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O viés subjetivo nega a alteridade

Ruy Ribeiro Moraes Cruz - Psicólogo, Advogado e Mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde-UFRN.

Conheci, por intermédio do psicólogo português Leonel Garcia-Marques, um relato curioso, uma anedota, que de forma despretensiosa nos faz refletir sobre o viés de subjetividade também conhecido como viés de confirmação.

Ela começa assim: uma vez, um senhor tinha o costume de atirar as botas contra a parede antes de dormir, o que incomodava seu vizinho devido ao barulho. Este, então, com jeito, lhe pediu que evitasse repetir tal comportamento. Sensibilizado, o senhor pediu desculpas, mas no dia seguinte, por reflexo, atirou a primeira bota na parede e, lembrando-se do acordado, retirou a segunda em silêncio. Entretanto, o vizinho, incapaz de relaxar, bateu à sua porta minutos depois, dizendo-lhe: “Por favor, atire a segunda bota contra a parede para que, finalmente, eu descanse”.

Caro leitor, neste gênero textual, sugiro que trabalhemos dois conceitos básicos: a empatia e a alteridade, para então evoluirmos para o debate sobre os riscos que os vieses de confirmação podem se estabelecer enquanto padrão, para justificar decisões, desconsiderando o outro.

A empatia, segundo as diretrizes do Centro de Valorização da Vida-CVV, aduz que os sentimentos devem ser acolhidos de forma incondicional, respeitando o contexto e a compreensão de quem fala, sendo, portanto, necessária a validação do sofrimento, o sigilo e anonimato, o que se perfaz em um canal de acesso emocional de acalento.

Logo, não é apenas “se colocar no lugar do outro”, é se perceber em uma condição onde o outro sofre e atuar como propulsor de segurança emocional e paz. Escuta distinta da atuação da Psicologia Clínica, que consiste em uma prática mais qualificada, se comparada à atuação do voluntariado que, de forma ativa, oferece o suporte emocional em momentos de intensa desesperança.

A alteridade é também um princípio do CVV se apresenta como um sentimento e proposta ética que visa “resgatar nossa sensibilidade perdida em meio à brutalidade da vida”, indo de encontro ao que é compreendido como lógico. A filósofa Márcia Tiburi destaca que é o mesmo que construir algo ao contrário, para isso é importante o autoconhecimento e um novo olhar sobre o outro, enquanto um ser singular, que congrega a vida.

O filósofo Chul Han, autor do livro Morte e Alteridade, aduz que a morte consiste em um fenômeno social, portanto, ao termos consciência acerca da finitude, devemos aderir ao compromisso de nos conectarmos melhor com o outro e a sociedade, ou seja, ao termos a morte em mente, a alteridade nos faz acessar a verdadeira essência da vida.

Para o filósofo, a solidão consiste em um ato de desconsiderar o outro como válido, é negar a alteridade, aceitando as verdades enquanto mecanismos convenientes às suas próprias previsões pessimistas ou dos algoritmos limitantes refletidos pelas redes sociais.

Na anedota acima, o vizinho, por exemplo, após ser cotidianamente incomodado pelo péssimo hábito, passou, em seu íntimo, a sofrer pelo viés avesso ao imprevisível, já que a bota já repousava em silêncio.

Mas como conferir credibilidade ao ato de empatia após o primeiro som barulhento? Se houve o primeiro erro, ele se repetirá, na verdade, a confirmação se tornou algo inevitável e independente da intenção do outro.

O fato é que, em minutos, ansiedade e insônia, o atormentaram, ao ponto de ir ao dono das botas e pedir-lhe que dirimisse a sua angústia e assim pudesse descansar.

No contexto das relações interpessoais, anula-se a singularidade do outro, desacreditando no poder transformador dos sentimentos, afetos e no desejo ao bem comum. A lógica do Eu, segundo Chul Han, gera a perda da fonte do significado, criando uma falha no dialogar com o contraditório ou com o que não é espelhado.

A amabilidade e a gentileza, portanto, seriam o contraponto e o antídoto à falta de alteridade. Acredito que tais estratégias, se bem administradas, podem cuidar das “feridas psicopolíticas”, ao promover uma nova cultura nas relações do Eu, o Eu com o outro, e a favor de uma humanidade mais colaborativa.

Ao aderirmos à postura ética do ser, dominaremos as habilidades emocionais de resistência ao neoliberalismo, pois nos inclinaremos despretensiosamente ao reconhecimento, nos libertando da ótica do outro idealizado.

Por fim, cito Ferreira Gullar ao contextualizar que o amor é uma identificação profunda “é um refrigério, é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável”.