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É necessário renascer

Ruy Ribeiro Moraes Cruz - Psicólogo CRP 22-00582, Advogado OAB/MA 27106 e Mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde-UFRN

Em nossa trajetória, somos desafiados a recomeçar, voltando ao ponto inicial, munidos de experiências prazerosas, dores, lutos inesperados e outros previsíveis.

O acordar, para isso, não deve ser concebido como um simples abrir dos olhos, em que tecemos atos repetidos desprovidos de raciocínio, pois, se automatizarmos o recomeçar das semanas, meses ou do ano novo que se aproxima, ficamos frágeis e propensos ao desânimo.

Cada dia, acabamos nos exaurindo, com o propósito de nos mantermos úteis aos outros, assim como ativos diante dos interesses neoliberais, ao nos seduzirmos pelos padrões que nos alienam ao interpretar erros como insucessos, restringindo a nossa inteligência a mera ferramenta para subir degraus, como postula o fordismo.

A cultura do renascer se perfaz no compromisso individual acerca dos sentimentos, reflexões e reações ao tomarmos consciência das consequências dos atos, assim como dos paradigmas, ao recalcular rotas a favor de um novo traçado resiliente aos elementos que se apresentam.

É como se nos preparássemos para sentir a sutileza de um chuvisco no rosto, assim como sermos acometidos por forças que nos geram temporais de lágrimas, em cada dia conflitante nas relações afetivas, como laborativas, mediante a chegada do descanso semanal, das festividades do fim do ano e das férias.

No fluxo respiratório, esta pressão emocional nos faz comprimir e descomprimir; por isso, ficamos ofegantes, “sem ar” em frente a situações difíceis, tentados a buscar sensações de alívio, prazer e válvulas de escape que justifiquem ou anestesiem as frustrações, frutos de pensamentos negativos que rivalizam, comparam e modelam o desempenho, o que, segundo Paulo Freire, nos faz perder a autenticidade e o poder crítico da reinvenção.

Caro leitor, é possível que alguns destemperos tenham como base posturas autossabotadoras, como vícios e outros impulsos que resultam em violências. Destacam-se aqueles que afetam a nossa autossuficiência, na qual nos rebelamos, especificamente ao lidarmos com críticas, que merecem ser compreendidas como oportunidades de rever conceitos e práticas.

Adélia Parado aduz que temos que encarar o sofrimento, ao invés de desviarmos nos nutrindo de placebos como os livros de “autoajuda”, que nos fazem encontrar a dor a cada esquina, a consciência de si, afirmando que o sofrer é permanente é importantíssimo, “pois todos temos motivos para o sofrimento” devido à nossa precariedade e desconfortos morais e filosóficos.

A teopoética mineira ressalta que perdemos tempo ao desvalorizarmos temas necessários como a finitude. Nos iludimos acerca do adoecer, envelhecer e o morrer. Desviamos o olhar sobre o fim, como se fôssemos capazes de permanecermos despercebidos, no brincar imaturo de “esconde-esconde”, negligenciamos o dialogar, o aprender, o ensinar; só herdamos e perpetuamos ciclos operacionais pré-moldados, os quais deveríamos ressignificá-los, objetivando o transcender de nossas vulnerabilidades.

Martin Heidegger nos propõe a reflexão sobre o que é o ser, o tempo e o ser-no-mundo, logo, nos ensina acerca do autocuidado, por meio da tomada de consciência das possibilidades e das angústias íntimas e interpessoais que nos limitam.

A psicologia existencial, portanto, postula que o sofrimento, se bem acolhido, pode favorecer o aprendizado de um viver mais promissor, por exemplo, ao tornar uma frustração ferramenta de sabedoria.

A psicoterapia, ao intervir na subjetividade, colabora para que a aceitação seja oportunizada aos que perderam a esperança, dando lugar ao autorrespeito, ao pedido de ajuda diante da necessidade de prosseguir renascendo, com fé e paz, enquanto não somos tocados pela infinitude divina.

Afinal, como diz o patrono da educação, Paulo Freire, a cultura do educar deve formar em vez de treinar; somos um “ser com o mundo e com os outros”, capazes de responder ao propósito de formar elos significantes para aqueles que amamos e para a humanidade.