deixou de considerar a desclassificação do time paraguaio do campeonato, o que indiscutivelmente alcançaria maior eficácia e repercussão prática.

Como forte elemento cultural brasileiro, para além do entretenimento, o futebol é uma importante ferramenta na formação social e intelectual em nosso país. Ele impacta diretamente a forma como as pessoas compreendem o mundo e repercute na difusão do conhecimento. Por isso mesmo, possui esse esporte o potencial de contribuir para a mudança de paradigmas, especialmente para a promoção do senso coletivo de uma cultura de pacificação e de respeito às diversidades. Por isso defendemos que o futebol, e tudo aquilo que ele envolve, deve ser utilizado como estratégia antidiscriminatória e antirracistas. Os torneios e os jogos devem ser eventos que instrumentalizem a promoção da igualdade e da fraternidade, potencializando os saberes e as capacidades de todas as pessoas, sem discriminação de qualquer natureza.

Nesse sentido, devem as instituições públicas e privadas brasileiras e sul-americanas envolvidas no processo produtivo do esporte adotar um compromisso de letramento racial de seus gestores e integrantes, em todos os níveis. Mais do que isso, devem constituir uma política antirracista e antidiscriminatória, como ferramenta do desenvolvimento socioeconômico e de difusão de informações e ensinamentos sobre as raízes étnico-raciais africanas e indígenas, temas e narrativas que foram historicamente invisibilizadas no contexto da educação formal.

Defende-se ainda que sejam adotadas estratégias adequadas e eficientes para a investigação e a responsabilização dos agressores envolvidos em atos de racismo, de forma a diminuir a sensação de impunidade, que reproduz o racismo institucional e repercute na falta de devida diligência por parte das autoridades encarregadas do processo criminal em casos dessa natureza.