
Talvez um dos maiores dramas sociais da atualidade seja a questão da delinquência juvenil. Não exatamente só em razão das práticas dos atos infracionais de que se tem notícia em nosso cotidiano mas, principalmente, pelo espectro danoso e pelas graves repercussões que esse fenômeno alcança, tanto no seio familiar como na sociedade. O mal afeta a todos. O infrator, pela sua desconexão com os valores morais da vida. A família, como a primeira vítima dos dramas que daí decorrem. A sociedade pela difusão dos efeitos maléficos que se espargem e produz ameaças em todas as direções.
O jovem, em estágio mais avançado da delinquência, perde a sua própria estima pessoal. Ressente-se de sentimentos e respeito aos seus familiares. Perde a consciência do certo e do errado e não mais consegue controlar os impulsos de sua vontade. A convivência social desaparece, e até os preceitos religiosos não mais lhe servem de conforto naqueles momentos que sempre recorremos a eles. Passa, enfim, a ser vítima de tantos outros fatores de confronto com as normas de convivência que o mundo nos impõe.
Na família, o efeito é doloroso. São as desobediências domésticas, as companhias perniciosas, as ausências noturnas, as faltas escolares e as ausências prolongadas de casa. E o mais grave, os vícios do álcool e das drogas que não raro acontecem, geradores de ímpetos agressivos, notadamente no meio familiar. A isso se somam os desvios para atos próprios dessa delinquência, como aqueles semelhantes aos furtos, aos roubos e à violência física, às vezes até com resultado morte, inclusive do próprio adolescente. Tudo isso levando a família a extremos sofrimentos de angustia e desespero.
As mães, sempre mais presentes no dia a dia dos filhos nessas circunstâncias, são as que mais sofrem e encaram as consequências. Claro que, nesses momentos, todos da família sofrem. E o preço vem: são os olhares de censura e de desconfiança, o distanciamento dos vizinhos e dos amigos e o alerta no ambiente de trabalho. E assim, surge toda uma gama de pressão social cuja medida nunca se sabe.
A sociedade, ora como vítima direta, ora como vítima indireta, também está sujeita aos efeitos desse desvio juvenil. Assim, quando sofre na própria pele ou no seu patrimonio o resultado das ações perniciosas que essa delinquência produz, consubstanciados nos atos infracionais mais graves, inclusive na violência sexual, que ultimamente tem se revelado como produto também dessa delinquência .
Tanto quanto nos temores que assustam e que minam a natural tranquilidade que deveríamos ter na nossa convivência e na nossas relações sociais. Não bastasse a violência de procedência adulta, temos agora a nos amedrontar essa violência juvenil. inclusive nas escolas, onde alunos e professores já não mais se sentem seguros em um ambiente que deveria ser próprio de educação e respeito.
É preciso que se faça alguma coisa para frear essa projeção de violência no seio de nossa juventude. E não apenas com punição, repressão e medidas socioeducativas. Urge que se adotem medidas preventivas. Medidas que evitem a instalação, a progressão e o ápice dessa escalada do mal. São muios jovens, muitos pais, muitas famílias e muitas pessoas que se perdem e que sofrem as gravíssimas consequências dessas atos de delinquências.
Precisamos entender que tudo começa na família, na infância e na juventude. Quer seja para o bem, quer seja para o mal. Então nosso papel – governo, sociedade, autoridades públicas, escola, setores da economia, da produção e a família – é voltar nossas vistas a esses três vetores de aperfeiçoamento e desenvolvimento humano: a família, a criança e o adolescente. Principalmente junto àquelas famílias em situação de vulnerabilidade e com inacessibilidade aos meios de educação e de progresso social e econômico. É preciso que se entenda que daí é que se gera o adulto, que também pode ser para o bem ou para o mal.
Estudos revelam que 2/3 dos criminosos adultos foram pré-delinquentes na juventude, e a prática dessas transgressões teve inicio já entre os 9 e 11 anos de idade. Em dados ainda de 2018 já se alcançavam uma cifra de mais de 24 mil crianças e adolescentes apreendidos. Ainda nesse período mais de 249 mil adolescentes respondiam por atos infracionais. São números que assustam e que só tem crescido.
A família mal orientada e mal estruturada, notadamente sem meios razoáveis de sobrevivência, quase sempre resulta em filhos desprotegidos de assistência e de educação. Nesse ambiente, só se apresenta um caminho: a rua. Lá, pode-se encontrar de tudo. Dai então, tem o Estado que atuar com mais vigor. Sem nada de excepcional, apenas com o possível. Programas de assistência e orientação familiar, bem formulados e bem conduzidos já ficam de bom tamanho. Diga-se bem, de assistência e de orientação. E não só de assistência.
Disponibilidade de creches escolares para acolher essas crianças, acompanhamento de frequência escolar, meios de ocupação com algum tipo de incentivo para aqueles que já atingiram a adolescência, fomento de práticas esportivas, inserção em projetos de artes e cultura, programas de aprendizagem profissional, inclusive para aqueles que, eventualmente já estejam submetidos a medidas socioeducativas ou medidas de recuperação juvenil. Além de outras tantas medidas nesse sentido, destinadas a proporcionar uma vida mais saudável à criança e ao adolescente.
Se tais medidas não resolvem tudo, pelo menos devem livrar alguns desses jovens e suas famílias dessas agruras, sabidas de todos nós, que a delinquência juvenil produz.