
Felipe Camarão vive o momento mais delicado da sua carreira pública. Vice-governador do Maranhão, outrora tratado como reserva técnica da política local, virou alvo de isolamento progressivo dentro do próprio grupo político que ajudou a eleger. Um escândalo pessoal, somado à resposta errática, implodiu o que restava de viabilidade para 2026.
As conversas atribuídas a Camarão, com teor sexual e ofensivo à deputada Mical Damasceno, circularam rápido — e com peso. Embora ele tenha negado o conteúdo e movido ação contra o jornalista que as divulgou, sua reação concentrou-se na “ilegalidade do vazamento”, e não na contundência de negar com clareza e indignação. Resultado: reforçou a percepção de que as mensagens são reais. E se a Justiça confirmar isso, Felipe não apenas terá dito o que não devia — terá mentido para o povo.
E aí, não sobra narrativa, nem base. O PT maranhense está dividido, os aliados o evitam, e a janela política vai se fechando. Já há quem fale em CPI, moção de repúdio e até impeachment — que, embora raro para um vice, é juridicamente possível se a conduta for grave e confirmada. A lei permite, e os votos podem surgir, sobretudo se a bancada evangélica decidir reagir institucionalmente.
Em meio à tempestade, uma tese de bastidor: Flávio Dino poderia operar silenciosamente a queda de Brandão via STJ, entregando o governo a Camarão por gravidade constitucional. Pura ficção. Não há hoje qualquer ação contra Brandão tramitando no STJ. E mesmo que houvesse, restam menos de dez meses até o prazo de desincompatibilização. Nenhum milagre jurídico acontece nesse tempo.
Do lado de fora do Palácio, Eduardo Braide cresce. Lidera pesquisas não-oficiais com mais de 30%, domina o voto urbano e se projeta como o nome mais competitivo da oposição. Lahesio Bonfim ainda respira no interior, mas tende a desidratar com o avanço do voto útil da direita.
O campo governista, por sua vez, se organiza com Iracema Vale ou Orleans Brandão para o governo, com Carlos Brandão indo ao Senado e Weverton Rocha buscando reeleição. O tabuleiro está montado — sem espaço para Felipe.
Resta uma única alternativa racional: disputar a Câmara Federal. Com estrutura, apoio de Brandão e prioridade na chapa proporcional, Camarão pode eleger-se com força, manter mandato, foro e reconstruir a imagem. É a única trincheira possível. Insistir no Senado seria suicídio político. Esperar por um terremoto jurídico no STJ, delírio.
A política não perdoa quem ignora a realidade. Felipe precisa entender que este não é mais o tempo de disputar o protagonismo. É o tempo de resistir. O mar não está para Camarão — e talvez, só talvez, a maré volte se ele souber recuar sem afundar.