opinião

A face racista do nazismo

Yuri Costa (*) e Marco Adriano Fonsêca (**) - Defensor Público Federal e Professor UEMA(*) e Juiz de Direito TJMA e Professor ENFAM e UEMA (**)

Quando pensamos no regime nazista, geralmente lembramos dos horrores do Holocausto, das milhões de mortes de judeus, ciganos, pessoas com deficiência e opositores políticos ao governo de Hitler. Essa memória é de extrema importância. Devemos, no entanto, lembrar que o racismo nazista também tinha como alvo as pessoas negras, tratadas como inferiores e até mesmo como “ameaças” à chamada “raça ariana”.

O nazismo foi uma ideologia política de extrema-direita que surgiu e se consolidou na Alemanha entre os anos 1930 e 1945, sob a liderança de Adolf Hitler e do Partido Nazista. Esse regime pregava a superioridade da raça ariana e defendia a ideia de que os alemães eram um povo “puro”. O nazismo também foi marcado pelo autoritarismo, pelo controle totalitário da sociedade e pela repressão violenta a qualquer forma de oposição. A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939, foi o palco mais sangrento dessa experiência, com a Alemanha nazista invadindo diversos países da Europa, até ser derrotada em 1945.

No nazismo, homens e mulheres negros foram discriminados, perseguidos, esterilizados à força e, em alguns casos, assassinados. Embora não tenha havido um programa de extermínio específico direcionado às pessoas negras, como ocorreu com os judeus, o regime implementou políticas raciais que restringiam as oportunidades sociais e econômicas desses indivíduos, além de submetê-los a diversas formas de violência e exclusão.

Para Hitler e o Partido Nazista, a humanidade podia ser dividida entre “raças superiores” e “inferiores”. No topo, estariam os arianos, considerados a “raça pura” segundo essa ideologia. Todas as demais seriam vistas como produto da degeneração e da impureza racial. Isso incluía os judeus, principais alvos do Holocausto, mas também as pessoas negras, consideradas uma “ameaça biológica” à sociedade alemã. Na lógica racista dos nazistas, o simples fato de uma pessoa negra existir já era visto como um risco para a “pureza racial” desejada.

Um exemplo emblemático desse racismo foi o caso das chamadas “Crianças da Renânia”. Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados franceses — muitos deles vindos de colônias na África — ocuparam partes da Alemanha, inclusive a região da Renânia. Algumas mulheres alemãs tiveram filhos com soldados negros, e as crianças nascidas dessas relações eram chamadas pelos nazistas de “bastardos da Renânia”. Para o regime nazista, tais crianças simbolizavam a “contaminação” da raça alemã. A política oficial aplicada nesse contexto foi a de esterilização forçada: centenas de crianças negras foram levadas para clínicas e impedidas de futuramente ter filhos, como parte de uma campanha racista de “higiene racial”.

Mas, no nazismo, os negros não foram apenas alvo de esterilizações. Eles também eram excluídos das escolas, privados de oportunidades de trabalho e frequentemente perseguidos pela polícia. Muitos foram presos arbitrariamente e enviados para campos de concentração, onde sofreram torturas, trabalhos forçados e, em alguns casos, morreram em condições desumanas. Embora o número de pessoas negras vítimas do Holocausto não tenha sido tão elevado quanto o de judeus, isso não diminui a gravidade da violência que sofreram.

O racismo nazista também se manifestou em áreas como o esporte e a cultura. Um caso notório foi o do atleta negro norte-americano Jesse Owens, que participou das Olimpíadas de Berlim, em 1936. Owens conquistou quatro medalhas de ouro, derrotando os atletas alemães em pleno território nazista. Sua vitória foi um duro golpe para as pretensões de Hitler, que defendia a superioridade da raça branca. Mesmo diante do desempenho incontestável de Owens, o regime nazista tentou ignorar suas conquistas e continuou a propagar a ideia de que os negros eram fisicamente e intelectualmente inferiores.

Hitler expressou seu desprezo pelos negros em seu livro Minha Luta (Mein Kampf), escrito entre 1925 e 1926. A obra afirma que o povo negro era uma ameaça para a Europa e que sua presença em países como a França seria resultado de uma “conspiração judaica”. Na mentalidade do líder alemão, o simples fato de haver soldados negros na França já era visto como uma forma de ataque à “civilização branca”.

Assim como aconteceu com judeus e ciganos, a perseguição nazista às pessoas negras foi além da violência física e da morte. Houve um ataque sistemático à cultura desses grupos. Não é exagero dizer que a ideologia nazista tinha como proposta apagar essas minorias, exterminando suas línguas, tradições, memórias e modos de vida. Por isso, o racismo do regime nazista pode ser compreendido como uma forma de genocídio, ou seja, enquanto prática de extermínio em massa voltada a grupos específicos.

Infelizmente, o racismo propagado pelo nazismo não ficou restrito à Alemanha. Ele influenciou outros movimentos racistas ao redor do mundo, como o apartheid na África do Sul, os grupos neonazistas que surgiram após a Segunda Guerra Mundial e até mesmo a Ku Klux Klan, nos Estados Unidos. Todas essas manifestações encontraram no nazismo uma fonte de inspiração para o ódio racial.

A verdade é que o racismo presente no regime nazista foi mais um elemento de um sistema de opressão já existente contra grupos vulnerabilizados — um sistema que, infelizmente, ainda persiste. Por isso, essa ideologia não pode ser vista como algo restrito ao passado.

Grupos neonazistas continuam a crescer no Brasil e no mundo, muitas vezes escondidos nas redes sociais, espalhando as mesmas ideias de “pureza racial”, ódio aos negros, aos judeus, aos indígenas e a qualquer um que seja visto como “diferente”. Apenas para citar um exemplo recente, em abril de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Odium, que desmantelou uma célula neonazista na cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.

Compreender que o nazismo também direcionou seu ódio racial às pessoas negras é essencial. Isso nos ajuda a entender que o racismo não atinge apenas um grupo, mas é um sistema que busca excluir, desumanizar e até eliminar qualquer pessoa que não se encaixe no padrão tido como superior. Trata-se de um sistema que precisa ser combatido com informação, educação e ações concretas para desmontar seus mecanismos de violência.

Por isso, o racismo é um problema que não podemos ignorar. Precisamos enfrentá-lo de frente, seja o racismo brutal e escancarado, como no nazismo, seja o racismo sutil e disfarçado do dia a dia. O antirracismo é uma luta que deve ser de todos e todas, hoje, agora e sempre.