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Pessoas mal-amadas, mal se amam

Ruy Ribeiro Moraes Cruz é psicólogo CRP 22-00582, advogado OAB/MA 27106 e mestre em gestão, trabalho, educação e saúde-UFRN

É comum pessoas escolherem voluntariamente ou relatarem viver a solidão por não serem correspondidas em sua forma de amar. Desfolham pétalas enumerando suas amarguras, dizendo alternadamente “bem-me-quer” (me ama) e “mal-me-quer” (não me ama), e assim por diante vão projetando de forma ingênua a responsabilidade aos outros e a sorte à sua felicidade.

O sentimento de desamparo e a necessidade de atenção podem revelar fragilidade no gerenciamento das emoções, interferindo na sua estima e no limiar de frustração à impossibilidade do outro de atender às suas necessidades. A insuficiência torna os outros egoístas e apáticos à sua dor, o “mal me quer” aciona um mecanismo de defesa que pode se revelar em comportamentos agressivos, pois deveriam suprir as suas vontades, e se não o fazem, é porque “não me ama”.

Se “me ama”, logo “bem me quer” faz o que agrada, tornando a reciprocidade das ações um “toma lá dá cá” onde moedas simbólicas são criadas para atender a um câmbio de desconfiança, nas quais as taxas de conversão escondem as reais intenções, pois assim se faz o bem olhando bem a quem.

Mas, nesses casos, caro leitor, eu pergunto: e o mal a quem fazemos senão a nós mesmos? Não é à toa que a expressão, se traduzida, revela-se em um “toma lá tua aliança, dá cá a minha aliança”, um sacramento diante do altar e embaixo do arco triunfal da Igreja, segundo aduz o professor Darcy Damasceno ao citar a obra “Memórias de um sargento de milícias”, de Manuel Antônio de Almeida.

Esta obra, conhecida por romper com as idealizações do Romantismo no Brasil, nos faz entender a camaradagem das relações interpessoais e políticas, que indicam estarem adubadas por uma amoralidade de interesse mútuo, frente à dualidade do “bem contra o mal”.

Portanto, ao nos tornarmos companheiros de amorosidade, devemos ir além dos compromissos sociais e políticos ao transcender o “sentimentalismo ingênuo”, ao exercitar o amor ético, reconhecendo que trazemos conosco feridas, que de antemão merecem ser acolhidas e cuidadas.

Em minha experiência profissional, escuto de forma qualificada relatos contextualizados de situações marcadas por violências, conflitos e abandono, onde as pessoas adotam estratégias subjetivas de alívio e prazer mesmo sendo os que com ferro ferem, mantendo-se em relações que acorrentam suas expectativas aos outros.

Entretanto, desacreditam na capacidade emocional de atendê-las ou torná-las congruentes aos seus propósitos de vida. É perceptível que muitos desses discursos são regados por culpas e sentimentos negativos, que estagnaram ao mesmo tempo que protelam o reconhecimento e a tomada de decisão a favor do amadurecimento.

Para isso, torna-se salutar o estabelecimento de uma rede de suporte emocional e adesão à psicoterapia como forma de promover a emancipação do bem-querer diante dos ditos “mal-amados”.

Por fim, é preciso compreender que, ao alinharmos nossos processos e trajetórias de forma congruente, seremos, segundo o psicólogo Carl Rogers, sujeitos capazes de cultivar a vida plena ao ‘mergulhar em cheio na corrente da vida’. Teremos, assim, a liberdade de ser genuínos e autênticos, inclusive para escutar o próprio lamento ao desfolhar as amarguras de não se sentir amado pelos outros, sem antes praticar a amorosidade por nós mesmos.