

Na pauta cotidiana, somos convidados a nos expressar, tecer nossas opiniões sobre a última rodada do campeonato de futebol, ou jogada do tabuleiro político-partidário, a fama passageira e os atritos dos “brothers” do velho reality que nos apresenta uma “falsa necessidade” de adquirir os produtos do “mercado que nos aprisiona”.
O Psicólogo Social, Kurt Levin, em seus estudos sobre teoria de campo e dinâmica de grupos, nos aponta que esta ilusão de acesso a um armazém livre ou pago, produz uma satisfação efêmera, que substitui o “ser” pelo “ter”.
Neste carnaval, poucos desconhecidos roubaram a cena, o alvo estava direcionado à garota propaganda que se apresentou como rainha de bateria, mas que demonstra deter o poder de vender-se como marca de beleza, da ponta do pé à cabeça do seu corpo, ou nas costas dos outros integrantes da ala.
Destaque maior foi dado à escola de Niterói, que alfinetou a idealizada família brasileira, comumente veiculada em propaganda de margarina. Agora, surgiu enlatada, não deixando espaço algum aos amantes, tampouco aos filhos enjeitados e desnaturados.
Esta agremiação, acabou rebaixada ao retirar a carne de forma afrontosa no início da quaresma, sem conserva ou sem fantasiar a vida nua e crua, tornando-se um estopim para que a demonstração de raiva e ódio fosse pautada entre os grupos sociais conservadores apaixonados por Cristo, mas que adoram conhecer as histórias de Abraão, Moisés e Gideão, repletas de batalhas e injustiças sociais.
O ódio, diferente da raiva, se traduz em sentimentos duradouros, corrosivos das experiências não elaboradas que remetem a medos, preconceitos e intolerância ao outro ou ao projetado como sombra de si mesmo, como afirma a psicanálise.
Segundo a influenciadora Zesu, entrevistada na reportagem da BBC News Brasil, o ódio se tornou um negócio lucrativo ao impulsionar não apenas o que se pensa, mas por ecoar conteúdos com códigos de barras, em troca da oportunidade de que “tomates” sejam jogados, caso desagrade aqueles que assistem e disputam o palco “sucesso”.
Estes oportunistas, por sua vez, guardam na intimidade o segredo de que “falem bem ou falem mal, o importante é que falem de mim”.
Logo, entre likes e cancelamentos, se mantêm vívidos em uma bolsa de valores, que possui parâmetros como o número de seguidores e seu nicho a serem alcançados, assim ganham “mimos” generosos, fazem acordos de publicidade, atrelando-se a produtos a serem consumidos.
Mas nesse processo de aculturação, caro leitor, ou diante da fila do pão, seríamos capazes de distinguir o joio do trigo, ao semear, proliferar e consumir um disfarce que não proporciona a paz, mas sim o ódio como entretenimento.
Estaríamos anestesiados ou sobre os efeitos placebos de cura pela retidão? Recordo-me da visão de Frei Betto, que compara a Religião a um mapa e a espiritualidade vivência e experiência real.
Penso e, te convido a refletir, sobre o nexo de causalidade das cenas de violência dentro e fora dos lares, e postulo que o contexto do descuidar das frustrações, desejos reprimidos e traumas vividos contribui com o processo de vitimização.
A sociedade prefere guardar em latas seus sentimentos, descrevendo rótulos e lacrando qualquer possibilidade de diálogo sobre conteúdos que remetem às forças psicológicas básicas e complexas de nossa subjetividade.
A prevalência dos sentimentos negativos contamina o nosso cotidiano carente de generosidade, indicando que os discursos são incongruentes ao objetivo da divina salvação, por desconsiderarem, por exemplo, a passagem que aduz que “pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:16-20).
Por fim, recordo que se encontram em desuso os ensinamentos pregados por Cristo, pois é rara a ingênua demonstração de compaixão, compartilhamento do pão, a prática da humildade e da misericórdia como forma de prevenir apedrejamentos, por intermédio da consciência individual e do perdão.
Afinal, como você se comportaria ao escutar a célebre frase do Evangelho de João (8:7): “Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra”.